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Mostrando postagens de 2024

JAQUEIRA DE NATAL

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Foi neste dezembro, numa manhã molhada e de sol forte, quando peguei um enxadão e a mudinha de jaqueira, que há meses esperava por isso. Subi uma íngreme ladeira, aqui perto, e cheguei ao topo do morro. Ali tem várias casas sendo construídas, algumas quase prontas e já com moradores. Nas franjas do loteamento, há áreas destinadas a arborização. Na verdade, são pequenos espaços meio despencados e de difícil acesso, que não são adequados para construção de casas. Caminhando por lá, encontrei um bom lugar para plantar a minha jaqueira.   Com aquele enxadão, limpei a área, cortei a braquiária e cavouquei o solo barrento. Na orelha, o fone de ouvido tocava um podcast. Preciso dizer que ouço vários podcasts todos os dias. Antigamente, gostava muito de rádio; hoje ouço apenas alguns programas de uma rádio paulistana, que toca MPB, e só. Durante minha labuta com o enxadão, eu ouvia um episódio sobre o lendário ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Aquele homem é um exemplo para todos nós. Que...

ENFIM, UM GENERAL

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Espero que o raro leitor não se aborreça com esta crônica, mas estou maravilhado com a prisão de um ‘quatro estrelas’. Ao contrário do que se diz, esta não é a primeira vez que um militar com essa patente é preso. A história registra casos, como Hermes da Fonseca e Teixeira Lott. Na verdade, Henrique Teixeira Lott era um marechal que foi injustamente preso em 1961. Legalista, Lott tentava garantir a posse de João Goulart, devido à renúncia de Jânio Quadros, quando foi preso pelos seus colegas militares – os mesmos “gorilas” que três anos depois assaltaram a Presidência e nela se instalaram por intermináveis vinte e um anos.   A novidade aqui é bastante alentadora, porque esta é a primeira vez que um militar no topo da carreira é preso por autoridades civis, e por motivos justíssimos. Nos demais casos, eram obscuras as prisões de oficiais e quase sempre feitas pela milicada. Todavia , c omo sinal dos tempos ou prenúncio civilizatório, militares têm sido conduzido às grades por civis e p...

UMA SUGESTÃO DE PENA PARA GOLPISTAS

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Todos os dias, ao abrir o noticiário no notebook, tropeço nas ‘novas’ do golpe. Sinceramente, sempre que posso, evito lê-las. Isso porque uma tristeza profunda me abate, e, como disse o Poetinha, “é melhor ser alegre do que triste”. Não, não quero tristeza, mas a alegria possível. No entanto, como ser alegre diante do grotesco?... Aqui não vou citar um nome sequer, não por precaução, mas por uma questão de higiene mesmo. Preciso estar atento à necessária assepsia do corpo, da alma e também das palavras. Generais liderados por um (pasmem!) capitão planejaram jogar o país numa lama de sangue, e isso só não aconteceu porque a maldade exige, além da covardia, um pouco de inteligência. O primeiro requisito é abundante; o segundo escasseia. Agora, após a descoberta da trama, o que fazer com os trastes? A constituição prevê pena de morte para desertores em caso de guerra. É importante ressaltar que numa guerra a ‘pena capital’ não alcançaria oficiais das armas, mas civis ou soldadinhos. Caso ...

BILIARDÁRIOS

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Dentre as tantas bestagens que falo ou escrevo, e tendo a meu favor os anos que me são generosos, eis-me aqui novamente dedilhando o teclado, espremendo o cérebro na tentativa de exprimir opinião sobre assuntos que não entendo. Velhos, somos mais livres pra falar bobagens, mas só pra falar ou escrever; porque fazê-las exige algo mais, além da ‘falta de juízo. Por isso mesmo, e ficando apenas nas palavras, venha comigo. Quando me falta assunto, costumo dizer que “morro de dó de quem tem muito dinheiro e pouco tempo de vida”. E vou além. “Pessoas muito ricas deveriam viver duzentos, trezentos, quatrocentos anos. Quanto maior a fortuna, maior deveria ser seu tempo de vida. Pobres não carecem de longevidade, porque o fardo lhes pesa, encurvando o corpo para o chão, para a cova, que pode ser rasa mesmo”. [obs.: há ironia] Agora vamos aos ricos, aos milionários, aos biliardários. No Brasil, segundo a revista Exame, há mais de quatrocentos mil milionários, e sessenta e nove bilionários – em d...

