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Mostrando postagens de 2025

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

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Na semana passada havíamos planejado viagem para uma pequena cidade de Minas Gerais, onde passaríamos o dia de hoje. Eu estava animado no começo, mas fui desistindo aos poucos, até abandonar a ideia. E o meu dia começou cedo. Tão cedo, que seu início se deu à meia-noite (pra quem é da noite), ou zero-hora (pra quem é do dia). Isso se deu quando fui ao celular mandar mensagem para um tio que também faz aniversário hoje. Tenho a alegria de compartilhar com ele a data natalícia, não o ano. Nos tempos antigos ele era bem mais velho do que eu. Quando fiz nove, ele fez dezoito! Hoje essa diferença é relativamente bem pequena – somos, os dois, uns velhotes. O dia amanheceu e me levantei para as preces e a caminhada. Abri a porta e a Maneka, minha cadelinha, já me esperava; os outros três me aguardavam à meia-distância. Ao meu bom-dia, todos se aproximaram e começaram a me disputar. Dei um ralho e todos se afastaram, menos a Maneka, que continuou roçando meus calcanhares enquanto eu caminha...

MEMORIAL DE VIAGEM -- QUARTA PARTE

10) Estou chegando à casa da tia Geni. Ela já me viu, mas sei que terei de esperar um pouquinho, porque antes de receber alguém, a tia costuma dar uma espiada no espelho para acariciar o cabelo, que ela faz com a palma das mãos. Dependendo de quem chega, isso pode demorar desde uns poucos minutinhos a um tempo mais dilatado. Não houve demora. A tia Geni vem devagarinho pela casa e ouço movimento na fechadura. Ela abre a porta da sala, caminha com dificuldade até o gradil do alpendre e me entrega a chave. Ela sempre faz assim devido à sua dificuldade com a pequena escada que dá acesso à casa. Abro o portão não sem antes a chave me escapar da mão, que recupero com dificuldade porque o cadeado fica do lado oposto de quem chega. A tia me olha, esperando em silêncio com as mãos apoiadas na grade enquanto eu fecho o portão e caminho na sua direção. Ao subir a pequena escada que dá acesso à varandinha, os gatos que estavam por ali, partiram em tresloucada disparada. Eram muitos gatos. Dez? ...

SERIAM 'NOVENTA E CINCO'

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Já era noite. Talvez neblinasse ou fizesse frio – disso já não me recordo. Lembro que estávamos na cozinha quando um irmão disse ter ouvido um ‘toque-toque’ na porta da sala. Diante disso, ficamos apreensivos, mas não estávamos indefesos. Tínhamos o papai conosco e nele a confiança para lidar com a situação, seja ela qual fosse, era certa. Estávamos protegidos. Preciso registrar que estou falando de um tempo distante, e aqui rememoro algo acontecido há mais de meio século. Naquela ocasião, morávamos num sítio do meu avô paterno, numa pequena casa sem vizinhos próximos, sem água encanada nem luz elétrica. A iluminação era por lamparina a querosene. Tínhamos duas lamparinas: uma era exclusiva da minha mãe, que, adoentada, gostava de ficar reclusa no seu quarto; a outra era para o restante da família e ficava na cozinha. Era na cozinha que sempre ficávamos, particularmente à noite. Alguns sentados no banco de madeira, outros ao redor do fogão a lenha. Era na cozinha que tomávamos as ref...

