Postagens

Mostrando postagens de janeiro, 2022

SOBRE SACOS E ANDARILHOS

Quando menino, eu tinha um primo-avô paterno que, para onde quer que fosse, levava consigo um saco às costas. Lembro bem daquela figura: andar cambaio, chapelão de palha, botas, porrete numa das mãos, e na boca um pequeno graveto. Eu nunca soube o que havia dentro daquele saco nem onde aquele senhor morava. Acho que ele nem tinha casa. No entanto, falavam que tinha muito dinheiro e que seus ‘cobres’ estavam todos naquele saco. Outros já diziam que ele carregava apenas bugigangas e que sua fortuna fora confiada a um abastado sitiante de quem esperava, como recompensa, a mão de uma das filhas. Como o devedor tinha três filhas moças, todas lindas e solteiras – e para meu parente, que não tinha luxo, qualquer uma serviria –, suas chances deveriam ser bastante razoáveis. Todavia, a ‘sorte grande’ não o contemplou. O tempo passou e o velho primo, cada vez mais velho, morreu solteiro.   Na minha casa também havia alguns sacos onde púnhamos mantimentos como milho, feijão, fubá, amendoim etc., ...

DONA CELISA

Imagem
  Dona Celisa foi uma das pessoas mais incríveis com quem convivi ao longo desta vida, que já se alonga. Quando a conheci, ela era uma “jovem octogenária”, que conservava o viço da mulher culta e elegante que sempre fora. Sua companhia era leve, suave, quase imperceptível. À noite, aquela mulher nunca se recolhia aos seus aposentos sem antes nos dar um boa-noite; pela manhã, ao se levantar, o bom-dia era tão certo quanto uma prece matinal.   Dona Celisa gostava de café. No começo de sua enfermidade, eu lhe dava o “pretinho” ainda na cama. Ela se sentava, pegava a xícara e, após um pequeno gole, dizia: “Tá gostoso!”   Paulista, dona Celisa mais parecia uma mineira.  O jeito de receber visitas, de prosear e o café oferecido a quem chegasse davam-lhe um ar de mineiridade. Muitas vezes, enquanto sua filha dava aulas de pintura lá no rancho, ela pegava o pote de pó, uma vasilha com água e me olhava sem dizer nada. Então eu sabia que era para fazer o café. Mas não era só café. Ela também peg...

ALUMBRAMENTO

“Leio o que você escreve, sabia?”, ela me disse quase em segredo. Ao ouvir isso, fiquei a meio caminho entre a surpresa e a preocupação. Sim, porque jamais imaginaria que aquela garotinha de uns doze anos apenas pudesse se interessar pelos meus textos, que são um tanto áridos. A partir de hoje hei de ser mais cuidadoso com minhas publicações. Prometo.   A conversa fluiu por longos cinco minutos – uma eternidade para quem não consegue trocar mais do que três palavras com alguém de doze anos. Se o meu interlocutor tiver mais de doze anos e com ele houver alguma afinidade, a conversa poderá conter algumas frases além das três palavras iniciais; caso contrário, o silêncio se faz benfazeja solução.   Então, como a menina resolveu se soltar, eu tentei ser um ouvinte atento. Ela disse que a leitura a faz mais reflexiva e a torna tolerante ao diferente. E também confessou o desejo de escrever um livro, o que me deixou particularmente encantado.   Fiquei, como esperado, sem palavras, mas lhe di...