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Mostrando postagens de 2014

DE PASSAGEM

“Vamos fazer uns exames? Depois dos cinquenta é preciso monitorar a saúde. Então, vou listar os procedimentos que você deverá realizar para a próxima consulta”. Essas foram as palavras de um médico muito simpático, embora ele não seja cubano. Após a breve entrevista, estendeu-me o formulário seguido de um aperto de mão. “Até mais”, eu disse. “Até”, respondeu o doutor, economizando o ‘mais’.   Foi uma trabalheira danada para, finalmente, eu receber um calhamaço do laboratório com os resultados. Ao conferir um por um fui me animando, porque parecia que eu estava muito bem. Caso fosse um exame de vestibular ou concurso público, eu teria excelente média, com chance de passar entre os primeiros. Mas, há um ‘porém’: em termos de exames médicos, a ‘média’ não faz sentido algum. Você tem que “tira notas boas” em todas as “matérias”, pois não adianta ter colesterol de fazer inveja num atleta olímpico, mas taxa de glicemia pré - tumular .   Alguém aí já se deparou com a palavra “citratúria”?  Po...

O ADEUS DE NEGUINHA

Postado originalmente no "blogdofilipemoura.com", em 02/05/2013   Sua presença silenciosa e felpuda terminou. A cadelinha serelepe, que há um mês ciceroneava os enlutados visitantes pelas ruelas do cemitério, não mais existe. Foi lá que a encontrei por ocasião do sepultamento do pai de uma amiga. Durante aquele fúnebre cortejo, parecia ser ela a única “pessoa” a estar alegre. Enquanto todos caminhavam pensativos - talvez meditando sobre a particular tragédia que é o fim de cada um -, a cadelinha passeava por entre os passantes num corre-corre sem parar. Talvez nem estivesse assim tão feliz, visto que fora recentemente abandonada e, por certo, estando à procura de seu dono.   “O que não tem remédio, remediado está”, afirma um ditado meio  besta. Mas o remédio para aquela cadelinha foi a adoção. Aproximei-me dela fazendo algum gesto de bom amigo e ela deixou-se cativar por mim. Embalei-a nos braços e a conduzi ao novo lar.   Por alguns dias ela me pareceu saudável e feliz. Inte...

FASCISMO À VISTA

Todos são testemunhas de meu despreparo intelectual para falar de política, religião, história, até mesmo de lavoura. Se eu fosse ganhar a vida como hortelão, estaria, há anos, morando embaixo de uma árvore. A prova disso: plantei uns pés de couve, que antes me pareciam promissores, agora estão a me dar vergonha, tal o estado de penúria em que se encontram.   Para ser minimamente sensato, eu deveria ler e ouvir, apenas. Mas, eis que um teclado, pouco exigente, ostenta sua placidez e eu me atrevo a usá-lo. Portanto, seguem-se umas linhas impregnadas do nada que trago comigo, e do tudo que me atormenta neste momento.   A Comissão Nacional da Verdade acaba de apresentar seu relatório sobre os crimes da ditadura militar. Expôs uma coisa nojenta, tão fétida como a que se tornou conhecida há umas décadas: o dossiê “Brasil: Nunca Mais”. Esses crimes perpetrados pelos militares e por uma casta de civis já deveriam ser do conhecimento de todo brasileiro suficientemente alfabetizado. Mas não são...

O ADEUS DE PRETINHA

Publicado originalmente no "blogdofilipemoura" em 14/06/2013   Morreu Pretinha. A cadelinha que sempre , num misto de paciência e ansiedade, nos esperava; que alegremente nos recebia; que se entristecia com nossa ausência. Morreu idosa, doente, desdentada, mas não abandonada. Um tumor lhe invadiu as entranhas cegando-a, tirando-lhe a audição, tolhendo-lhe os movimentos e fazendo com que se locomovesse às apalpadelas.   Pretinha gostava de passear. Pela manhã, bem cedo, ela me convidava para uma breve caminhada. Ainda escuro, caminhávamos pelas ruas desertas, despidas de automóveis e de gente. Enquanto eu me dirigia ao Pai em minhas preces matinais, ela se entretinha com coisinhas, que só mesmo eles, os desambiciosos   cãezinhos, são capazes de valorizar. Num trote miúdo, dava breves paradas e olhadelas para trás para se certificar de minha presença. O rabinho balouçante, tal como uma batuta, parecia ditar o ritmo das passadas, vergando-se de um lado para o outro. Houve tempo...

