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Mostrando postagens de 2021

SEXAGENÁRIO

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Hoje completo sessenta anos e de mim já se pode dizer em linguagem bíblica: “aquele senhor de muitos dias”.   Se aos trinta anos alcança-se a ‘idade da razão’, aos sessenta, com ou sem razão, chega-se à ‘idade da libertação’. Livre, agora, da obrigação de ser polido com a aspereza e sensato com a malvadez, quero sorver com sofreguidão esses poucos dias que ainda me restam.   Se a vida para o jovem requer coragem, para nós, os provectos, ela exige destemor e suavidade. Nesta crônica, tentarei a suavidade.   É manhã e estou na varanda de uma simpática pousada na Serra da Mantiqueira e meus olhos alcançam as montanhas verdes e molhadas, todas cobertas de névoa. Não muito distante daqui, está a igreja matriz de Maria da Fé cujo pináculo perfura uma parte do nevoeiro. No posto, um pequeno trator estaciona para abastecer. Sobre ele há seis caboclos de chapéu  e mochila, prontos para o trabalho rural – roçar, plantar, talvez colher.   Sento-me com o notebook, deixo a cuia de chimarrão na sole...

TEREZINHA

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O ano era 1980; a cidade, Juiz de Fora. Eu havia me alistado para o serviço militar e fui convocado para servir numa unidade de cavalaria que ficava na região central daquela cidade. E foi nessa ocasião que conheci a Terezinha.   Tudo começou assim. No quartel, tive como chefe de seção o subtenente Lopes, a quem chamávamos carinhosamente de ‘Sub’. Este era um militar trabalhador, justo, cordial, e por quem eu me afeiçoei desde o início, mal sabendo ser ele o Zezinho,  esposo da “Terezinha da tia Áurea”.   Certo dia, o subtenente Lopes me chamou para acompanhá-lo num serviço que ele faria na cidade. A certo ponto, ele mandou o motorista estacionar a viatura, desceu e me convidou para acompanhá-lo. Em seguida, ele abriu um portão e, com um gesto, fez com que eu continuasse o acompanhando. Bom soldado que era, fui atrás dele. Então o ‘Sub’ afundou casa a dentro, e eu atrás... Já na cozinha, ele anunciou jubiloso à esposa a ‘chegada de um primo dela’. Era bem cedinho e a Terezinha estava a...

MINHA ÚLTIMA AVALIAÇÃO

Como faço desde o início da carreira, em dezembro dou um pedaço de papel a cada aluno para que avaliem meu trabalho. Recomendo que essa avaliação deva ser anônima a fim de que possam expressar mais livremente seus pontos de vista sobre meus inúmeros erros e possíveis acertos também.  O resultado, embora doloroso para mim, tem sido frutuoso, pois a partir dele, eu me esforço bastante para melhorar a atividade docente. De início, essa “enquete” era feita no último dia de aula, mas devido à debandada prematura dos alunos, tive que antecipá-la.   No entanto, engana-se quem pensa ser isso vaidade. De posse dos papeizinhos preenchidos, costumo abri-los apenas quando estamos encerrando a burocracia. No silêncio de uma sala de aula deserta é que eu costumava desdobrar os pequenos “bilhetes”. Ali eu me pegava ora maravilhado com demonstrações de afeto de uns, ora terrificado com a violência verbal de outros. Agora, se me faço vidraça, é por que deveria confiar numa blindagem – mas ela não exist...

MARIANA

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Você acaba de completar trinta anos! Ainda ontem uma “pirralhinha”; hoje uma sóbria senhora, porque tem a ‘idade da razão’, é esposa, é mãe.   Lembro com carinho das mamadeiras no meio da noite, nas madrugadas, nas manhãs e nas tardes – todas feitas de leite com Ovomaltine. Tempos depois, veio a ‘papa-papinha’ de mandioquinha; de sobremesa, Yakult ou Danoninho, mas que você queria como antepasto.   Lembro com saudade das manhãs preguiçosas, assistindo ao Castelo Rá-Tim-Bum na Cultura, e das tardes sonolentas, vendo Chaves no SBT, e dos fins de semana com as "fitas-cassete" da Disney, que eu pegava para você na locadora do bairro. Em tardes de sábado, costumávamos ir de trem a Santo André. As suburbanas vagas humanas comprimidas nos vagões tal qual um “formigueiro” conforme você denominava e com ele se irritava. A missa na Catedral, uma parada na banca de jornais e um passeio na livraria do shopping. Você querendo um livrinho infantil e o insensato pai dando-lhe um dicionário!...