MEMORIAL DE VIAGEM – TERCEIRA PARTE

7) Saio da padaria, ando uns dez minutos e chego à rodoviária. Como o ônibus demoraria, aproveitei para visitar uma tia que mora nas cercanias. Não tendo o endereço, mas sabendo que é perto da rodoviária, fui procurar. Entrei numa casa de produtos agrícolas e perguntei: “Você sabe onde mora a dona Aparecida?” O homem me olhou, olhou do lado e perguntou à colega. Ela não conhecia nenhuma ‘dona Aparecida’. Arrisquei ‘Cida”; não deu. ‘Cidinha’; não também. “Aquela mulher que cuidava do irmão que morreu recentemente...” “Ah, sim. Ela mora ali!”. Os dois saíram pra calçada e apontaram para um prédio. Andei um pouco e me enrolei, perdendo o rumo dado por dedos tão dedicados. Parei numa farmácia e fiz a pergunta, mas agora da maneira certa. “Ali, naquele prédio, em cima da padaria”, respondeu o funcionário. Fui lá e vi que havia vários números de apartamentos no interfone. Pensei que poderia ser o 303 e apertei uma, depois outra vez – nunca aperto três vezes. Não deu. Entrei na padaria, comp...

MEMORIAL DE VIAGEM – SEGUNDA PARTE

4) ‘Apeei do ônibus’, como diria papai, às sete e quinze da manhã, perdendo o outro que saíra às sete e me levaria a Guiricema. A próxima condução seria somente às dez e meia, de forma que eu teria que pegar táxi ou esperar um tempão. Decidi esperar e aproveitei para visitar uma amiga que mora naquela cidade e se encontra adoentada.  Procurei um táxi, mostrei o endereço e o trajeto, que obtive por um aplicativo a fim de não ser enganado, mas o taxista me pareceu honesto, dizendo que “a rua ficava logo ali, mas o problema é a numeração”. E me provou, apontando o número 53, por exemplo, ao lado do 123; depois do 123 já vinha o 65, seguido pelo 215 etc. Uma loucura! Enfim, achamos a casa da amiga. Paguei, desci e comecei a chamar. Gritei, bati palmas... nada! Pensei: errei o endereço, mas fazer o quê... Perguntei a uma jovem que saía da casa vizinha, mas ela não conhece a minha amiga, nem sequer sabe o nome. Em seguida, veio um senhor, talvez o pai da jovem: “Conheço, sim. Ela deve estar...

MEMORIAL DE VIAGEM -- PRIMEIRA PARTE

Esse relato foi enviado a alguns contatos no ‘zap’. Para não cansá-los, o texto foi dividido em alguns capítulos e enviado em dias bastante espaçados. Contudo, optei por fazer pequenas modificações a fim de torná-lo mais adequado ao público deste blog que, embora não seja grande, é desconhecido e de tamanho indefinido.   1) Numa segunda-feira à tardinha, chego à rodoviária do Tietê, em São Paulo, e vou ao toalete. A torneira fecha automaticamente antes mesmo que eu termine de lavar as mãos. Insisto, apertando novamente um treco e a torneira teima em fechar novamente me impedindo de lavar sequer as pontas dos dedos. Desisto. Saio do sanitário e termino o asseio com álcool, que sempre tenho na mochila. Em seguida, vou a um quiosque e compro um suco de abacaxi com gelo e sem açúcar. Procuro um banco mais isolado e pego meu lanche: um pão com carne e queijo, que fiz em casa antes de sair. Sempre faço assim, porque nos quiosques da rodoviária qualquer “pão com nada” custa a metade de um ...

NO AMBULATÓRIO

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  Na sala-corredor de espera de um ambulatório, eu aguardava a médica para avaliação de um exame quando fiz a foto que abre este texto. A imagem é apenas uma ilustração, e aqui não farei conexão com o exame nem com a consulta. Quero é navegar em águas mais densas; quero o mar. Há tempos que eu vinha me preparando psicologicamente para um procedimento médico. Após dois dias e meio de intensa dieta, que foi finalizada com um rigoroso jejum, fui conduzido ao ambulatório por minha companheira. Estacionamos no pátio e desci do carro, mas percebi que eu não conseguiria andar. Cambaleante, tentei dominar as passadas, mas tudo começou a girar e me agachei para não cair. Nisso, uma jovem senhora se aproximou e ofereceu ajuda.  Seu nome é Gorete e trabalha ali como enfermeira, ela me disse depois. A Gorete, que nem tinha começado seu turno, já entrou na lida, oferecendo-me uma cadeira de rodas, que aceitei agradecido. Essa foi a primeira vez que usei uma cadeira de rodas, uma experiência hum...