MISTÉRIOS DE MAMÃE

Meu pai está finalizando seu segundo livro, no qual destaca a história de minha mãe. De minha parte, embora eu ouse borrar esta tela com algumas palavras mal-ajambradas sobre ela, reconheço ser escassa minha competência para a empreitada. Prefiro, obviamente, não me estender sobre essa figura que é central em minha vida.   Mamãe esteve prostrada por muitos dias, semanas, devido a um de seus incontáveis ataques epiléticos. Caíra, ferindo-se e ficou paralisada por uma terrível dor que a obrigava a estar quase sempre deitada. Duas de minhas abnegadas irmãs, a mais velha e a caçula, cuidaram da mamãe durante aquele período cruciante.   Mas, quis a Providência Divina que mamãe se curasse de uma hora para outra, conforme conta meu pai. Certa feita, diz ele, ela se levantou de madrugadinha, foi para o banho, vestiu-se, perfumou-se e retomou sua rotina dirigindo-se ao alpendre para fazer suas orações.  Isso se deu no último 12 de outubro – dia dedicado à Padroeira.   Neste espaço – por respeit...

NO BAR

O homem surge das entranhas do boteco trazendo consigo um guardanapo, que é chacoalhado freneticamente contra uma mosca que teima em dar rasantes sobre um bife na chapa. Coloca o pano sobre o ombro, pega a espátula e começa a raspar ruidosamente a chapa. Empurra para um canto fragmentos de queijo, carne e coisas outras. Passa pra lá e pra cá a lâmina, que reluz, e dá umas viradas no bife, que começa a chiar. O pano, que serviu para afugentar a mosca, agora é usado para enxugar as mãos. Ainda com ele, dá uma passada no balcão, molha-o na torneira da pia e o passa novamente no granito, que brilha. “Deus amou a limpeza e eu gosto de tudo bem limpinho!”, diz com a convicção de quem acredita em Deus e na limpeza. Aquele pano, de cor indefinida, vai agora para o ombro enquanto pega uma cerveja no freezer para um cliente. Vira-se para mim, olhos miúdos, baixinho, atarracado – como diria meu pai –, suando bicas devido ao calor desta estação e com o acréscimo da chapa fumegante. Passa o pano pe...

PRETINHA

Ninguém sabe sua idade. Seu nome evoca sua cor, uma cor distante, que já não lhe corresponde, pois está um pouco ruça. Sabe-se, no entanto, que é bem velhinha.  Contudo, energia é que não lhe falta. É abrir o portão, que a fagueira cadelinha alcança a rua e ganha asas. Melhor ainda, quando há uma “matilha” composta por seu “tio”, sua “mãe” e por seu companheiro de ladrido.  Seu caminhar é bem peculiar. Vai de umas corridinhas rápidas, depois para, volta a correr, para e olha para trás buscando aprovação. Cheira aqui, fuça ali, conhece os hábitos da vizinhança e sabe em qual saco de lixo há o melhor petisco para aborrecimento de sua dona. Se sua ama e senhora demora chegar, lá está  Pretinha a postos em vigilante espera, deitada a meia distância da calçada. Se o portão estiver aberto, melhor. Pretinha fica atenta a todos e a quaisquer movimentos. Olha para a direita, olha para a esquerda. Também olha para cima, como se consultasse um relógio no firmamento. Qualquer ruído de motor des...