O PEDREIRINHO

Ele acaba de completar ‘cinquenta anos’! Ainda ontem esse mano era um rapazinho franzino, que furava buracos, amarrava ferragens, levantava muros e paredes, armava laje, cimentava, rebocava e azulejava. Com apenas dezoito anos ele ergueu a minha casa!   Olha, que tempos foram aqueles!... Era finalzinho dos anos oitenta e começo dos noventa. A inflação roía nossas economias, tornando difícil um planejamento. Mas, com o mano ao meu lado, fui em frente. Trabalhando quase sempre sozinho, ele fazia a argamassa, punha na lata e subia no andaime onde despejava a massa no caixote. Depois descia, ajeitava a masseira e retornava ao andaime com a colher de pedreiro, prumo e nível. E assim, as paredes de alvenaria foram erguidas, colunas concretadas, laje batida, telhado posto.   Por tempos, levantando muito cedo, ele atravessava parte da cidade, percorria alguns quilômetros, até chegar à obra. A comida era bem precária: arroz, feijão, carne cozida e talvez uma salada, ou nem isso. O cardápio, que...

PASSAREDO

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O flagrante acima é de um jacu. Essa ave esbelta e um pouco arredia costuma me dar o agrado de uma breve visita, mas que só acontece de vez em quando. Ela deve ter suas razões, e por isso não gosta de muita prosa comigo. Quando chega, pousa no telhado, olha ao redor, caminha um pouco e pula para o abacateiro, depois voa para a mangueira e de lá segue seu destino para outras e longínquas paragens.   Moro numa região bastante arborizada onde há várias espécies de pássaros. Por aqui há sabiás, bem-te-vis, rolinhas, tico-ticos, corruíras, sanhaços, canários-da-terra, tucanos, galos-da-campina, pica-paus, joões-de-barro, maritacas, anuns, colibris, asas-brancas e um sem-número de outros pássaros que não consigo nomear.   Nas manhãs de sábado, ando pelo bairro com meu cãozinho Tokinho e vamos ouvindo o passaredo. Outro dia, num desses passeios, notei algo estranho na casa de um vizinho. O homem estava com uma vara comprida – talvez um bambu, ou sei lá o quê. Ele usava aquilo para dar golpes ...

PERDAS

Cheguei ao ponto de ônibus às ‘seis horas e vinte e cinco’— como faço todos os dias, de segunda a sexta-feira. Há vezes em que o ônibus atrasa uns minutinhos, chegando às seis e meia. Dessa vez, no entanto, ele não atrasou.   Como sempre, uma senhora já está lá desde muito antes de eu chegar. Com cigarro aceso, fazendo fumaça e pensando na vida, ela me parece bastante simpática, mas de pouco assunto. Chego, dou-lhe o bom-dia e também fico em silêncio até o “cata-louco” chegar.   De uns tempos para cá, no entanto, passamos a trocar algumas frases banais do tipo: “que frio!”, “que calor!”, “que seca!”, “que chuva!”, e nada mais do que isso.   Hoje, porém, fomos um pouco além do prosaico. Eu sentia frio, mesmo com um casaco, e ela em trajes de verão.  Perguntei se fazia frio mesmo ou estava febril, e expliquei o motivo. Extraí um dente, estou com vários pontos, tomei anestésico e aquilo tudo me afetou bastante, só conseguindo dormir à noite depois de tomar dipirona.  Ela disse que não faz...