CÁRMEN LÚCIA: A DAMA DA DEMOCRACIA

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Ninguém me pediu opinião sobre a condenação da cúpula golpista, mas estou dando o meu parecer, embora não sem antes dar vivas à Carmen Lúcia, essa destemida norte-mineira que honra como poucos a toga que veste. Dona Carmen é diferente, porque ela chegou ao STF sem que tenha feito rapapés nem beija-mãos. Dos onze integrantes da corte, ela é a única que não está e nunca esteve amarrada a compadrios. A única! Admiro o Flávio Dino, a quem atribuo qualidades de um estadista – atualmente, na minha opinião, o maior nome da nossa República. No entanto, neste momento quero exaltar a mineirinha de Montes Claros, porque foi o voto dela que selou o destino dos golpistas. Segundo os estudiosos, essa é a primeira vez que o Brasil julga e condena conspiradores que atentaram contra a democracia. E já foram vários atentados, pelo menos quinze! Agora me surgiu uma dúvida: será que os réus vão para a gaiola? Sinceramente, penso que não. No Brasil, cadeia tem sido o destino de pobre e de preto; a grã-f...

MÁRIO

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Numa manhã, em viagem de visita a familiares, ao longo de uma maratona recheada de imprevistos e já bastante fadigado, eu me sentei num banco de cimento da rodoviária e comecei a ler enquanto esperava o ônibus. Estando já imerso num conto de Clarice Lispector, um farfalhar desviou minha atenção: absorto em seu labor, um homem varria, varria e ajuntava; varria, varria e ajuntava. Depois pegava o lixo com a pá e despejava num saco plástico. Era o Mário que se aproximava, trabalhando calado e ligeiro. O corpo esguio lhe conferia agilidade, fazendo lembrar os campeões da Corrida de São Silvestre. No entanto, o homem que varria, embora nunca tenha sido atleta, certamente tem habilidades quase olímpicas, sem as quais não sobreviveria. Quando ele chegou mais perto, peguei meus trastes e mudei de lugar a fim de lhe facilitar o trabalho, mas não sem antes de lhe dar bom-dia. Foi a primeira vez que o Mário parou de varrer. Agora, apoiando-se no cabo da vassoura, com os olhos fixos no horizont...

QUARENTA ANOS DE PADRE

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Esse é meu irmão José de Anchieta, que completou exatos quarenta anos de presbiterato no último dia quatro. Eu deveria ter escrito algo naquele dia, mas acabei optando por minhas costumeiras desimportâncias . Ademais, esse mano costuma comemorar aniversário por vários dias, chegando a mês de festejos! Então penso estar valendo o escrito aqui. Da irmandade, talvez eu seja aquele que tenha acompanhado mais de perto a trajetória desse irmão nos tempos de seminário. Isso porque morei por uns tempos em Juiz de Fora e lhe fazia frequentes visitas. Pelo menos de uma coisa me orgulho na exclusividade: fui o único da família que assistiu às três cerimônias de sagração desse clérigo: os Primeiros Votos, na capela do Seminário Santo Antônio; o Diaconato, numa igreja do bairro Santa Cruz, também em Juiz de Fora; e a Ordenação Presbiteral, essa acompanhada por todos os familiares, na igreja matriz de Guiricema – todos esses eventos no estado das Minas Gerais. Ninguém sabe de um segredo, que talv...

O BANANINHA

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Nunca pensei que um dia eu pudesse agradecer, pelos “grandes serviços prestados”, esses dois notáveis caricaturados acima. Um pouco mais à frente tento explicar o porquê desse meu estranho contentamento com tais ‘ roedores’ . Um deles, o deputado bozó, também conhecido como ‘Bananinha’ pelos que lhe são íntimos, fugiu para os ‘estados unidos’ (aqui sempre com minúsculas) a fim de preparar um golpe. Mas o golpe parece que não vai acontecer – não por falta de esforço (justiça lhe seja feita, ele é muito esforçado), mas por incompetência mesmo. Sim, o ofício da maldade exige, além de empenho, bastante inteligência, e essa parece ser escassa naquela cabeçorra. Primeiramente, eu agradeceria ao ‘Donald’ pelos “bons serviços”, que, taxando de forma vil os produtos brasileiros, acaba dando uma preciosa contribuição ao meio ambiente. Isso porque, se a carne bovina perder mercado, a pecuária refluirá, reduzindo o desmatamento da Amazônia. Com menos gado, há menos soja e mais árvores – assim e...