CONFUSÃO MENTAL

O tempo passa e eu não tenho o que pôr neste blog. Sei que isso é uma bobagem e não faz sentido ficar preocupado com banalidades, mas um amigo já perguntou sobre o “menu” de hoje. Enquanto grupos radicais islâmicos esfolam curdos e xiitas no Iraque, sequestram centenas de meninas na Nigéria e crucificam cristãos na Síria, eu fico aqui torrando os neurônios, tentando o ofício de cronista que jamais sou ou serei. Ainda: o ebola, a Peste Negra deste milênio, se alastra na África e semeia pânico pelo mundo, mas eu continuo bobamente olhando para o teclado, preocupado em buscar a quadratura do círculo. Eu deveria me despedir desses poucos que me acompanham, deixá-los em paz e me afastar para sempre daqui, mas parece que ando interessado na atenção deles. Uma carência tola, sem sentido, pois não há a certeza de se estar acompanhado num espaço como este, que, pela sua natureza, apela para a solidão. Fosse noutro tempo, eu não precisaria tergiversar, pois havia no computador meia dúzia de ingl...

O ADEUS DE LILICO

Pulblicado originalmente no blogdofilipemoura.com em 14/12/2012   Já não se encontra embaixo desta mesa o cãozinho que aqui se aninhara por um bom tempo durante minhas longas “jornadas datilográficas”. Ele, que me acompanhava nas leituras, orações ou nas minhas solitárias e infrutíferas reflexões diárias, deixou-me com uma página em branco. Aconchegando-se sempre sobre o tapete e repousando carinhosamente a cabeça sobre os meus pés feito travesseiro, dormia. Acordando, fingia impaciência ao mordiscar meus dedos, mas também me afagava com sua morna e molhada língua. Caso eu demorasse no recinto, levantava-se e começava a latir como se dissesse que a vida é um tédio; que é preciso dar uma volta para espairecer; e que ver a rua e mexer com a “meninada” lá fora é uma necessidade premente, inadiável. O “menino”, de pelagem cor de mel, já retratado aqui em crônica intitulada “Fim do dia com Totó”, era um “moleque” travesso. Irrequieto, corria pra lá e pra cá enquanto eu tentava alcançá-lo co...

O QUE PENSAS?

Caso tu queiras me acompanhar nestas linhas, já vou avisando: o assunto de hoje é inglório. Falarei de política e sem floreios poéticos. Portanto, não te aborreces, raro leitor. Vai para o “feice”, aquela avenida iluminada, e me deixa só, na escuridão deste beco.   De uns tempos para cá, preocupam-me os (maus) ventos que sopram na política nacional. Tenho lido vários depoimentos que servem de reflexão para os mais jovens – ou gente antiga com algum problema de memória. São de pessoas que, contando suas experiências, defendem apaixonadamente o atual governo devido aos avanços sociais nesta última década, mas que estão temerosas. Eu não chego a tanto, pois sou propenso a criticar governos: seja este, os anteriores ou futuros – fruto de meu modo ranzinza de enxergar as coisas. Mania de velho.   Os ventos, porém, prenunciam tempestades que ameaçam vir inexoravelmente. O PSDB, que tenta suceder a coligação capitaneada pelo PT, não é um paladino da democracia nem da decência administrativa. ...

FIM DO DIA COM TOTÓ

Publicado originalmente em 25/11/2011, no blogdofilipemoura.com   É domingo e a noite chega. Modorrenta, como fora a tarde, a manhã, o dia todo. Ao meu lado, descansa o Totó (seu nome é Lilico, mas atende por Lico). No rádio, um programinha muito raso, ralo mesmo. O locutor entrevista um músico de nome... Nem sei. Não consigo acompanhá-los. Parecem-me meio pernósticos – para usar uma expressão chique. Ou metidos a besta – não sendo chique mesmo. Mas já terminou. O Lico continua ali, ao lado. Agora, está cuidando de uma das patas. Mordisca, mordisca e depois lambe. Fica entretido nesse ofício de manicuro por minutos, até horas. De vez em quando, para e me olha como se perguntasse: “E aí, já acabou?” – “Não, Lico, não acabei e nem sei se vou acabar”, respondo-lhe em pensamento. Gosto da companhia deste cãozinho. Não sei o que pensa de mim. Aliás, nem sei se ele pensa, mas, aqui neste rancho, ele me conforta com sua presença leve, macia e ofegante. Na “vitrola”, um réquiem de Mozart me a...