QUEIMADAS

Quando menino, fiz uma tremenda besteira da qual nunca me esqueço. Na época em que cometi esse “crime”, eu tinha a idade de dez ou onze anos. A história foi assim. Meu pai havia roçado nosso quintal e feito umas coivaras [um amontoado de galhos] para serem queimadas a fim de preparar o solo para o plantio. Ele é quem deveria pôr fogo nas coivaras, e não um menino, que ‘não tem juízo’.   Antes desse malfeito, eu assistia encantado às queimadas que todos faziam naquele tempo e queria protagonizar uma cena daquelas também. Lembro de um tio, irmão caçula de minha mãe, que botou fogo num roçado no sítio da vizinha tia Badica. Ele pegou uma vara de bambu com um chumaço de pano embebido de querosene, pôs fogo nesse chumaço e semeou as chamas pelo matagal. Eu olhava com orgulho (e inveja) o meu tio: pequeno, um garoto ainda, mas tão poderoso!   Voltando ao meu caso. Meu pai não estava em casa e eu, querendo adiantar o serviço, peguei uma caixa de fósforo, risquei um palito e tentei pôr fogo na...

APANHANDO DE BOLSONARISTA

Quem tem a “fortuna” de conviver comigo já teve o infortúnio de perceber que sou uma pessoa pouco suportável. Talvez por isso meu círculo de amigos seja muito pequeno e sem que eu tenha pretensões de ampliá-lo. Meu cotidiano é bastante monótono e muitas vezes procuro um refúgio para, em voluntária solidão, fazer acertos e reparos em minha maculada alma. Todavia, estando com pessoas com quem tenho afinidade, costumo ficar à vontade para expor pontos de vista. Foi mais ou menos isso que me aconteceu dois dias atrás.   De manhãzinha, assim que cheguei à escola, um pequeno grupo de colegas começou a falar sobre os malefícios causados por aquela figura abjeta alçada à presidência da República. Havia manifestações de caminhoneiros com obstrução de rodovias etc., e uma amiga estava indignada porque um familiar dela, que também é caminhoneiro, e mesmo sofrendo as agruras socioeconômicas desse desgoverno, defende o ogro. Até esse momento todos falávamos serenamente. No entanto, uma professora c...

JEFTÉ NO WHATSAPP

Dia desses houve uma discussão bastante acalorada no grupo de whatsapp de minha família. Ah, é preciso destacar uma coisa: o “Irmãos Moura Lima” tem onze membros, o que faz desse grupo um gigante do gênero “irmãos”. Como em qualquer grupo, no nosso há aqueles que publicam industrialmente, há quem pouco aparece e há quem tenta falar e nunca é ouvido. Acho que estou nesta última categoria, porque ninguém dá bola para as minhas mensagens.   Dessa vez, a fervura se deu devido a uma provocação que fiz. O texto bíblico do dia era sobre um personagem emblemático do Antigo Testamento: Jefté.  Lendo aquela passagem bíblica, fiquei confuso: “Como pode um sujeito fazer um pacto com Deus para destruir uma comunidade inteira, no caso a dos amonitas...”   Segundo a Bíblia, Jefté teria sido abençoado por Deus para vencer os amonitas, mas sob a promessa de oferecer em sacrifício a primeira pessoa da qual se acercasse na volta para casa após seu triunfo. Aconteceu que, vitorioso, ele volta para casa to...

"ONDE VOU USAR ISSO?"

A pergunta que dá título a esta crônica é recorrente em sala de aula. Os “especialistas em educação” amam-na e costumam usá-la para afrontar professores em palestras para lá de enfadonhas.   De volta às aulas presenciais, com a temível ‘variante delta’ no nosso encalço, temos que driblar a situação para evitar a contaminação. Num ambiente bastante precário, muitos alunos não parecem se preocupar com os riscos e se aglomeram. É preciso, a todo momento, pedir que se distanciem, que coloquem a máscara, que ponham a máscara corretamente, e que o nariz, ainda que belo, deve estar coberto...  Um saco!   No meu caso, não bastasse a extrema preocupação com os “bons modos sanitários”, ainda preciso lidar com a fatídica pergunta: “Professor, onde vou usar isso que você está ensinando?” Pela enésima vez, tive que ouvir isso anteontem. Respirei fundo e não respondi de imediato. Naquele momento, lembrei de meu tempo na graduação e de uma aula de álgebra. Sem entender o conteúdo, eu me dirigi ao pro...