TIA NICE

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Foi um dia de júbilo. Talvez poucas pessoas e em poucos momentos da vida possam experimentar a alegria que senti ao chegar à casa dessa família. Havia anos que não os via, e mais anos se passaram sem que eu os visitasse. Certo dia, porém, após inúmeras tentativas frustradas, desembarquei em Umuarama, no estado do Paraná. Chovia muito naquela manhã quando o meu ônibus estacionou numa rodoviária moderna e envidraçada. Desci do ônibus, mas eu não conseguia achar a minha amiga e fiquei meio desorientado. Finalmente a vi no primeiro pavimento, onde ela estava há uns bons minutos me esperando. Na foto acima está a amiga ‘tia Nice’, que não é minha tia, mas é minha tia, e no final explico por quê. Ao seu lado, o esposo Antônio – caboclo bom, sistemático, de palavra firme e acertada; à esquerda, a filha Fabiane – moça inteligente, culta, que foi minha aluna ainda nos últimos "soluços" do século passado. Faltou na foto a advogada Renata, a outra boa filha da tia Nice. Mas, afinal, que...

NO CONVENTO

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O quarto está meio bagunçado, alguém dirá, mas não vejo nenhuma bagunça ali. Vejo, sim, a imagem do despojamento de alguém que abandonou tudo para abraçar um ideal de vida, que poucos têm disposição de fazer. Ali está todo o patrimônio de um frei franciscano já entrado em anos. Dá pra observar umas roupas, que talvez estejam em uso ou separadas para serem lavadas. Veem-se alguns livros, na certa de oração, um pequeno armário que deve conter outros livros e algumas vestes. Ao fundo, amedrontadas com a lente do celular, garrafas de Coca-Cola tentam se esconder de meu campo de visão – um pequeno e furtivo luxo desse discreto ‘ancião’. Escolhido ao acaso para ser fotografado, esse é um dos vários aposentos da comunidade de frades que visitei. A casa em que moram é ampla e confortável. No entanto, individualmente, cada frei tem apenas o que lhe assegura uma sobrevivência digna, mas sem excessos. Por voto religioso e compromisso com a Congregação, nenhum frade pode decidir por si o que vai f...

CADÊ O TIZIU?

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Ele está aqui, mas não é sobre o Tiziu que vou escrever. O cãozinho acima foi encontrado numa rodovia há mais de dez anos. Estava ferido, com sede, com fome e sangrando. Até merece uma ‘biografia’, mas não será desta vez. Todavia, por carinho e atenção, volto a citá-lo no final da crônica. O assunto aqui são as queimadas, esse inferno a que se tornou parte considerável do país. Tenho evitado o noticiário e sempre que posso mudo de assunto com as pessoas que abordam essa tragédia. Mas não tem ‘escapamento’, como diria um velho conhecido, como se vê aqui. Dias atrás, antes ainda de as chamas calcinarem a exuberante vegetação das montanhas que circundam minha ‘aldeia’, tive uma conversa meio amalucada com o funcionário da loja de materiais de construção. Enquanto escolhíamos umas tábuas de que eu precisava e sem ter o que assuntar, saí com esta: “Cara, essas queimadas são coisa de gente criminosa. Tivesse eu algum poder, pegaria um caboclo desses, amarraria num poste e o deixaria assim du...

BELA CINQUENTENÁRIA

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  Essa é a Izabel, minha irmãzinha, que no último dia doze festejou seus cinquenta anos. Nem parece que já se passou meio século quando fui à casa de parentes próximos para dar a nova de que lá em casa havia “menino novo” – expressão usada nos nossos rincões. Comigo estava um irmão e, jubilosos, demos a notícia, que foi recebida sem júbilo algum. Uma das mulheres olhou para a outra e as duas trocaram algumas palavras mais ou menos assim: “Eta, diacho. O Zezé já tem tantos filhos e agora nasce mais um...” Sim, papai já tinha muitos filhos e a Izabel era ‘apenas’ a nona, porque depois dela ainda viriam outros dois. Somos onze – e só não somos treze porque nos anos sessenta a ‘mortalidade infantil’ ceifou a vida de dois irmãozinhos. Essa moça cinquentinha, que algum ‘ mouralima’ costuma chamá-la de Bela ou de Bel, teve uma infância sofrida. E esse não foi um “privilégio” exclusivamente dela, porque todos passamos por aqueles perrengues. A pobreza financeira de nossa família só não chegou...

