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O ADEUS DE PITUKA

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  Foi um momento muito difícil para nós, menos para a Pituka, porque ela não tinha ideia do que estava acontecendo. Passava das três da tarde quando entrei na clínica com essa cadelinha nos braços. Ali fui atendido pela secretária, que me conduziu a uma salinha onde havia apenas lavatório e uma mesa metálica. Depois aquela funcionária trouxe uma flanela, que foi posta na mesa, onde deitei a 'amiguinha'. A veterinária estava atendendo alguém noutra sala, mas minutos depois ela veio. Muito simpática, foi logo conversando com a sua ‘paciente, apalpando aqui e ali, enquanto me fazia perguntas e apresentava ponderações. A solução não poderia ser outra, porque a Pituka estava em sofrimento. Há uma semana ela parou de andar, não conseguindo sequer parar em pé, mas se alimentava. Ontem ela comeu menos do que o de costume e mal conseguia erguer a cabeça. Hoje ela não conseguiu se alimentar, tremia muito e parecia ter dor. Antes de sair de casa, quando fui pegar a Pituka para levar a...

MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 13

  24) Eu mal terminara de fazer o almoço e a tia já se aproximou com um prato. Ela estava com fome, até porque a hora já avançava para o meio-dia e o costume ali é de almoço mais cedo. Eu havia preparado um pimentão, prato de que gosto muito, acrescido de feijão, arroz e um frango meio ensopado. Fiquei temeroso de que a tia não gostasse do frango, talvez ela o achasse salgado ou até mesmo insosso. Mas dessa vez tivemos um ‘final feliz’ no almoço, com a tia provando e aprovando tudo.   35) Houve uma vez em que as coisas não fluíram assim tão bem. Era Quaresma, a tia comprou um bacalhau e me pediu pra fazer. Eu disse que teria de deixá-lo de molho de um dia para o outro para dessalgar, mas ela tinha pressa e queria comer o peixe naquela hora. “Não, não precisa deixar de molho. É só ferventar, que o sal sai todinho. Pode fazer assim, eu sempre fiz desse jeito...”, ela disse isso na certeza de que o sobrinho não falharia, mas falhei miseravelmente. Ferventei o peixe conforme...

MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 12

  22) Você, raro leitor, não se agaste por eu me arrastar na descrição desse meu desatino na tentativa de descer daquele telhado. Saiba que a minha aflição deve ter sido bem maior do que a sua. Nunca alguém se comprouve por passar longas horas a sol a pino sobre um telhado, refém do medo de despencar de telhas escorregadias e acossado pela sede que lhe seca todas as mucosas. Pois bem, essa era a situação em que eu me encontrava. Num esforço, a custo, alcancei o primeiro degrau. Senti meu pé direito se firmar e, com um movimento trêmulo, consegui alcançar o outro degrau, que estava um pouco longe. Explico: a escada, além de ser “perneta” conforme já disse linhas acima, tem os degraus muito distanciados uns dos outros, o que dificulta seu uso, particularmente para quem sente pavor de altura e estando em iminente perigo como eu. Ainda com os pés mal postos sobre os degraus e na tentativa de estabilizar a escada, que teimava em deslizar, deitei-me-sobre as telhas e fui firmando dev...

SERIAM OITENTA E SETE, MAS...

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  Essa fotografia foi tirada há exatos três anos, um dia após mamãe festejar ‘oitenta e quatro anos’ – aquele que seria seu último aniversário. Nunca, antes dessa imagem, ninguém jamais viu essa senhora usando chapéu. “Cruz credo, isso é coisa de homem... Não uso de jeito nenhum!” , eis uma possível reação a alguém que a tenha oferecido tal adereço. Comigo, no entanto, a coisa aconteceu um pouco diferente. Naquele momento, eu estava ao lado dela, falando coisas desimportantes. Quem me conhece um pouquinho sabe das minhas ‘dificuldades cognitivas’, e também da minha falta de assunto.  Quem me conhece melhor, já sabe um pouco mais de mim. Sabe que, além da minha inabilidade para discorrer sobre assuntos sérios, sou um homem que prefere assuntar sobre “a vida alheia”, um tema que costumo explorar com discreta culpa e indisfarçável volúpia.  Mas com a mamãe não havia nenhuma fofoca, não. Embora a mãe não se afeiçoasse por muita gente, e esse é um traço herdado por este seu fi...