UM MESTRE RIGOROSO

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Meu pai já foi professor, mas isso há quase setenta anos. Dentre seus muitos alunos, havia uma menina, que mais tarde veio a se casar com ele. Essa mocinha, hoje minha octogenária mãezinha, deve ter se encantado com o mestre pela sua cultura, honestidade, talvez beleza ou outros bons atributos, mas não pela paciência, que nunca foi o forte de meu pai. É meu pai mesmo quem diz isso, mas em outras palavras. O rigor para com os alunos costumava ser convertido em varadas. Certa vez, após um breve recreio dado aos alunos, muitos tardaram a retornar à sala de aula. Então, uma vara de “vassourão-branco” (eu conheço essa planta) deu o recado. E, não muito tempo depois, uma das premiadas com as lambadas tornaria sua esposa. Hoje, papai e mamãe festejam as Bodas de Ébano (são 66 anos de casados).   Ao se casar, meu pai parou de lecionar, mas acompanhava as lições dos filhos. De vez em quando, ele chamava um por um e vistoriava os cadernos. A minha irmã mais velha recebia sempre merecidos elogios...

O SAMBA DO MILICO DOIDO

Ninguém me pediu opinião sobre o que se passa no Brasil, como ninguém quer saber o que penso dessa vida nem da outra.  A minha opinião vale tanto quanto um flato do Bozo.   Começando pelo meu vizinho, que tinha um galo que cantava e me encantava nas madrugadas. “Socorro, socorro, socorro!”, ele sempre gritava lá de cima de sua árvore. Se não pude socorrer nem o meu amiguinho penado, quem pode contar comigo?... Se o galinho foi depenado e está no além, eu não sei, mas torço para que ele esteja feliz em outro terreiro, agora cercado de outro harém.   Sobre o presidente, que nunca me encantou, não sei se está mesmo mal das tripas. Caso esteja, não lhe desejo mais sofrimento e muito menos a morte. Quero-o, sim, são e lúcido, mas no banco dos réus, respondendo pelos seus crimes.   Esse parece ser o governo mais militarizado de toda a história da República, e os militares que o compõem revelaram-se incapazes de servir a nação em trajes civis: uns incompetentes e corruptos. Ainda assim, de fo...

UMA GENGIVITE

Hoje foi um dia de profunda reflexão para mim. Pus-me a pensar no sofrimento que atinge grande parte da população totalmente desassistida. Uma simples gengivite me deixou inoperante por todo o dia e, pelo jeito, terei um final de semana bastante dorido. Essa inflamação começou lenta, mas foi crescendo, crescendo até me dominar por completo. Não consegui dormir nem trabalhar nem ler nem rezar. Dei uma enrolada na patroa, na chefia e nos alunos, mas preciso fazer amanhã tudo que ficou no atraso hoje. O problema é que não consigo ficar em pé por meros cinco minutos sem que mire o horizonte à procura de uma cadeira ou, quem sabe, uma cama para repousar.   Isso, no entanto, me deu uma boa oportunidade para refletir sobre o sofrimento das pessoas. Quanta gente está passando por perrengues muito maiores do que uma ‘’simples gengiva inflamada’’, e sem perspectiva de tratamento... Tem muita gente sofrendo, meu Deus! O que sinto não é nada.   Voltei a um passado não muito distante e me lembrei d...

TÉDIO!