IOLANDA VAZ DE MELO

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“J á falamos, há muito tempo, por telefone. Na ocasião, eu lhe disse que passei a gostar de matemática devido ao seu jeito de ensinar. Você foi a minha melhor professora nessa matéria. Obrigado por isso. Estou dando aulas de matemática há 26 anos por "culpa" sua, viu?... rsrsrs Boa noite!” “Que bom que fiz alguma coisa produtiva no decorrer da minha caminhada profissional e alguém se espelhou em mim. Fico feliz em saber que alguém foi grato ao meu trabalho. Obrigada, Filipe. Quando for a Guiricema, passando em Volta Redonda, para pra uma visita e tomar um café comigo. Além de ter sido sua professora, acho que somos primos, pois também sou Moura. Fique à vontade. Abraços.” “Obrigado pelo convite, eterna professora! Somos primos, sim. Meu pai já me dizia isso naquele tempo em que fui seu aluno. Abraços!”   Esse diálogo, pelo Messenger, foi em 30 de março de 2018. Eu estava fuçando no feice e encontrei a dona Iolanda por lá. Após me certificar de que seria ela, trocamos essas m...

CÉU FUMARENTO

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Essa foto eu tirei da varanda de minha casa um minuto antes de abrir o computador para escrever esta crônica. O sábado, que sempre foi para mim um dia arrebatador, hoje está assim, tristonho, como se vê na imagem. Nas manhãs sabatinas, costumo fazer pequenos vídeos para alguns amigos e parentes, aqueles que me são mais próximos, mas hoje não consegui essa alegria matutina. Hoje, como sempre, levantei-me bem antes de o dia clarear para as minhas preces, depois veio o chimarrão, as leituras e as músicas. Este sábado, porém, me veio amargo. As chuvas estão escassas e o dia amanheceu nublado. Seria um bom sinal, né?... Só que não. Acho que essa é a primeira vez que experimento a sensação horrível de um dia nublado e sem nuvens. É algo semelhante a uma plantinha linda, viçosa, mas, chegando bem pertinho dela, percebe-se que é de plástico – a coisa mais sem graça de se ver –, mas com um tempero bem mais trágico. Justamente no momento em que digito este texto, Tonico e Tinoco cantam “Pingo d’...

BANQUINHO DE SUCATA

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Olha a folga! E eu pensando que tivesse feito esse banquinho pra mim... Que nada! Depois que essas duas figuras chegaram, nunca mais pude sentar ali pra ‘pegar a fresca’ ao entardecer, como eu sempre costumava fazer. Você que me lê não imagina como é gostoso sentar nesse banco. Ele é feio? É, mas eu não acho. Malfeito? Talvez, mas eu não acho. Esse banco foi feito com madeiras já “aposentadas”, algumas apanhadas na rua. Aliás, esse tem sido meu hobby . Sempre que saio com os cães, não esses pirralhos aí da foto, mas os outros dois, meus velhos companheiros de caminhada, fico bisbilhotando as construções e os rejeitos em seu entorno. A minha alegria é maior quando vejo uma caçamba de sucata. Ali costumo garimpar algumas preciosidades como madeiras descartadas e que iriam para o lixão. Com elas fiz prateleiras, portão, uma espécie de mesa de carpinteiro e até esse banquinho. Também já corri algum risco de ser preso por furto, e risco real! Explico. O vizinho de baixo estava de mudança. F...

DONA AÍDA, A MINHA PRIMEIRA PROFESSORA

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Não, eu não queria estar em destaque nessa foto, mas não tive escolha. Isso porque nessa imagem estou pegando na mão da professora que me ensinou as primeiras letras, e eu teria de fazer esse registro aqui. Foi a dona Aída quem me ensinou a pegar o lápis para que eu pudesse fazer meus primeiros rabiscos, desenhando as vogais, algumas consoantes e o meu nome. Foi ela também quem me conduziu ao universo escolar, do qual nunca mais me desvencilhei. Durante a breve visita àquela senhora, por quem tenho um sentimento filial, a minha memória foi desnovelando cenas de um passado muito distante. Naqueles poucos minutos, pude rever a jovem professora entrando na sala de aula com seus livros, seu sorriso e seu perfume. Depois de um animado boa-tarde, ela escrevia algo no quadro-negro e, em seguida, visitava cada aluno, orientando-os carinhosamente nas lições. A nossa escola funcionava num velho prédio que meu avô paterno ajudou a construir. A minha sala de aula era um pequeno cômodo no porão, qu...

