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Mostrando postagens de outubro, 2015

O CAPIM, A VACA E O HOMEM

Queria começar este ensaio citando números e fontes para impressionar o solitário leitor, passando-lhe a impressão de que estou bem informado. Se bem que tentei, confesso, mas não consegui. Havia guardado um recorte de jornal com uma gama de informações a respeito do tema de hoje, mas não o encontrei. Também estou com preguiça de buscar na ‘net’. Mas você verá, bravo companheiro, que os dados não lhe farão falta. Como também não lhe fará falta este texto que ora rabisco.   A população envelhece velozmente, mas parece – e isso me é cada vez mais evidente – que não nos importamos com o futuro dos futuros velhos que seremos, ou somos. Educamos nossas crianças somente para a felicidade, como se a tristeza, a frustração, a dor fossem uma anomalia da natureza. Algo que deva ser extirpado do cotidiano para que possamos ter uma juventude ainda mais feliz. Mas o que se vê por aí (e por aqui também), não passa de uma massa idiotamente hedonista, incapaz de tomar decisões, nem de se libertar da r...

SEU MIGUEL

Publicado originalmente no 'blogdofilipemoura.com', em 16/03/2012   Completou 90 anos e diz que não quer viver mais. “Vivi muito e este ano eu quero morrer”. Disse isso, porém, traído por um sorriso no final da frase, deu a entender que não é bem assim. Seu Miguel quer viver mais e, se aguentar, mais 90 anos!    Não se sabe ao certo quanto tempo seu Miguel está internado naquela casa: se 10, 15 ou 20 anos. Quem sabe são os funcionários que cuidam da papelada. Mas ali, quem cuida de papéis não cuida de pessoas. Quem informa alguma coisa a seu respeito é um companheiro. Este afirma, sem segredo, que seu Miguel tem um filho. E que esse filho apareceu somente no dia em que “sepultara” o pai naquele "jazigo" de velhos, que pedem para morrer.   Passa Vinte, de onde veio seu Miguel, é um lugarejo não muito distante. De carro, meia hora; a pé, não há como. Principalmente para quem já é nonagenário – não é, seu Miguel? Pois o grande sonho deste homem é visitar sua terra. Ele s...

NEURAS

Tá horrível a coisa aqui. Um calor insuportável, um vizinho escroto com uma bateria dos infernos e eu tentando atualizar meu blog. Se na calmaria da madrugada já não consigo grandes feitos, imagine agora, na aridez desta tarde calorenta e acrescida dos decibéis de alguém sem noção de civilidade... Mas vou tentar. Quem sabe, na companhia de uma sinfonia de Mozart, eu consiga sublimar o purgatório que me sufoca o espírito e me entorpece a alma?...   Aumento o volume do aparelho, o violino geme enquanto vou cofiando os neurônios a procura de algo. Penso que hoje, sendo feriado, facilitaria. Mas não. Amanhã, se alguém acessar o blog, ficará espantado com tanta baboseira de quem se diz professor. Calma! Professor é assim mesmo e você já teve muitos. Todos são neuróticos, não suportam barulho, nem mesmo o de uma caneta sobre a carteira. Principalmente quando a Fulana insiste no batuque, embalde os pedidos clementes para que pare, ao que responde: “Eu não consigo parar!”. Consegue.  Posta par...

MINHAS BRANDONICES

NOTA : Publicado originalmente no blogdofilipemoura, em 20/04/2012   Brandonice . Essa palavra não existe nos dicionários. Existe apenas no meu léxico, pois fui eu quem a inventei. Sua história é longa, mas devo abreviá-la para não cansar a solitária leitora ou leitor.   Nos tempos em que ginásios eram escolas, frequentei um. Alguns frequentavam-no para aprender aritmética, gramática, ciências e outros saberes; outros compareciam às aulas parecendo ter como único objetivo o de ser reprovado. E naquele tempo, as reprovações eram terrivelmente abundantes!   Na hora do recreio, formava-se uma fila para comprar merenda. Os  ricos compravam refrigerante e salgadinho – uma tal meia-lua, que um dia tive a glória de experimentar; a classe média comprava pão doce e um tal qui - suco ; nós, da classe baixa , disfarçávamos engolindo saliva mesmo. Alguns estavam tão famélicos, que costumavam percorrer o pátio a pedir um pedacinho de pão. Lembro-me de um moleque que fez uma farta colheita, junto...

DESAMPARO

Artigo encaminhado ao jornal "A Tribuna", edição de hoje.   A oitocentista Amparo, que foi palco de grandes acontecimentos como os movimentos abolicionista e republicano em fins do século XIX, do embate entre constitucionalistas paulistas e as tropas federais de Getúlio em 1932, e até do Congresso Eucarístico de 1944 além de outras efemérides, está cada vez mais reduzida à memória. A Amparo que hoje se vê não passa de um borrão perante a que fora num passado distante. A rica arquitetura com soberbos casarões, as ruas arborizadas, as calçadas de paralelepípedos, os postes de iluminação, o Teatro João Caetano, os cinemas, tudo isso tornou-se apenas uma fotografia desbotada de uma Amparo outrora pujante. Quando ouço Caetano Veloso cantar “da força da grana que ergue e destrói coisas belas” – verso de sua antológica “Sampa” – penso em Amparo. Alguém ergueu esta monumental cidade para, tempos depois, ser espoliada por uma elite avara que, tal como o mitológico Midas, quer transfor...