ARMISTÍCIO - ÚLTIMA PARTE

“ continuação ”    A entrevista fluía num movimento pendular: tensão e descontração alternavam-se simetricamente. À afirmação de que ‘governa com mão de ferro’, replicou: “Ah, tá brincando. Sinto que o povo gosta de mim, até porque sou democrático nas decisões”.  Mas voltou a reclamar dos ‘ataques’ no jornal. “Mas esta já é a quarta publicação contra a pinga, e ninguém foi ao jornal para me contestar. Nem esse pessoal que ‘gosta muito do senhor’. Por quê?” “Ah, já me falaram sobre isso. Disseram: ‘não liga não, esse cara é tonto’ (risos). Pode até ser, mas você está escandalizando e São Paulo nos adverte contra isso”. “Mas quem escandaliza mais: o meu texto ou a torre de chope defronte à catedral?” “Empata!” “?!”   A conversa, antes dura, depois macia, começou a escorrer, tomando rumos prosaicos. Passou pela minha barba – que parecia mais preta, quando vista à distância, lá no fundo da igreja. ‘Aquela ovelha rebelde, que fica de butuca no que o celebrante fala para depois escrever’. “V...

ARMISTÍCIO - PRIMEIRA PARTE

No começo de uma tarde desta estação, com muito sol e calor como não convém a um inverno que se preze, cheguei para atender a um convite com jeito de convocação. Ele estava em seu gabinete, e, avisado de minha chegada, veio logo ao meu encontro. Pareceu-me sombrio, mas aquela expressão nublada desanuviara-se um pouco com um sorriso embaçado.   “Então, o senhor é o professor Filipe. Qual é o problema, professor?” “Sou o Filipe, não costumo me apresentar como professor. Como sabe disso?” “Amparo é desse tamaninho!”, fez um sinal com indicador e polegar para mostrar quão pequena é nossa cidade. A pureza de suas mãos decerto santificaram aquele gesto, que, feito numa roda de adolescentes, teria significado desprovido de quaisquer virtudes.   Na tentativa de arejar o pé da prosa, provoquei: “O senhor está bravo comigo?” “Oh, não, eu nunca fico bravo com ninguém... Como poderia ficar bravo com você?... Mas, primeiramente, queria saber. Você é católico?” – perguntou, passando levemente a mão...

VOVÔ AURÉLIO

Publicado originalmente em 12/06/2013 - blogdofilipemoura.com As lembranças mais antigas que tenho de meu avô Aurélio evocam um homem portando um terço e uma lamparina. Vovô gostava muito de rezar e de andar à noite, mas parecia não apreciar a escuridão. Em sua casa havia várias dessas lamparinas a querosene. Umas eram de vidro, outras de lata, todas artesanais. No seu quarto havia uma que ficava bem no alto da parede e queimava à noite toda. Sua luz tênue, que mal iluminava em derredor, era suficiente para que não se tropeçasse em algo ao entrar, ou que se acertasse o  rumo  da porta, caso se desejasse sair no meio da noite. Quando nossos  pais permitiam que pernoitássemos naquela casa, era no quarto do avô que dormíamos. Vovô nos cedia a cama  – enorme, para nós tão pequenos – e nela deitávamos, três ou quatro meninos. Ele, minimalista  como sempre, aconchegava-se num canto do quarto, numa  esteira  qualquer.  Vovô era de pouca convers...