MEMORIAL DE VIAGEM -- PARTE 11

  20) A manhã avançava a passos esticados, o sol já dava sinais de que o dia não seria apenas morno, mas ainda havia restos do frescor da aurora. A tia acabara de acordar e se movimentava lentamente, tentando se levantar – eu pude perceber sem que a visse. Larguei meu livro e o mate e fui até o quarto pra ver se ela queria ajuda para calçar as chinelas ou algo mais. Não precisava. Ela já estava de pé e arrumava a cama, estendendo lençóis e dobrando o cobertor. Ofereci ajuda, mas ela agradeceu. “Sempre arrumo de um jeito que me facilite depois”, pontuou. Voltei à cozinha pra fazer um chá, que ela toma sempre sem açúcar. Terminei de preparar o chá e, enquanto ela se ajeitava, cruzei a rua pra pegar um bolo na mercearia. Ao me ver com o bolo, muito surpresa, foi logo perguntando quanto custou e pedindo pra deixar pra ela pagar. Dizia não ter dinheiro agora, mas que acertaria quando recebesse seu ‘ordenado’. “Não, tia. Eu já paguei, não se preocupe com isso”. Sentamos, ela pegou um...

MEMORIAL DE VIAGEM – DÉCIMA PARTE

  18) Entrei no quarto e fechei a porta para não ser incomodado por gatos. Há muitos deles no quintal, mas apenas a Pretinha dorme dentro de casa, embora naquela noite ela não estivesse por ali. O sumiço da ‘bichinha’ foi motivo de chateação da tia. Todas as vezes que me via, aquela gatinha fugia desesperadamente – para minha alegria e tristeza da dona. Agora, já acomodada em seu leito, eu esperava que a sonolenta senhora adormecesse rapidamente, mas isso não aconteceu. Assim que se deitou, ela ficou acesa e disparou a falar. Eu tentava me desligar de tudo, queria dormir, enquanto a tia queria conversar! O aposento dela nem é bem um quarto de dormir, mas uma sala que ela transformou em dormitório. Separada de mim por uma porta, que me parecia mal fechada, qualquer movimentação poderia ser percebida. Isso era bom, porque eu poderia atendê-la em alguma necessidade, bastando apenas me chamar. E então aquela senhorinha resolveu prosear, e as horas foram subindo, subindo e nada de a p...

NAQUELA MANHÃ...

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  Era manhã de abril, com céu limpo, e não fazia frio. Estávamos na varanda, papai no computador e eu tomando chimarrão. O sol despontava timidamente, roçando a folhagem da pequena mata de eucalipto, com a promessa de um dia quente. Papai fechou o notebook, coçou a cabeça e passou suavemente as mãos nos cabelos embranquecidos a fim de ajeitá-los. E, me olhando pensativo, disse: “Acho que vou dar um pulo a Guiricema.” “Opa. Vamos, sim”, eu me prontifiquei a acompanhá-lo, embora não tivesse sido convidado. Organizamos as coisas, pegamos a estradinha de terra que liga o sítio à estrada asfaltada e fomos caminhando sem pressa. Ofegante, de vez em quando papai parava e, apoiado na bengala, apontava para uns lados pra falar de um passado muito distante. Ele contava um pouco da história do sítio que pertencera ao seu pai, meu avô Sebastião. Depois tornou-se propriedade de uma tia e agora pertence a uma família de hortelãos. Papai me dizia sobre como se deu a compra daquelas terras, que ...