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NAQUELA MANHÃ...

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  Era manhã de abril, com céu limpo, e não fazia frio. Estávamos na varanda, papai no computador e eu tomando chimarrão. O sol despontava timidamente, roçando a folhagem da pequena mata de eucalipto, com a promessa de um dia quente. Papai fechou o notebook, coçou a cabeça e passou suavemente as mãos nos cabelos embranquecidos a fim de ajeitá-los. E, me olhando pensativo, disse: “Acho que vou dar um pulo a Guiricema.” “Opa. Vamos, sim”, eu me prontifiquei a acompanhá-lo, embora não tivesse sido convidado. Organizamos as coisas, pegamos a estradinha de terra que liga o sítio à estrada asfaltada e fomos caminhando sem pressa. Ofegante, de vez em quando papai parava e, apoiado na bengala, apontava para uns lados pra falar de um passado muito distante. Ele contava um pouco da história do sítio que pertencera ao seu pai, meu avô Sebastião. Depois tornou-se propriedade de uma tia e agora pertence a uma família de hortelãos. Papai me dizia sobre como se deu a compra daquelas terras, que ...

CORA CINQUENTENÁRIA

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  Essa é a Maria Coraciana, minha irmã e afilhada que está completando ‘cinquenta anos de vida’. Acho que ninguém da família sabe que sou padrinho dessa menina, talvez até ela já tenha esquecido. Também, pudera. Uma afilhada que nunca ganhou presente, nem sequer no aniversário... Dizer o que de padrinhos assim?...   ’Nunca’ pode ser exagero de minha parte, porque certa vez dei a ela uma caneca de louça, embora isso não seja “aquele presente”, já é alguma coisa, né?... Ou não. Da canequinha eu me lembro bem, embora ela diga que já ganhou um estojo de maquiagem, mas não tenho lembrança. O nome da minha irmã deve ser único no mundo. Nunca se ouviu dizer que alguém traga “Coraciana” em seus documentos – nome que acho muito bonito. No entanto, talvez não fosse assim, caso minha irmã mais velha (sempre ela!) não interviesse, participando ativamente da escolha. Isso por que, dos treze filhos do casal, doze papai nomeou “monocraticamente” – exceto a nossa aniversariante – e essa é u...

MEMORIAL DE VIAGEM – NONA PARTE

  17) A noite chegou e com ela os pernilongos. Com as janelas abertas devido ao calor, um enxame dessas minúsculas criaturas invadiu o recinto numa medonha profusão de zumbidos. Uma loucura. A tia pediu pra eu fechar a casa porque “poderia ter musquitim ”. Meu Deus! Na cozinha, no banheiro, no meu quarto... em todo canto havia desses “camicases”! E a tia tão suave, numa paz que me assustava. Eu atormentado e ela pacificada. “É... nesta hora costuma entrar algum pernilongo, por isso é bom fechar as janelas”, reforçou. Olhei ao redor à procura de alguma arma com a qual eu pudesse me defender. Espiei em cima de armários, cômodas, guarda-roupas e nada de encontrar uma raquete elétrica – aquela que tem uma telinha com corrente de alta voltagem, própria para fazer torradinha de muriçocas. Não tinha raquete elétrica nem latinha de veneno em aerossol para debelá-los. O negócio foi quedar-se ao inimigo, que vinha sedento e faminto. Indo ao banheiro, consegui eliminar um monte deles. Arr...

MEMORIAL DE VIAGEM – OITAVA PARTE

16) Terminada a “grande luta” com as titicas gatinas , fui para o fogão a fim de preparar uma janta. Peguei os pimentões e tomates que eu havia comprado, pus numa vasilha e comecei a lavá-los com detergente. A tia, muito espantada com aquilo, me disse: “Uai, cê tá lavando com sabão?! Não precisa. Eu lavo só com água...” “Não tia, precisa ser lavado com sabão, sim. A senhora não sabe como homem é bicho porco: faz xixi, não lava as mãos e depois colhe tomate e pimentão pra vender, e a gente compra sem saber. Isso aqui é sujo e precisa ser lavado direitinho.” A tia não se conteve, fez uma carinha de nojo e quase confessou um segredo dela, já fossilizado na memória: “Engraçado... Você está caprichoso!...” Pensei: Só faltou a ela dizer que o sobrinho sempre foi porcão , e agora, já bem velho, meteu-se a asseios desnecessários. Se ela pensou, não disse; se dissesse, eu não me importaria porque isso é bem verdadeiro. Enquanto eu lavava os tomates e pimentões, esfregando e enxaguando cada ...