QUERMESSES DIONISíACAS

  "Quermesses com Cerveja", "Quermesses sem Cerveja", "Quermesses Etílicas" e... "Quermesses Dionisíacas"! Está publicado no semanário "A Tribuna de Amparo", edição de hoje, mais um capítulo da peleja deste datilógrafo contra  a venda de cerveja ou chope nas festas religiosas.  Desculpe-me o impaciente leitor por eu lhe causar enfastio, mas não vou esmorecer diante de tanta teimosia.         “ Tudo o que fizerdes a um desses pequeninos é a mim que o fazeis” – assim ensinava Jesus de Nazaré há dois milênios. Mas, quem são os pequeninos de Jesus? Para nós, cristãos ou não, os pequeninos são os desvalidos da sociedade: pobres, órfãos, viúvas, incapazes, alcoólatras etc.   Os cristãos católicos, no entanto, parecem não ter assimilado a mensagem do Mestre – e não é por falta de informação. Todos sabemos que o álcool é uma droga que, embora lícita, degrada o ser humano física e moralmente. Inúmeras pesquisas, publicadas pelos mais diversos o...

TELEFONEMAS

Publicado no"blogdofilipemoura.com", em 09/08/2013 O  telefone  tocou e vi que era ele. Estava indignado, muito bravo. Falava comigo com a mesma fúria que usaria contra um desafeto. A conversa começou mais ou menos assim: “Ô cara, vê se pode uma coisa dessas... Aquela gente da Globo tá dominando a visita do papa, e isso não pode acontecer não, uai! Você não viu? Até a Ana Maria Braga tá lá, vestida de santinha, pra receber o papa! E não é só ela não. O pessoal da novela tá tudo lá também. Cruz credo! E é gente de vida errada. Muita gente ali já casou, descasou, tem filho com todo mundo, mas tá lá que nem anjinho!”   O menino falava sem parar, como se eu fosse o culpado de tudo aquilo.  Logo eu, que nem estava vendo TV  por aqueles dias... Então tentei redarguir: “Mas... é só não ver TV! Eu não vejo novela, não ligo na Globo...” Mas o moleque não me deixava falar. Só ele falava e eu teria de ouvi-lo naquele momento de angústia por que passava. Queria e exigia uma solução para ...

REFLETINDO

Não apresento aqui uma contribuição às ciências humanas, mesmo porque este autor que ora vos agasta não tem suficientes letras para se arvorar de intelectual. Mas, pensando sobre as voltas, reviravoltas e cambalhotas que o mundo dá, cheguei à conclusão de que os antropólogos, sociólogos e demais estudiosos do comportamento humano – e os há às montanhas – estão nos devendo alguns porquês sobre nosso comportamento.   É sabido que as pessoas comportam-se mais ou menos conforme determina seu líder. Já os liderados, muitas vezes, nem têm noção de como são conduzidos; o líder, noutras vezes, nem mesmo se vê como condutor.   Baseando-se nessa breve assertiva, pode-se entender melhor o (mau) comportamento de determinadas pessoas ou grupos. Isso se verifica em gangues travestidas de torcidas organizadas, em determinadas famílias e, principalmente, nas seitas religiosas. Estas têm sido muito comuns e se proliferam feito sauveiro após as primeiras chuvas.   O líder de uma seita é conhecido e vene...

DONA MARIA

Publicado no extinto "blogdofilipemoura" em maio de 2011.   Vivera para além dos noventa anos, e os últimos cinco apartada da família e dos amigos. Mas não era infeliz e gostava de prosear. Tivera alguns filhos, mas um deles se fora há alguns anos. A morte trágica do filho deixara-lhe profundas marcas. Ao visitá-la, de longe e já me reconhecendo, exclamava comovida: “Ah, o meu filho que Deus mandou pra mim. Perdi um, mas Deus me deu outro!” – brincava. Chegando, sentava-me ao seu lado e ela, por sua vez, pegando-me uma das mãos, lamentava a morte prematura daquele por ela gerado. “Marido morre, a gente arranja outro, mas filho... não tem jeito, não dá pra arrumar outro. Você se lembra dele?” – sempre me fazia essa pergunta ao final de sua máxima, ao que eu respondia: “Não me lembro dele, porque não cheguei a conhecê-lo”. Ela me parecia ainda mais triste com  a resposta, mas logo um sorriso brotava e se punha a falar de outras coisas.   Assim que ingressara naquela casa – volu...