O QUARTO ENCONTRO

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Oficialmente esse foi o ‘Quarto Encontro dos Moura Lima’, mas poderia ser considerado o ‘quinto encontro’ porque, no dia seguinte ao sepultamento de nosso pai, nós nos reunimos, pela primeira vez, a fim de encaminhar a solução de algumas pendências em decorrência de sua partida. Desde que decidimos programar esse encontro anual, resolvemos fazê-lo na varanda do papai, que se tornou um espaço sagrado para todos nós. Era ali que o Velho, nos seus últimos anos, passava as horas fazendo palavras cruzadas, jogando cartas, teclando no seu notebook. E era também ali que ele recebia os amigos para uma boa prosa e um cafezinho esperto. Desde então e a cada inverno, nós, essas “aves migratórias” que se encontram espalhadas de norte a sul do país, peregrinamos para o ‘Rancho da Bela’ para mais um evento. O encontro é lindo, animado, mas não pense o solitário leitor que o planejamento é fácil, porque não é. No grupo do zap sai faísca de tudo quanto é jeito. Há sempre um Moura Lima ranhetando c...

MATEMÁTICA E CIDADANIA

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“Odeio matemática!” Não, eu não odeio matemática. Pelo contrário, sou para ela afeto, respeito e admiração. Sem a matemática eu seria um jovem-velho aborrecido com a vida e com as pessoas. A matemática me ajuda a ser feliz. Mas essa minha verdade está longe de ser uma verdade universal. O que ouço sobre a ‘Rainha das Ciências’ não é nada lisonjeiro. Por vezes ela é temida, muitas vezes evitada e até mesmo odiada.   A foto que abre esta crônica foi um flagrante da última aula que dei a um sobrinho. Ele também diz não gostar de matemática, mas desconfio de que a matemática goste tanto dele quanto de mim, de você e até daquele seu vizinho chato. A ‘matemática básica’ é aquela que usamos no dia a dia, que é uma ‘coisa muito fofa’ e está ao alcance de todos. Qualquer pessoa que foi decentemente alfabetizada consegue aprender matemática elementar. Caso isso não aconteça, tenho duas explicações não necessariamente excludentes: desinteresse do aluno, despreparo do professor ou ambos. Na ...

TEMPOS DIFÍCEIS

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Na manhã de hoje, que estava nublada e fria, tentei atualizar o blog com algumas ‘coisas desimportantes’, como diria o poeta Manoel de Barros, mas não consegui. Tive alguns afazeres e me ausentei do teclado, que continuou numa longa e plácida espera pra que eu prosseguisse. De volta aqui, tento encarar o assunto com esta reflexão: parece que tudo importa nesta vida, menos a vida – pelo menos pra muita gente, incluindo o personagem caricaturado acima. Isso porque os jornais já anunciam a entrada dos Estados Unidos na guerra contra o Irã. O fanfarrão de cabelo laranja arrota valentia, dizendo que “apenas eles têm capacidade de agir assim”. Claro está que esse poder é bastante relativo. Abro aqui um parêntese para uma pequena e supostamente didática ilustração. Imaginemos que num boteco haja muitas pessoas, dentre elas um fortão armado de uma garrucha e um bêbado fracote portando um canivete. O fortão cisma de desarmar o fracote e lhe dá um tiro no braço. O canivete cai e o fracot...