O "LOUVA-DEUS"

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A imagem do simpático louva-deus, ou ‘louva-a-deus’ para os eruditos, não tem nada a ver com a história aqui narrada, mas tem muito a ver com o protagonista.   Gosto do silêncio. Ouço músicas durante o dia enquanto cuido dos afazeres, mas à noite prefiro ouvir o cricrilar dos grilos, o lamento das corujinhas-do-mato e os coaxares de sapos que habitam um pequeno “lago” aqui ao lado, enquanto leio ou escrevo. Ontem, a minha bucólica rotina noturna foi perturbada por gritos lancinantes. O pedido de socorro vinha de uma casa vizinha, do outro lado da rua. Fiquei aturdido, sem saber o que fazer. Tive o ímpeto de descer, mas uma voz interior me desaconselhou; pensei em chamar a polícia, mas fui demovido por outra voz. Antes de decidir fazer uma coisa ou outra, fui à varanda e olhei para aquela casa desditosa e percebi, pelas vozes, que lá havia um casal.  E essa não foi a primeira vez que ouvi alaridos naquela casa. Há uns tempos, duas crianças me procuraram, pedindo um ce...

MEMORIAL DE VIAGEM – SÉTIMA PARTE

15) Um pouco cansado, deixei a pia e saí para tomar um ar. Nisso a tia voltou a me interpelar sobre a acompanhante, que já deveria ter chegado e ainda não apareceu. Eu disse pela quarta ou quinta vez que a moça não viria, e quem ficaria de acompanhante naquela noite seria eu. Mas a tia não se deixou vencer. “Meu Deus, eu estou pagando para ela vir todos os dias, e agora não vem?... Então vou descontar os dias que ela faltar...” Nesse momento eu fiquei bravo, mas tentei mitigar minha brabeza, apenas dizendo que a moça precisa descansar. E que todas as vezes que eu estivesse ali, ela não precisaria vir. A tia decidiu ser mais direta e atacou: “Pois ela teria de vir, sim, ao menos pra catar os cocôs dos gatos aqui no quintal!” “Ah, tia... então essa é a sua preocupação?! Pois está resolvido. Vou catar agora!” Ao ouvir isso, aquela senhora entrou em parafuso, não sabendo se comemorava ou embrabecia. “Ah, não acredito que você vai fazer isso!...” “Vou, sim. E me fale como devo fazer”. Ela m...

MEMORIAL DE VIAGEM -- SEXTA PARTE

14) A pia da cozinha estava entupida, mas não era uma calamidade porque, embora muito vagarosamente, a água ainda escoava. Mas aquilo foi me incomodando a ponto de me deixar irritado. Sempre que eu fosse lavar uma coisinha, formava-se um lago cuja placidez me bambeava os nervos. Então, fui ao mercado e comprei um ‘desentupidor de pia’, que é algo semelhante a uma ‘saia de borracha’ de onde ergue um cabo de plástico. Eu peguei aquele treco e dei várias bombadas no ralo, mas em vão foi meu esforço. Quanto mais eu mexia mais a coisa emperrava e o bojo, de tão cheio, já começou a transbordar a ponto de eu ter de tirar um pouco da água com uma caneca para evitar um dilúvio na cozinha. A tia acompanhava tudo bem de perto e com uma atenção que me paralisava.   De repente, ela se lembrou de uma solução: “Deixe eu pôr cloro aí, porque dizem que desentope mesmo.” Aceitei a sugestão de pronto. Vai que a tia tem razão..., pensei. Então ela derramou certa quantidade de cloro e me pediu pra esperar ...