Tédio!, é o que sinto nesses tempos tenebrosos e de escassas esperanças. Já chegamos a meio milhão de mortes por covid, grande parte delas evitável, mas o Asmodeu continua negando a ciência e combatendo os protocolos sanitários. Mas não só. Ele ainda dissemina ódio, dividindo a nação, as comunidades, as famílias. O genocida nos trouxe a cizânia e não suporto mais ouvir aquela sua voz cavernosa. Todos os meios de comunicação que não lhe são afetos deveriam “cancelá-lo” de vez, mas não o fazem. Sempre, e em todos os jornais, está aquele vomitório. Da última vez que vi o ’coisa-ruim’, o ‘inominável’ fazia apologia da morte, dizendo que todos devem ter uma arma em casa para se defender. “Eu não durmo sem uma arma”, disse orgulhoso, e completou: “Você não se garante?...”. Bom, quem não se garante é ele que precisa de uma arma para dormir. Imagine o que mais deve passar naquela mente insana numa noite de insônia...   Mas a besta-fera quer mais, quer a vendeta. Pretende armar seus asseclas e,...

MELQUÍADES, O DESERTOR

  No começo dos anos oitenta eu prestava serviço militar numa unidade de cavalaria em Juiz de Fora. O presidente da República era João Figueiredo, um general cavalariano de maus modos, tosco, mas nada que se compare ao “Cavalão” que hoje está no posto. Embora vivêssemos os estertores do regime militar, a atmosfera política era bastante tóxica. Gilberto Gil, Caetano Veloso entre outros eram vistos com desconfiança, e Chico Buarque foi tachado de subversivo por um tenente numa palestra.   Havia naquela unidade militar uma sala em cuja porta estava afixada uma plaquinha em que se lia “xadrêz” – assim mesmo: com o desnecessário acento circunflexo. Eu tinha curiosidade de entrar naquela sala, queria ver como era a famosa ‘’cadeia’’. Um dia, na companhia de um colega, entrei lá para fazer alguns reparos como reboco e pintura. Passamos pela porta com a tal plaquinha e à esquerda havia outra porta, de aço e pesadíssima, que dava acesso ao ambiente. Dentro da cela havia outra salinha, muito est...

QUE TEMPOS!

O celular me acordaria às 4h45min, mas bem antes já estou desperto e desarmo aquela “granada” cujos estilhaços despertariam minha companheira.    Levanto-me. A fria madrugada vai se despedindo e esquecendo para trás uns restos de escuridão. Gela lá fora, então eu me aqueço com um pouco de chimarrão antes de ir para o trabalho.   Saio exatamente às 6h15min, caminho durante oito minutos e às 6h30min chega meu ônibus. Entro nele e dou uma cédula de cinco reais ao motorista, que me dá sessenta centavos de troco em duas moedas. Passo pela roleta enquanto o ônibus ronca, se arranca e quase me derruba. Cambaleio até um banco e sento nele, mas uma das moedas me escapa e, disfarçadamente, me ponho a procurá-la, em vão. Mesmo enxergando mal com os óculos embaciados devido à máscara, vejo com alívio que perdi a moeda miudinha; a mais gordinha está a salvo.   Ajeito-me no banco e tento pensar noutras coisas para esquecer a moeda. Como não tenho conseguido ler, aproveito para divagar, meditar ou re...

SAUDADE DA CHUVA

Meu Deus, que tempos ingloriamente secos e empoeirados são esses?! Não chove mais como antigamente...Tenho saudade da chuva, do barro no quintal ou na estrada, do cheiro de terra molhada. Tenho vontade de voltar a sujar os sapatos e depois tirar os sapatos; de pisar descalço na lama e depois limpar os pés no capim molhado.   Saudade dos tempos de menino quando voltava da escola e pulava nas poças d’água da estrada, que nos molhava e nos sujava. E tinha medo da bronca em casa, e a bronca não faltava e era severa. Saudade da roupa suja e da bronca também.   Saudade dos tempos de adolescente quando – nós que morávamos na “roça” –  íamos sábado à noite para a “rua”. Saíamos de casa à tardinha sob a ameaça de um temporal, que nunca falhava. Por vezes a chuva nos obrigava a voltar para casa já na metade do caminho. Noutras vezes não chovia enquanto íamos, mas a volta era molhada. Naquele tempo, famílias inteiras desciam pela lamacenta ‘estrada velha’: os “grã-finos” a cavalo ou de charrete; ...

