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Mostrando postagens de abril, 2016

BOM-DIA

Cumprimentar as pessoas faz parte do ofício de quem é, ao menos razoavelmente, educado. Ainda que desprovido de beleza e parco de inteligência, pode-se arrumar na vida sendo simpático, porque o sorriso é um infalível abre-portas. Talvez pelo fato de não ser belo nem inteligente, conservo esse velho costume, apesar de eu não ter me “arrumado na vida”.   Um bom dia sempre começa com um bom-dia, diz o ditado. Por isso, costumo cumprimentar as pessoas que encontro, mas nem sempre sou correspondido. Nas minhas caminhadas, que normalmente faço lendo um pedaço de jornal, fico atento a quem cruzo. Aproximando, tiro os olhos do jornal e fixo na figura. Se o fulano (ou fulana) despistar, olhando para o lado, já sei: não quer ser cumprimentado e continuo a leitura. De vez em quando, passo perto de uma senhora, que me ignora inteiro. Noutros tempos, tentei cumprimentá-la, mas ela colheu o meu bom-dia virando a cara com um resmungo, atirando ao longe a minha saudação.  Ela não quer que eu a cumprim...

A CAPELA DOS HOMENS PRETOS

Numa praça do Centro Velho de São Paulo, há uma monumental escultura intitulada “Mãe Preta”. Distraída entre pombos e mendigos, uma negra dá de mamar a um bebezinho branco e gorducho.  A escultura evoca o tempo em que os filhos das sinhás eram amamentados pelas pretas escravas. Um pouco ao lado, está a capela da Irmandade dos Homens Pretos de São Paulo .    Erguida por negros em trabalho voluntário há um século, essa capela sucedeu a outra que fora construída pelos escravos no começo do século dezoito e, pouco depois, demolida, num criminoso projeto de urbanização da cidade. Seu interior é simples e acolhedor. Nas laterais, entre um Bom Jesus e várias  madonas , uma rica iconografia negra se impõe, destacando-se as imagens dos santos etíopes Elesbão e Ifigênia. Santa Bakhita, acompanhada de São Benedito e outros, está majestosamente instalada logo na entrada. Mais à frente, à esquerda, encontra-se Santo Antônio Categeró, outro negro e escravo. E assim, em cada canto e em cada altar há ...

ANGÚSTIA

É madrugada, interrompo a conversa com meu pai pelo ‘feice’, porque amanhã preciso cumprir a obrigação de postar algo neste blog. Tenho um texto antigo, mas não vou publicá-lo agora. Estou angustiado e aquela crônica não reflete meu estado de espírito. Os maus ventos que sopram de Brasília, ou sopram para Brasília, ou que sopram Brasília, também varrem minha inspiração. Sufocado e paralisado, perco a vontade de escrever.     Politicamente nulo e sem filiação partidária, cumpro sem entusiasmo meu dever cívico a cada dois anos, votando. No passado, votava num candidato que foi defenestrado da política por envolvimento no mensalão. Dias desses, soube que era inocente e que fora absolvido por unanimidade no STF. Atualmente, tenho votado em candidato que faz vigorosa oposição ao governo do PT. Acredito na democracia, e democracia se faz com contrários, com barulho; o silêncio é das tiranias e dos túmulos.   A história ensina que o afunilamento ideológico desemboca em autoritarismo: de esque...

THEREZINHA

“Tudo bem, bem, bem?”, ela. “Tudo bom, bom, bom!”, eu. Assim, dava início nossa prosa de poucos minutos nas manhãs das segundas-feiras. Estava ela saindo da igreja, após a missa das sete, e eu a acompanhava até o carro, um bonito fusquinha que Therezinha dirigia pela cidade a fazer suas compras ou visitas.   Naquelas missas, eu observava a amiga. Sentava-se sempre no mesmo banco, sob o altar de Santa Terezinha, próximo à porta lateral direita. Como a igreja estava sempre quase vazia naquelas manhãs, não lhe era difícil manter a rotina. Após a bênção final, pegava sua bengala e começava a caminhar, ora cumprimentando uma pessoa ora sendo cumprimentada por outra. Eu ficava mais afastado, junto à porta principal, esperando por ela. Era nesse momento que acontecia aquela singular saudação.   Therezinha tinha deformação nos pés – reumatismo, talvez – o que lhe dificultava a andar e por isso a bengala. Mas não reclamava de dores, embora, só de ver, eu já sentisse uma fisgada no calcanhar. Es...