DONA FIA

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Numa manhã fria deste inverno, era sábado, desci do táxi, apertei a campainha e resolvi chamar também, que era pra garantir que eu estava ali. Tenho uma regra não escrita: não se deve apertar a campainha mais de uma vez. Se for algo urgente, aperte a segunda vez; caso não seja atendido, dê sossego, não seja inconveniente, caia fora!   Dessa vez, nem precisei chamar novamente, porque a bondosa senhora já veio descendo lentamente a escada. Como boa mineira que é, chegou cabreira e, ao me reconhecer, um sorriso desanuviou-lhe o semblante. Eu fiquei orgulhoso de ser reconhecido pela dona Fia, abobado mesmo, e explico o porquê, mas ao final da crônica. A dona Fia abriu o portão e me convidou pra entrar.  Aceitei, é claro, mas com a ressalva de que seria por apenas uns minutinhos. Fomos subindo devagarinho enquanto ela falava do frio e da nova rotina, agora sem o companheiro de vida por mais de setenta anos. Primo de meu avô materno, seu esposo era um homem de hábitos finos, poucas palavras ...

O IPÊ-ROSA

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“Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro!” Essa seria, na visão de um poeta, a missão de todos ao longo da vida. De minha parte, já plantei algumas árvores, tive uma filha, mas nunca escrevi livro. Por outro lado, meu pai teve muitos filhos, plantou muitas árvores e escreveu três livros. Dessa forma, estou em dívida com a vida; já meu pai cumpriu com folga a missão. Deixando de lado o poeta e seus anseios, quero falar do ipê cuja foto abre esta crônica. Essa árvore foi plantada no sítio da família onde mora minha irmã mais velha quando completei ‘trinta anos’. Meu pai escolheu o lugar e fez a cova; eu apenas ajustei a plantinha no buraco e apertei a terra ao redor com cuidado para não lhe ferir as incipientes raízes. Tempos antes, quando fiz dezoito anos, meu pai me pediu para plantar uma árvore. Ele me deu a muda de um abacateiro e me acompanhou ao quintal de sua casa, lá na Montanha Santa, onde o plantamos. Infelizmente, aquele pé de abacate não vingou. A história do ag...

SOCORRO!

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Há exatos dois sábados a minha rotina mudou radicalmente. Para melhor? Pelo jeito... Não sei. Essas duas pestinhas são de uma turminha de seis irmãos: dois foram para uma amiga, um pra uma conhecida, um ficou com a dona da prole e esse casal veio parar aqui, na minha casa. Claro que os dois não vieram sozinhos, pegando ônibus ou táxi ou a pé; nós os trouxemos de carro, bem acomodados no banco de trás, comigo entre eles. O nome deles: Maneca e Pitoco. ‘Maneca’ porque eu quis homenagear o grande Pepe Mujica, que teve uma cadelinha de nome Manuela. ‘Pitoco’ porque eu quis homenagear a minha filha, que na infância teve um bichinho de pelúcia com esse nome. A chegada desses pirralhos não foi muito tranquila. Pituca e Tiziu, meus velhos companheiros, não aceitaram os parças e foi uma luta pra chegar a um acordo com eles. Os dois veteranos urravam furiosos, tentando arrombar o portão, enquanto os pequenos tremiam e choravam de pavor. Com o Pitoco ao colo, subi a escada e tentei negociar com ...