OLIMPÍADA DE MATEMÁTICA

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Convido o raríssimo leitor a observar o “simpático” problema acima, que foi extraído da última Olimpíada de Matemática e que provocou algum bafafá na imprensa. Peço que leia atentamente, mas sem necessidade de resolvê-lo. Por que essa questão ficou tão famosa se ela não é tão difícil? Ela foi considerada difícil pelos estudantes, mas por ter sido mal formulada. Da forma em que é apresentada, não há solução possível e explico por quê.   A situação-problema confunde, porque nunca saberemos se quem participou ‘está mentindo ou dizendo a verdade’. Se o cara gosta de uva e marca banana, ele mente. No entanto, mesmo mentindo, se esse sujeito marcar apenas banana (não marcando maçã nem uva), será considerado verdadeiro por ter marcado somente uma fruta conforme o “regulamento”. Pelo proposto, é impossível calcular o número de ilhéus verdadeiros ou o número de mentirosos.                                                                                                                        ...

SERIAM OITENTA E SEIS...

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A imagem que abre a crônica me transporta para um passado longínquo, já quase esquecido, quando meus pais moravam numa casinha simples, fincada na encosta de uma montanha das Gerais. Nesse pequeno recorte entrevê-se parte do cotidiano de minha mãe, que parecia pensativa, tentando lembrar algum nome ou fato. Talvez ela tenha sido interrompida em suas divagações enquanto escrevia, embora não me pareça contrafeita com isso. A pequena fotografia diz muito sobre a vida modestíssima que meus pais levavam. Mamãe está no seu quarto, tendo ao fundo a janela de tábuas rústicas; à esquerda vê-se o batente carcomido da porta; no canto, um esteio de madeira bruta revela serem as paredes feitas de pau-a-pique.    Meus pais se mudaram para essa casa em 1979 e lá permaneceram por duas décadas. Muitas são as histórias contadas pela irmandade tendo como cenário essa “choupana”, o riacho que margeava o terreiro, o pé de manga defronte à cozinha, o campinho mais à frente onde a meninada brincava de bola, ...

BRUXA

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Sim, pode parecer estranho, mas ‘Bruxa’ é o verdadeiro nome de Paulo Eduardo Belizário – pelo menos para o seu círculo mais íntimo, do qual orgulhosamente faço parte. Pois é... o Bruxa, companheiro de tantas festinhas, partiu inesperadamente no anoitecer de ontem. Estávamos preparando uns petiscos para comemorar o Dia das Mães com as mães da família, mas não deu. O Bruxa decidiu ir para outra “festa”, onde a alegria não termina. Vai ficar um enorme vazio nos nossos encontros, porque o Bruxa era o mais divertido, o mais animado e ele era também uma pessoa que ‘conseguia nos irritar sem aborrecer’. Pode parecer estranho, eu também acho, mas muitas vezes o Bruxa me irritou com suas provocações. No entanto, eu nunca fiquei aborrecido com ele. “Mas como pode isso?”, você deve estar perguntando. Vou explicar. Quem me conhece sabe que eu não gosto de reuniões. Qualquer encontro em que se agrupam três pessoas já fico incomodado e, podendo, arrumo um jeitinho de “sair à francesa”. Mas com esse ...

TITIA GENI

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A comida deve estar boa, né tia?...  Também... Eu que fiz! Essa foi a primeira vez que me arrisquei numa bacalhoada e sem seguir receita alguma, apenas confiando no meu tirocínio.  E deu certo! Tanto é que a tia comeu, gostou e, meio às escondidas, premiou um de seus muitos gatinhos com um petisco. Era manhã de Domingo de Ramos. A tia Geni estava com vontade de comer o bacalhau que comprara, na expectativa de que eu fizesse. Tremi de preocupação. Costumo cozinhar, mas nunca fiz nada além do básico. Olhei aquele peixe, que me pareceu agradável, dei uma escapada até a mercearia, comprei uns pimentões, batatas, tomates e alho. Chegando, comecei a fervura do bacalhau para o dessalgue enquanto os demais ingredientes eram preparados à parte. Enquanto uma panela de pressão chiava a fogo brando com o feijão, noutras panelas eu fritava alho e demais temperos para o que viria ser o nosso almoço. “O arroz tem de ser feito com água fervente!”, recomendava a exigente dona da casa. Após duas fervura...