NATAL

Amara dona Palmira por meses, anos talvez, mas um dia os anjos levaram-na. E por tempos, Natal acabrunhara-se, ficando sentado num banquinho e tendo por companhia apenas o cigarro. Seu luto demorava passar, até que chegou dona Maria e pôs fim àquela tristeza toda.   Duas mulheres distintas: a primeira, baixinha, vaidosa e já octogenária, disfarçava os anos à custa de grossas camadas de ruge e batom. Usava vistosos vestidos de cores fortes, em tons que variavam do vermelho ao alaranjado, e também brincos e colares, mais parecendo uma cigana. A segunda era de uma estética mais discreta. Somente de vez em quando punha seus esmaltes e alguma maquiagem leve. Não obstante a diferença entre as duas, Natal as amou platônica e intensamente. E o fez bem à sua maneira, cada qual no seu tempo e sem duplicidade.   Certa feita, Natal ficando gravemente enfermo teve que se submeter a procedimento que envolvia uma engenhoca com mangueira e agulha espetada no pulso. Ficou nervoso com aquela parafernáli...

UMA VISITA

Publicado originalmente no "blogdofilipemoura.com", em 23/08/2013   O apartamento, como sempre, estava limpo e perfumado. Sobre a mesa, uma gamela de madeira com varias frutas: maçãs, pêssegos, bananas. No espaldar da cadeira, uma toalha de banho; um pouco além, próximo à cama, um par de chinelos. Um caderno aberto exibia uma caneta e um pequeno bilhete. “Amigo, fique à vontade. Este espaço é seu. A erva-mate está na geladeira. Amanhã, após a missa, darei uma passada por aqui.” Assinou.   Abri as cortinas e divisei no horizonte uma última estrela que ainda brilhava naquela madrugadinha de julho. Fazia frio e na calçada oposta da avenida estava um amontoado de cobertores, sob os quais haveria uma ou duas pessoas. Um pequeno cão ficava de guarda enquanto seu protegido dormia o sono dos desabrigados, ou dos embriagados, quem sabe.   Uma estante repleta de obras machadianas e de outros clássicos estava ali: dadivosa oferenda ao  visitante . Mas os pés dentro das botinas, dolorido...

ESMOLER

Uma amiga de adolescência levava sempre consigo uma bolsinha empanturrada de “pratinhas” para distribuí-las, conforme a necessidade e a sorte de quem encontrasse a esmolar. Para ela, não importava se a moeda era de pequeno ou grande valor. Pegava uma sem observar e a dava ao pobre pedinte. Agradecido, este abençoava a moça e guardava a moeda sem conferir para, em seguida, estender a mão ao próximo passante, como que lançando o anzol para a próxima fisgada.   Admirava a amiga por sua generosidade, mas nunca fui assim tão bondoso. No máximo, costumo abordar o infeliz indagando-lhe da aflição do momento. Sendo um prato de comida, quero saber quanto tem ou quanto lhe falta para comprar o mastigo. Quase sempre o assunto se encerra. Daí, deduzo que o espertinho pretende fazer fortuna em cima da bondade alheia; ou, em certos casos, juntar recursos para ilícitos.   Recentemente, caminhando pelas ruas de Sampa e me deparando com alguns deles, resolvi dar atenção a um. O homem se encontrava enco...