O TERCEIRO* ENCONTRO E UMA DESPEDIDA

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                      Quando meu pai partiu, logo no dia seguinte ao sepultamento, o primogênito reuniu a irmandade para alguns encaminhamentos. Naquela ocasião, sugeri que fizéssemos um encontro anual e assim ficou acertado. E então, aquele pequeno e breve encontro dos Moura Lima marcou o início de um evento que se repete a cada ano. Após a primeira reunião, que se deu em abril de 2022, veio a segunda em abril do ano passado; a terceira aconteceu nos dois primeiros dias de junho deste ano – festivo, com uma comida bem mineira, muita conversa, sonoras risadas, doces e bolo. Ah, e teve até parabéns para o bolo! Os onze estivemos reunidos por várias horas na noite do sábado; após o almoço no domingo, alguns já buscaram o caminho de casa e se mandaram, mas continuei por ali até o meio da semana.    Dois dias após nosso convescote, uma querida prima, muito considerada por nós e que estava gravemente enferma, partiu. Então, encerro aqui o assunto dos Moura Lima e passo para a Marilza, essa ...

ELA ESTARIA FAZENDO 85 ANOS

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“Deus abençoe sua boa vontade! Deus lhe pague! Graças a Deus!” , esses foram os dizeres mais frequentes de minha mãe, que neste ‘vinte e três de maio’ completaria oitenta e cinco anos. Para alguns, tais frases talvez sejam desprovidas de sentido, podendo até lhes causar certo estranhamento, mas não para quem conviveu com ela.   Mamãe, ao longo da vida, passou por diversas fases. Sua personalidade, marcante, foi forjando a vida dos filhos e de quem mais esteve por perto. Posso falar disso, porque conheci mamãe desde os tempos em que ela era uma “meninota” de vinte e poucos anos.   De início, lá na juventude, mamãe foi uma mulher vaidosa, que se maquiava com pó de arroz e ruge. Também usava uma bolsinha de mão e sombrinha colorida de cabo bem-trabalhado, coisas do tempo de solteira. No entanto, batom, esmalte e brincos mamãe nunca usou e se irritava com alguém que lhe oferecesse. Isso ela aprendera com o pai, meu avô Aurélio, que, para ele, esses luxos seriam vícios de quem não é muito l...

O CAVALO DE NOÉ

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“Apenas a ignorância, e tão somente ela, pode nos fazer felizes”.     A frase acima é de minha lavra, e por isso mesmo de péssimo gosto. E como mau frasista que sou, por coerência, continuo escrevendo más crônicas.   Partindo da premissa de que apenas os ignorantes são felizes, então não sei o porquê de minha tristeza. Ultimamente estou numa melancolia de dar dó e por isso evito o noticiário, todo ele. Não tenho tomado conhecimento dos fatos de Brasília, do meu estado, do meu município e, muito menos, do mundo. Sei que a Rússia continua esganando a Ucrânia e Israel prossegue fustigando os palestinos. Como não posso deter a fúria assassina daqueles genocidas, prefiro não tomar pé dos acontecimentos.   O mesmo acontece com as notícias que vêm do sul. Sei que o Rio Grande está sob um dilúvio de proporções bíblicas e que o gaúcho vive seus piores dias. Aqui, sim, eu poderia fazer alguma coisa, e tenho tentado. A minha contribuição se faz com algumas preces, que são bem fraquinhas – e com u...

CESARINHO

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            Em setembro último, estando na casa de um velho conhecido, encontrei-me com o Cesarinho. Assim que nos vimos, ele me reconheceu e perguntou se eu me lembrava dele. “Não, eu não me lembro de você!”, respondi envergonhado. Perplexo, ele bradou: “Sou o Cesarinho, rapaz! Já se esqueceu de mim?!” Fiquei embasbacado. Afinal, muitas décadas se passaram sem que eu visse esse meu colega de escola, com quem estudei o ‘quarto ano primário’. Acontece que os anos costumam fazer estragos no corpo e na memória da gente, o que nos deixa meio embaraçados quando reencontramos amigos de infância – e esse é o meu caso.   A conversa que eu teria com o outro senhor, a quem visitava, migrou para o Cesarinho. Bom de prosa, ele contou muitos casos naquela curta meia hora de bate-papo. Eu também rememorei com ele alguma coisa bastante pitoresca, de que ele se lembrou com impressionante nitidez.   “Cesarinho, você se lembra daquela vez que eu achei na estrada uma chave de mecânico e que troquei com v...