HÁ TRÊS ANOS...

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Já se completam três anos neste 13 de abril, mas parece que foi ontem. Aliás, parece que nem houve partida. Fica a impressão de que o Velho está ainda lá na sua casinha, que ele mesmo construiu, esperando a chegada de algum filho. Aquela casa foi a única que o papai, pedreiro por tantos anos, fez para si. Muitas outras foram feitas ou reformadas, mas como laborioso ganha-pão. Ao longo da vida, papai sempre morou em casas bem precárias. Essa, no entanto, embora muito simples, foi meticulosamente planejada por ele e dela muito se orgulhava. Foi ali que meus pais passaram seus últimos anos numa vida sem luxo, mas confortável. Três anos atrás, em fins de março, cheguei para mais uma visita. Papai havia me pedido que adiasse aquela viagem para julho, por ser muito “sacrificada”, segundo disse, mas mantive a programação e cheguei um dia antes de registrar a imagem que abre a crônica. O Velhinho estava bem e me recebeu todo alegroso ; a frágil mãezinha me abençoou com a ternura de sempre. Ape...

ENSINANDO PADRE-NOSSO A VIGÁRIO

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Estimado Dom Felipe , paz e bem! Diria minha saudosa mãe: “Quer ensinar padre-nosso ao vigário, menino?” Não, não quero e não devo, mas gostaria de fazer uma pequena observação. Aliás, nem é observação, mas um lamento. Também não é apenas um lamento, mas uma profusão de choramingos. A eles. Lamento que o senhor não faça qualquer menção à Campanha da Fraternidade deste ano, tão rica e necessária. A atual CF contempla a ‘ecologia’, que é um assunto urgente. O planeta, que é a nossa ‘Casa Comum’, agoniza numa crise climática sem precedentes e não podemos ficar omissos. A Igreja se move; nós devemos segui-la. Lamento também que o senhor não se manifeste sobre este ‘Ano Jubilar’ instituído pelo Papa Francisco em cumprimento ao calendário da nossa Igreja. Este é o ‘Ano Santo’ da ‘Santa Madre’, que jamais poderia ser ignorado! Espero que neste ano o senhor promova a ‘Coleta da Solidariedade’, distribuindo os envelopes aos fiéis, para que possamos colaborar materialmente com a Igreja em suas ...

MANEKA

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Essa é a Maneka, a cachorrinha mais fofa de que se tem notícia. Enquanto eu digito, ela está aqui ao meu lado, dormitando no seu “trono”. Tiziu, Pitoko e Pituka também estão por aqui, cada um na sua caminha, que é um pequeno estrado de madeira que fiz pra eles. Se você está achando banal esta crônica, acertou. É banalíssima! E quero que seja uma coisa bem boboca mesmo, porque assunto “bom e sério” não falta, mas não quero tratar de "coisas boas" nem "sérias". Eu poderia discorrer sobre algo em voga como certo “religioso” midiático, que tem o gozo de convocar velhas senhoras às quatro da madrugada para rezar, como se o sono reparador fosse pecaminoso; ou do velho ‘Trump’ que tem comichão de subjugar o mundo, mas recuou diante dos intrépidos chineses que o chamaram para a briga. Tem também um ‘ex-ministro assediador’ e mais gente desimportante, mas não vou me agastar com essa caterva e me atenho à Manekinha. Essa menina atrevida tomou a minha cadeira e nela se aninhou...