O IRMÃOZINHO QUINQUAGENÁRIO

Publicado originalmente no "blogdofilipemoura.com", em 06/09/2013   Sim, o  menino , a quem costumo chamar de “Irmãozinho”, já completa seus jubilares cinquenta anos. Este irmão, bem como os outros nove, é especial para mim. Na escala etária da família é o meu vizinho de baixo, pois a irmã mais velha é a vizinha de cima.   O Irmãozinho é digno de ser biografado. Sua trajetória é permeada de fatos pitorescos e heroicos. Da irmandade, foi quem por mais  tempo  permaneceu na casa dos pais, indo além dos vinte anos. Dele sabemos muitas histórias, umas tristes, outras bem divertidas. Mas, como estamos em festa, prefiro ficar com a parte engraçada.   Conta-se que o Irmãozinho, um mocinho com seus quatorze anos ainda, resolveu providenciar o enxoval para suas futuras núpcias. A noiva, com certeza, estava no seu pensamento, mas ninguém sabia quem era a felizarda; talvez nem a própria soubesse disso. Mas o Irmãozinho sabia das coisas, e, tal como um pássaro galanteador, foi logo toman...

ALGOZES RUBRO-NEGROS

Não, solitário leitor, não quero fazer nenhum “panegírico” aos flamenguistas (usando a possível expressão de um irmão erudito). Neste momento, continuo catatônico devido ao “mineirazo” e, talvez por isso, melhor seria que não me levasse a sério – alguém me leva a sério?...   O jogo que se anunciava para aquela agora tristemente inesquecível tarde no Mineirão enchia-me de júbilo. Como a Alemanha envergaria o uniforme rubro-negro, numa patética homenagem ao Clube da Gávea, pensei: “Se os alemães são Flamengo, os canarinhos são Vasco da Gama. E ponto final. Vamos massacrar a mulambada!”   Confesso ao inexistente leitor, que evito assistir aos jogos do Vasco. Meu time é bom, ganha sempre, principalmente do Flamengo, mas fico inseguro, entende?... Porém, com a Seleção representando o Vascão, por que não acreditar?   Posicionei-me no sofá da sala com os olhos fixos na tela da Band, pois não suporto a locução rouca de certo Garvão, e muito menos sua emissora. Na Bandeirantes, o problema são a...

A BOLSA

Publicado originalmente em 04/10/2013 - no blogdofilipemoura.com   Menina, ainda muito nova, já estava a exibir um pequeno embornal. Como a mãe e as tias, queria ela andar com sua bolsinha. Não havia nada o que pôr naquela sacolinha de pano feito “bolsa de moça”. Talvez algum lápis de cor, um pequeno caderno e uma bonequinha de louça já seriam suficientes como apetrechos iniciais.   O tempo foi passando e a menininha se fez moça. Agora já tinha sua bolsa de verdade, com fivelas prateadas, alça de couro e  elegante  fecho-éclair. E já tinha também o que pôr nela. Usavam-se, naquele tempo, leite-de-rosas, ruge, pó-de-arroz e o já tradicional batom. Esta bagagem era necessária e suficiente para atender às urgências das moçoilas de então.   O tempo passou mais um pouco. A “bolsa de mocinha casadoira” cresceu e teria que comportar algo bem menos prosaico do que produtos de maquilagem. Uma caixa de Cibalena, Melhoral Infantil, fraldas de algodão, mamadeira e outras exigências de uma criança ...

AS MANGUEIRAS DE MINHA INFÂNCIA

Sob duas frondosas mangueiras, na casa de meus avós maternos, passei o melhor de minha infância. Havia por lá também pitangueira, castanheira, laranjeiras, jaqueira e até um sabugueiro, que nunca apresentou seus frutos. A árvore maior, um centenário e corpulento pé de manga espada, que ainda existe (?), era por todos o mais respeitado e também o mais assediado; enquanto seu “colega”, o pé de manga sapatinha, era desprezado – menos por mim. Seus frutos, embora mais abundantes do que os do vizinho “espadachim”, eram cheios de fiapos. “Muito fiapenta!”, reclamava alguém sempre que os experimentava. Eu, como a maioria dos esfomeados meninos da roça, fartava-me com as doces e suculentas mangas sapatinhas. Já os moleques grandões, mais espertos e ambiciosos, subiam na árvore e pegavam as primeiras e cobiçadíssimas mangas espadas. Estas, por alguma razão que somente as mangueiras sabem, sempre retardam o amadurecimento.   A jaqueira ficava num morro, não muito distante da casa. Segundo os ent...