O ESTEIO DA FAMÍLIA

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Fazendo memória nestes dois anos da ‘passagem’ de meu Velho, começo este texto ouvindo “Esteio de Aroeira” – um clássico da dupla Zé Fortuna e Pitangueira. “Meu pai que também era o esteio firme da família (...)” – ouço emocionado.   Na última vez que visitei meu pai, estávamos jogando cartas quando me veio a ideia de pôr algumas músicas pra tocar e enfeitar nosso lazer. Comecei por “Esteio de Aroeira”, tendo a certeza de que ele a conhecesse e apostando que gostasse dela, mas não foi bem assim. Papai, que até então escolhia atentamente as cartas que formariam canastras e aquelas que deveria descartar, desviou o foco para aquela música, que o embevecia.  Ao final, perguntei se a conhecia, e para minha surpresa ele disse que não, mas que achou muito bonita. Na foto acima, um registro daquele carteado, que foi o último; no dia seguinte ele seria internado pra não mais voltar.   Desde a primeira vez que ouvi ‘Esteio de Aroeira’, e isso já faz muitos anos, a imagem de meu pai me veio sole...

DITADURA NUNCA MAIS

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O assunto não agrada, eu sei, mas preciso falar de coisas chatas também. E já adianto ao raro leitor: caso tenha algo mais divertido pra fazer, corra daqui porque não serei suave.   No último 31 de março (ou primeiro de abril) completaram-se sessenta anos do golpe militar que arrastou o nosso país para uma ditadura de duas décadas. Muitos ignoram o golpe e a consequente ditadura: uns por desconhecimento, outros por maldade.   No sexagésimo aniversário da infâmia, o presidente da República proibiu atos oficiais alusivos à data e por isso ele foi bastante hostilizado, sendo, inclusive, tachado de covarde. Eu também penso que a data não pode ser apagada e o golpe deve ser rememorado todos os anos, sempre no ‘primeiro de abril’. Mas Lula tem lá suas razões e não quis arrumar encrenca com os fardados.   Para entender o governo federal, há uma linha de raciocínio bem simples. As nossas ‘forças armadas’ são semelhantes às ‘gangues armadas’ que dominam as comunidades. Ao cidadão suburbano que ...

NA SORVETERIA

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Noutros tempos eu gostava de me amoitar num cantinho de boteco para ler, escrever ou simplesmente observar as pessoas que entram e saem – e também aquelas que nunca saem. Eu me divertia vendo um ébrio encostado no balcão com um copo de cachaça pela metade, mirando o líquido numa contemplação apaixonada e sem fim. O homem pega o copo, dá uma balançada na pinga, mas desiste de beber, deixando novamente o copo no balcão. Olha meio desconfiado para o lado, dá dois ou três passos em direção à porta, mas volta para seu cantinho e fica novamente namorando a pinguinha, que parece ser boa.     Antigamente a cena com o manguacinha no boteco era mais pitoresca. Naquele tempo, o sujeito tinha a liberdade de acender o cigarro, mas para isso teria que usar uns três palitos de fósforo: um quebrava na primeira riscada; o outro palito caía e ele, por razões óbvias, não conseguia pegá-lo; com sorte, era bem-sucedido na terceira tentativa. E os copos... ah, preciso falar disso. A cachaça foi feita pra s...

ELA SE FOI VESTIDA DE BRANCO

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Vivi com minha mãe os seus últimos momentos. Nunca, jamais pude imaginar que seria eu a pessoa a estar com ela em sua hora derradeira. Uma profusão de pensamentos me tonteava naquele começo de noite do dia 29 de fevereiro. Mamãe inerte, respirava silenciosamente com o oxigênio no fluxo máximo.   Eu tinha à disposição uma poltrona confortável, mas preferi uma cadeira de plástico, porque eu sabia que naquela noite eu não poderia cochilar. E numa cadeira menos confortável, provavelmente eu velaria o sono de minha mãe sem que dormitasse. Naquelas horas aflitas, eu me dividia entre a mamãe e o celular, de cuja telinha brotava um jorro interminável de mensagens, muitas não respondidas. Eram irmãos, parentes e amigos que queriam saber como ela estava. Eu não imaginava que aqueles seriam os instantes finais de minha mãe. Naqueles minutos, que depois eu saberia serem os últimos, enquanto eu observava a respiração e a temperatura da minha mãe, a minha irmã mais velha costurava o ‘vestido branco’...