AUSÊNCIAS

Eu estava passeando com o Tokinho, meu cãozinho, quando vi aquele homem em sua casa. As mãos impacientes no gradil da varanda pareciam denunciar o atraso de alguém que deveria chegar, e um olhar displicente caía sobre a rua ensolarada, numa seca manhã de outono. Nunca o havia visto, embora há muito o conhecesse de nome e de histórias. Quando ele me avistou e notou que eu o olhava, virou-se disfarçadamente para dentro, como se alguém o chamasse. Mas em casa não havia ninguém além dele. Naquele momento, ele estava só.   Continuei caminhando devagar e parei em frente ao portão, que estava semiaberto. Assim que ele me viu de perto, nós nos cumprimentamos. Então ele deu alguns passos em minha direção e parou.  Nesse momento, eu quis me certificar de que ele fosse o tal senhor que eu conhecia pelo nome de Fiori. “Sou eu mesmo”, ele me respondeu acrescentando os pedaços que faltavam para completar o nome.  “E aquela senhora que sempre fica aí, na varanda?”, perguntei meio temeroso da resposta...

O DIÁRIO DE CAROLINA

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13 de junho de 1958 “...Vesti as crianças e eles foram para a escola. Eu fui catar papel. No frigorífico vi uma mocinha comendo salsichas do lixo. — Você pode arranjar um emprego e levar uma vida reajustada. Ela perguntou-me se catar papel ganha dinheiro. Afirmei que sim. Ela disse-me que quer um serviço para andar bem bonita. Ela está com 15 anos. Época que achamos o mundo maravilhoso. Época em que a rosa desabrocha. Depois vai caindo pétala por pétala e surgem os espinhos. Uns cançam da vida, suicidam. Outros passam a roubar. (...) Olhei o rosto da mocinha. Está com boqueira. ...Os preços aumentam igual as ondas do mar. Cada qual mais forte. Quem luta com as ondas? Só os tubarões. Mas o tubarão é mais feroz que o racional. É o terrestre. É o atacadista. A lentilha está a 100 cruzeiros o quilo. Um fato que alegrou-me imensamente. Eu dancei, cantei e pulei. E agradeci o rei dos juízes que é Deus. Foi em janeiro quando as águas invadiu os armazens e estragou os alimentos. Bem feito. Em ...

TURBULÊNCIAS NO PARAÍSO

Dia 20 de março fez um ano que tivemos de mudar às pressas para fora dos “muros da cidade”. A voraz pandemia, que apenas começava, obrigou-nos a essa aventura, que depois se revelou prazerosa. Morar em região montanhosa, cercado de vegetação, ar limpo e brisa noturna não é algo trivial. Aqui há dessas coisas, e há mais: tenho mangueiras que me dão frutos a seu tempo e sombra a todo tempo, e onde quero amarrar uma rede para as tardes preguiçosas.   E tenho bons vizinhos também, cada qual vivendo na quietude de seu canto. Uns criam galinhas, outros cães, outros nada. Não crio galinhas, mas tenho cães que ladram sem parar. Mas a ‘turbulência’ do título não é por conta das matilhas.   Tempos atrás tive que comparecer a uma DP como testemunha de acusação contra um sujeito que soltava rojões de madrugada por causa de um galo. O simpático garnisé não entendia que o vizinho protestava e continuava sua cantoria apesar dos estrondos. O “fogueteiro” não se deu por vencido e apelou: antes das seis...

