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O CIGARRO DE PALHA EM TEMPOS DE INOCÊNCIA

Publicado originalmente em 28/10/2011 - no blogdofilipemoura.com   Nunca pude me imaginar fazendo uma defesa do cigarro. Mas, se faço uma  espécie de encômio àquele que é um dos flagelos da humanidade - principalmente no último século -, alguma razão penso ter. Lembro-me de quando vivi a minha mais longínqua infância na Zona da Mata Mineira e ia visitar o Tatão Tibúrcio, que morava com sua irmã Angelina e sua mãe dona Sarminda, que logo veio a falecer. Ia visitá-los não por bondade com os velhinhos, mas para alguma vantagem pessoal. Lá, nunca faltava um cafezinho. Embora muito amargo para o meu desde sempre “sacaroso” paladar, dona Angelina oferecia, junto ao pretinho, um pedaço de broa. Que delícia que era aquilo! Nunca mais comi broa de fubá como aquela que dona Angelina me dava, e que eu devorava de olhos arregalados na expectativa de que, assim meio esganado, ganhasse outro, mais outro e mais outro. E o cigarro? Estava me esquecendo desse diabinho. O outro assunto é melhor, mas de...

VOLUMES MORTOS

Não, eu não conhecia “volume morto”. Conheço, desde sempre, “peso morto” – algo imprestável e que nos atravanca. Alguns “pesos mortos” obstruem o meu caminho, mas melhor não citá-los. Há também arquivo morto, uma seção onde se guardam os documentos antigos, alimento dos historiadores e de ácaros. Ângulo morto eu conheci quando ainda envergava a farda verde-oliva, e se trata de uma região escondida do campo de visão. Quando se está numa elevação no meio da mata e se avista outro morro, o vale escondido compõe o tal ângulo morto. Se há ângulo vivo, não fiquei sabendo, pois os instrutores militares não me apresentaram.   Mas o assunto de hoje deveria ser somente “volume morto”. Da primeira vez que ouvi essa palavra fiquei desconfiado, pensando ser algo ruim. Mas não. É o volume morto da Cantareira que tem matado a sede de muitos paulistas durante esta crise hídrica – ou seca, para não usar essa expressão besta, pretensamente glamorosa. Mas, quando o tal volume morto já começava a morrer, ...

SEBASTIÃO RUFINO

Esse era seu nome, mas era por Tatão Tibúrcio que todos o conhecíamos. Tatão morava na roça, a um quilômetro de nós, numa casinha simples, como a nossa. Ao lado da irmã, Angelina, cuidava da mãezinha, dona Sarminda, sobre quem se dizia ter mais de oitenta anos. Ficou-me a imagem daquela velhinha, negra, magrinha, sempre sentada num caixote. Passados uns tempos, ela adoeceria e se recolheria à sua cama, para eu nunca mais vê-la no seu caixote.   O tempo foi passando e passou dona Sarminda, ficando Tatão e Angelina. Muitas e muitas vezes iríamos ainda àquela casa. De vez em quando dávamos com “os burros n’água”, pois a Angelina não gostava de chateação e costumava não nos atender. Ainda ao longe era possível observá-la à janela, mas ao chegar, já estava bem trancadinha, escondidinha, fingindo ausência. Podíamos esgoelar, que ela não se mexia. Tarde, porém, a compreendo e eu não faria diferente.   O Tatão nunca fechava a porta. Todas as tardes, após chegar do roçado, ele passava as horas ...