UM ANO SEM ELA

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Numa bela passagem bíblica, o pregador adverte: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!” Como não refletir sobre isso? Como entender que muitos de nós ainda nos mantemos agarrados aos prazeres mais comezinhos desta vida?...  Parece que não compreendemos que a vida pode e deve ser bela, mas a sua brevidade é espantosa. A foto acima é da minha mãe no seu último aniversário, quando ela completava ‘oitenta e quatro’ anos. Ali, mamãe já estava bastante debilitada, usando cânulas de oxigênio, mas continuava bem-humorada e fazendo suas orações cotidianamente. Tenho pensado bastante sobre a efemeridade da vida. Não me parece ser tão distante o passado em que eu era criança e minha mãe uma jovem mulher de vinte e poucos anos. O tempo passou, eu cresci e mamãe envelheceu; o tempo passou mais um pouquinho, eu envelheci e mamãe partiu. E assim a roda foi girando, está girando e vai continuar girando. Lembro dos tempos de minha mãe com seus adágios que entraram para o folclore da família. Um deles, ...

MANA VÉIA

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Neste dia tão especial, preciso prestar uma singela homenagem à Maria Marta, minha irmã mais velha, que hoje completa... (posso falar, mana?) Não, não serei deselegante ao revelar sua idade, ainda que plena de simbolismo. Não farei isso com essa irmãzinha, que deve ter lá suas justas vaidades. Mas preciso dizer que foi pelas mãos dessa menina que entrei pela primeira vez numa sala de aula. Isso se deu lá no final dos anos sessenta, num grupo escolar com o pomposo nome de ‘Escolas Reunidas Galdino Leocádio’, no arraial de Córrego Preto. Eu ainda não tinha idade escolar, mas insisti tanto com o papai pra me pôr na escola, que ele acedeu. Lembro muito bem do dia em que ele me disse resoluto: “Vou ao Corpreto pra te matricular”. Com grande entusiasmo, comecei a realizar meu grande sonho, que era ir para a escola. Contudo, se não fosse essa irmã, eu teria problemas para continuar. Isso porque, morando na “roça”, éramos como “bicho do mato” e nosso contato com a “civilização”, quase inexist...

O JULGAMENTO DE "SUSANA"

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Sei que este blog está chato, mas chata mesmo tem sido a vida – ultimamente tão desditosa. E não adianta evitar o noticiário, porque notícia ruim tem velocidade de um raio e chega a todo lugar, até neste cantinho onde tento me refugiar. Ainda hoje fiquei sabendo que os presidentes da Câmara, o que saiu e o que entrou, tentaram levar um tal Safadão e outro que se chama Gusttavo (o ‘t’ dobrado desse e o sobrenome daquele dão conta da breguice de ambos) para cantar durante a transmissão de cargos. Gente... tá difícil a coisa, pelo menos pra mim. A crônica de hoje não é sobre a ‘Susana bíblica’, como sugere o título, nem sobre cantor brega, embora algo daquela Susana esteja aqui. Na foto acima há ‘dois velhos’ tão maus como os da Susana: um norte-americano e outro israelense. Como o assunto aqui é sobre velhos, a eles. Na infância, eu tinha medo de velhos e sempre corria deles. Tinha uma bisavó baixinha, encurvadinha, muito boazinha. Amedrontado, eu a observava sempre de longe. Depois, j...

O DONO DO MUNDO?

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Sim, ele ganhou as eleições, tem maioria no legislativo e na corte suprema e agora pode mandar no mundo todo (ou quase) e decidir a vida de todos nós: a minha, a sua e a de seu cunhado – sabe quem é, né?... Pois então, até na dele. O preço da comida, do remédio, da sepultura...  tudo isso será radicalmente afetado daqui pra frente em razão dessa eleição. Isso porque uma legião de magnatas, os donos das tais big techs , cujo patrimônio somado supera muitas vezes o PIB brasileiro, darão as cartas no governo de Donald Trump. E o chicote já começou esquentando o couro de imigrantes, que estão sendo deportados como se fossem terroristas. Além dos “açoites”, as algemas nas mãos e nos pés evocam a triste lembrança do tráfico de africanos escravizados. Pausa para estes dados do Instituto Akatu: “Em 2006, os 65 países com maior renda, que somam 16% da população mundial, foram responsáveis por 78% dos gastos em bens e serviços. ‘Somente os americanos, com apenas 5% da população mundial, abocanh...