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Mostrando postagens de junho, 2016

NOITES JUNINAS

Ainda pequeno, tinha eu uns sete anos, papai nos levou a uma festinha – que eu não sabia ser junina. O festeiro, seu Antônio Inácio, morava numa velha casinha de pau-a-pique, que ficava próxima ao local do ranchinho onde costumo fazer a sesta nas tardes de minhas férias.   Chegamos à noitinha. No terreiro, um alto mastro de madeira exibia uma estampa de Santo Antônio, o patrono do folguedo. Ao lado, toras cruzadas crepitavam ao sabor das chamas, aquecendo aquela noite de junho. Não havia lua; havendo, fora ela ofuscada pela fogueira e por nós ignorada. Havia chaleiras de café e muita batata doce, que púnhamos nas cinzas que iam se formando. Broa de fubá também havia, mas preferi as batatas, que eu mesmo cobria com cinzas e depois as tirava fumegantes. Havia também uma sanfona ‘8 baixos’, que seu Antônio tocava.   Lá pelas tantas, meu pai consultou seu velho relógio de bolso e disse: “Vamos embora, que já é meia-noite!”  Um deslumbramento: nunca eu ficara acordado até meia-noite! Seu An...

O HOMEM DO BIRIL

Publicado no blogdofilipemoura.com em 16/09/2011   Chegara à tardinha. Tocou a campainha e, ao ser atendido, pôs-se a falar de seus problemas, que não eram poucos. E assim, de forma bastante ensaiada, começou: “Escuta aqui, seu moço. Você não quer morrer, não é?” Sobrevivendo a esse tipo de pergunta, que pode matar qualquer um de susto, respondi que não. E ele continuou: “Eu não vou mentir. Deus me livre de mentiras!”  Disse e ergueu os olhos para mim, para ter certeza de que eu lhe dava atenção e o merecido crédito. Então, prosseguiu: “Tomo remédios e o posto me dá oito tipos, mas tem um que ele não dá. E se eu não tomar esse remédio, moço, eu vou morrer! E eu não quero morrer... Você tá me compreendendo?” Essa última frase foi como uma pinça, capaz de remover qualquer pedrisco que insistisse em obstruir a boa ação, que se seguiria a tão pungente apelo.   Confiante, fitava-me e estava certo de que o samaritano que encontrara poderia ser o bom moço de quem tanto precisava. De minha par...

A GAMELEIRA

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Eu a descobri garbosa e poucos sabem de sua existência ou por ela não se importam. Cresceu silenciosa, como crescem as árvores, e sua copa já alcança as alturas – uma enormidade. Lembra uma catedral gótica, quando observada a partir de seu tronco repleto de nervuras. Antes, disputava fiapos de sol com a vizinhança galhuda e folhosa; hoje, reina soberba por sobre a ramagem. Balançando ao vento, seus galhos, feito longos e encurvados braços, parecem desdenhar de mim e dos arbustos – uma insignificância rasteira cá embaixo. Brotando de sua base, sinuosas e robustas raízes se estendem pelo solo como serpentes em fuga.   Quando criança, tinha medo das gameleiras, pois diziam serem elas mal-assombradas. Havia uma dessas, um pouco distante de nossa casa, enorme, gigantesca! Crescera em meio a um rochedo com reentrâncias cavernosas, onde urubus nidificam. Morreu prematuramente, ainda uma ‘jovem’ centenária, e dela restou o caule desprovido de galhos, semelhante a um gigantesco braço nu erguido...