MÁRIO

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Numa manhã, em viagem de visita a familiares, ao longo de uma maratona recheada de imprevistos e já bastante fadigado, eu me sentei num banco de cimento da rodoviária e comecei a ler enquanto esperava o ônibus. Estando já imerso num conto de Clarice Lispector, um farfalhar desviou minha atenção: absorto em seu labor, um homem varria, varria e ajuntava; varria, varria e ajuntava. Depois pegava o lixo com a pá e despejava num saco plástico.

Era o Mário que se aproximava, trabalhando calado e ligeiro. O corpo esguio lhe conferia agilidade, fazendo lembrar os campeões da Corrida de São Silvestre. No entanto, o homem que varria, embora nunca tenha sido atleta, certamente tem habilidades quase olímpicas, sem as quais não sobreviveria.

Quando ele chegou mais perto, peguei meus trastes e mudei de lugar a fim de lhe facilitar o trabalho, mas não sem antes de lhe dar bom-dia. Foi a primeira vez que o Mário parou de varrer. Agora, apoiando-se no cabo da vassoura, com os olhos fixos no horizonte, ele expressou um misto de preocupação e cansaço. 

“Está tudo bem com o senhor?”, perguntei. “Um pouco cansado de fazer isso”, ele respondeu, já voltando a varrer. E continuou: “Nada para limpo aqui. Com tantas lixeiras por aí e o pessoal faz questão de jogar lixo no chão”. E assim começou um pequeno bate-papo com o homem que, pela imagem, dá para perceber ser ele de vida bastante sofrida.

O Mário é gari há trinta anos. Antes desse emprego, foi funcionário numa usina de açúcar por uns dez anos. Perguntei se já está aposentado. Não está. “Apenas no ano que vem, se tudo der certo”, ele disse pouco confiante. “A saúde não ajuda mais. Até pouco tempo atrás eu estava afastado, estive internado”, reclamou.

Não perguntei que mal lhe aflige a saúde, mas quis saber se mora longe. Ele apontou para uns lados e disse ser logo ali, “subindo aquele morro”. “Mas a sua casa é própria, você não paga aluguel...” “Eu tinha uma casa onde criei meus filhos, mas não pude continuar morando nela. Achei melhor sair.” Ele falou de uns porquês que o fizeram mudar de endereço para ter de pagar aluguel e completou: “Antes a vida era sofrida; agora está mais suave”.

Indiscreto, perguntei se a esposa mora com ele. “Infelizmente a minha mulher faleceu há onze anos. A gente vivia muito bem, eu gostava dela e sinto muita falta. A vida é assim, fazer o quê...”, lamentou.

Ofereci um lanche ao Mário. “Rapaz, até que eu já estou com fome, mas não se preocupe”, disse ele dando uma leve batidinha na barriga. “Vamos à lanchonete”, eu propus. Aceito o convite, ele se apressou em terminar a varrição daquele espaço e me acompanhou. Noutra indiscrição minha, propus que fosse ao banheiro e lavasse as mãos para comer. Obediente, ele foi lá e voltou abanando as mãos ainda molhadas. Perguntei o que queria. “Qualquer coisa...” A moça interveio, dizendo que o almoço estava prontinho: “Hoje tem frango com macarrão, seu Mário!”. Ofereci o almoço. Ele coçou a cabeça pensativo e disse: “Ah, se não for caro pra você, pode ser...”  “O que o senhor quer beber?” “Não precisa, basta a comida”. “Moça, veja o que ele gosta de beber e acrescente.  Vou pagar e preciso subir, porque o ônibus deve estar chegando”.

A moça me passou o valor, paguei e nos despedimos.

O Mário é o trabalhador braçal socialmente invisível e desprezado. Vi no Mário aquele gari recentemente assassinado na capital mineira enquanto trabalhava. O Mário representa todos os garis do mundo. Viva o Mário!

FILIPE

Comentários

  1. Faz lembrar o Evangelho de domingo (Lc 14, 7-14): "Quando deres um banquete, não convide seus vizinhos ricos. Convide os pobres que não podem lhe retribuir. Você receberá a recompensa na ressurreição dos justos". A Eucaristia passa por essa via.

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  2. Vida sofrida! Ainda bem que de vez em quando tem alguém que lhe passa bálsamo nas feridas. Graças a Deus.

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  3. Obrigado pela leitura, Andréa.
    Um abraço

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