TIZIU

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Vou falar do Tiziu, mas só no final da crônica. Se eu fosse você, pulava logo para o último parágrafo, porque no miolo desta só tem pedreira.   Eu estava feliz com o retorno à sala de aula. Havia poucos alunos, mas valia a pena devido ao interesse deles. No entanto, outra onda maligna da covid nos fez retornar ao trabalho remoto e, para que eu não ficasse tão improdutivo, quis seguir o exemplo de uma amiga que comprou uma lousa branca e dá aulas em casa, usando as mídias.   Fui à cidade, que estava quase deserta em razão do lockdown , e me dirigi a uma papelaria onde o atendimento se dava por uma janela. Havia umas três ou quatro pessoas à minha frente, mas eu não tinha pressa. Peguei meu jornal e comecei a ler, como sempre faço em ambientes com estranhos. Eu tenho dessas. Se não conheço ou não tenho afinidade, prefiro ler a forçar uma prosa.   Chegou, então, um sujeito falante, puxador de assunto, a quem cumprimentei sem muita vontade. Animado, ele começou com esta: “A que ponto chega...

ONANISMO PEDAGÓGICO

O título pode chocar os leitores mais pudicos, se é que os tenho, mas não achei palavra melhor para traduzir meus ânimos nesses tempos pandêmicos.   Começo falando sobre algo ocorrido nesta semana e que me deixou desconcertado, isto é, a meio caminho entre a vergonha e a ira. Fiquei envergonhado porque, ao longo de trinta anos como professor, nunca fui repreendido por um superior sem que este não recebesse a devida réplica; desconcertado porque fui admoestado e sem condições de me defender; irado porque há um plano malévolo de doutrinamento de professores orquestrado por uma elite que desconhece a escola pública.   Ano passado, durante todo o período de teletrabalho, fomos obrigados a assistir a inúmeras videoconferências, teleconferências, palestras, monólogos e quejandos. Neste ano, apesar do risco de contaminação, fiquei mais tranquilo porque me senti livre daquelas amarras. Mas descobri que não estou liberto. Explico.   De volta à sala de aula, sem alunos, e com vontade de exercer ...

O GRANDE ENCONTRO

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Sim, este foi para mim um grande encontro. Maria Eugênia veio conhecer seu avô após sete meses de longa espera. Ela chegou numa ensolarada tarde de sábado, bastante cansada de uma viagem que deve lhe ter sido interminável. Assim que o carro estacionou na garagem, fui ao seu encontro, não sem uma pequena preocupação: bebês são sinceros demais e costumam afastar estranhos. Eu era um estranho ali e ela deveria me dar uma bicuda logo de cara.   Chegando, cumprimentei os pais e me dirigi àquela por quem tanto ansiava. Apertei a maçaneta e abri a porta do carro. Ela me olhou enigmática, mas não se esquivou. Apresentei-me solene, beijando-lhe a ponta de um dedinho e a abençoei. Em seguida, tentei destravar o cinto para tirá-la, mas o cinto não destravava. Então a ergui por sobre o cinto e, com grande contorcionismo, consegui içá-la sem que se tocasse o teto. Entre assustada e curiosa – mais curiosa do que assustada – ela me olhou fixamente mais uma vez e avaliou a situação. Cansada que estava...

MINUDÊNCIAS COTIDIANAS

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Esse aí é o Patão, mas só falarei dele mais para a frente. Porque se ele não tem pressa, eu também não tenho.   Nesses tempos insanos, minha saúde mental exige que eu procure algo que possa minorar minhas agruras, pois meu dia a dia tem sido bastante confuso. Embora eu tenha afazeres domésticos, tento pôr ordem no quintal, recortar jornais, pôr a leitura em dia, mas não consigo muita coisa, não. Começo cortando a grama; deixo a grama e começo recolher as folhas; deixo as folhas e começo a colher mangas; deixo as mangas e começo a acender o fogo; deixo o fogão a lenha em meio a uma fumaceira danada e começo a descascar as mangas; deixo as mangas e volto ao fogão, porque o fogo está muito violento; dou uma “bronca” no fogo, que se abranda, e volto a descascar as mangas; encho a panela com polpa, ponho no fogo e vou limpar a pia; deixo a pia e levo os rejeitos de manga para as galinhas do vizinho. E o doce fica pronto e fica bom.   Abandono a TV Cultura e cumpro a melhor parte da minha ro...