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Mostrando postagens de 2016

INTROSPECÇÃO

Estamos no natalino mês de dezembro, que já se vai com seu Natal que se tornou tão banal, quase fatal. Com seus abraços tão falsos!   Então é preciso abrir para balanço – e não fechar, como se fecham os armazéns para arranjos contábeis. É preciso avaliar o ano que finda, num improvável retrospecto.   O ano foi duro, pouco frutuoso. Se não houve tantos frutos, houve flores e folhas e raízes, que adentram o solo pouco fértil de uma pedregosa existência.   Neste ano, houve tropeços nas relações. E rupturas. Mas novos vínculos suturam velhas chagas.   A vida costuma ser um deserto sem oásis nem bordas. Vagando-se nessas areias, perdemo-nos em miragens – o enganador efeito óptico da luz que se refrata e confunde.    As relações humanas, familiares ou não, têm muito desse deserto e de suas miragens. Tem a aridez da areia movediça, que traga, que naufraga.   Quantas máscaras... Por que mascarar-se?... Melhor mostrar a pele ferida, impiedosamente maculada, mas nua.   Contudo, é imperioso pôr a...

FREIZINHO

Ligeiramente atrasado, cheguei às cinco e quarenta da manhã à simpática cidade paranaense de Ponta Grossa, mas ele já me esperava na rodoviária. Não o vi de imediato, pois eu estava meio zonzo após tantas horas no “porão” daquele ônibus e minha coluna gemia devido ao desconforto da “segunda classe”.   O reencontro foi caloroso, como convém a velhos amigos que se reveem. Entramos no carro, passamos num posto para abastecer e comprar erva-mate – uma “Bitumirim” desbotada, mas saborosa. “Esta é o povão que usa”, disse-me um alegroso e todo prosa Freizinho.   Entramos no convento quando se celebrava a primeira missa. Paramos diante da capela, toda decorada para o Natal e fiquei embevecido com tanta beleza. O chão coberto de feno compunha um autêntico estábulo. As cadeiras e as paredes revestidas de papel pardo davam a impressão de se estar numa gruta formada por um vasto rochedo. E ainda os frades com seus batinões cinza... Aquele cenário me fez retroceder mil anos e me vi em plena Idade ...

ALTAR DAS VAIDADES

Encaminhado ao jornal "A Tribuna de Amparo" - edição de hoje.   Reclama-se muito que o jovem de hoje não quer saber de religião, que as igrejas estão cada vez mais vazias, que apenas os velhos as frequentam etc., etc., etc. Mas uma juventude esclarecida terá dificuldade para abraçar uma doutrina cuja embalagem traz um rótulo no mínimo suspeito. Algo de errado existe e simplório seria culpar a modernidade por isso.   Particularmente não sendo moderno, mas adepto dos velhos costumes, quase toda inovação me enfada, principalmente tratando-se de rituais sagrados – como por enfadonho tenho os programas religiosos transmitidos pela TV. Aqui, não me refiro a um credo em especial, pois, na TV, quase toda aquela programação me parece perversa.   Nas manhãs, tardes e principalmente nas madrugadas, falsos pastores tentam “laçar ovelhas”, utilizando os mais variados ardis. Aproveitam-se do desespero de pessoas doentes, desempregadas e desgraçadamente infelizes, oferecendo-lhes, a preços ...

NÃO FIQUE NERVOSO

Às vezes me pego pensando: que diferença faria para mim, para você ou para o seu Zé da feira, se vivêssemos sob a monarquia, como viveram nossos antepassados até o final do século dezenove?... A mim, pouco importa a república, o presidencialismo, o parlamentarismo etc. Sei que o mundo será trumpado a partir de 2017 e que aquele cafajeste fascista vai se refestelar, esbofeteando ameríndios, latinos, africanos e toda a casta de pobres que ousa existir neste planeta. De minha parte, já recebo uma dose diária de safanões vindos de Brasília e do Palácio dos Bandeirantes, onde mora meu “potrão” (ops! queria dizer patrão...)   Desde a Proclamação da República – a quartelada que depôs o Pedrão –, o Brasil tornou-se uma corte de bacharéis repleta de nababos vivendo às custas do povo. Leis são feitas para criar ou preservar privilégios. As normas, em teoria, seriam para todos, mas são aplicadas seletivamente, garantindo direitos aos “senhores” e impondo deveres aos “servos”. E quem mora no ‘and...

DURANTE UM CD

Passa das três da tarde e não fiz a postagem da quinzena. Pus um CD com uma espécie de réquiem, para eu digitar durante sua execução. O que sair aqui, saiu e nem vou pedir desculpas a ninguém, até porque ‘desculpas’ seria o tema deste texto. Estou de saco cheio dessa palavra, que serve para tudo, mas não resolve nada. Depois de qualquer grosseria, vem aquele deslavado pedido de desculpas. ‘Desculpas’, a rigor, seria: não tenho culpa, então peço desculpas... Mas desta vez, não tem nada disso. Não vou pedir desculpas e o raro leitor ficará desincumbido de me fazer tal favor.   Estava querendo falar sobre escola, mas o arredio leitor tá de saco cheio de escola. Em todas as mídias já tem alguém falando disso – sempre baboseiras, mas a minha escrita também seria mais uma bobagem. Ia dizer que há uma gente sórdida, que tem “alergia a giz”, domina mal a Língua Pátria, mas gosta de dar pitaco no trabalho da peãozada que respira poeira do tal giz. Essa gente maldita, que não sabe de nada e que,...

MALANDRAGEM

Na minha infância, dos poucos livros que havia em casa, um era de contos. Lembro-me de uma história, não tão fabulosa como os clássicos infantis, mas dotada de magia. O título me fugiu, deixando apenas a imagem de um “nadador’ e de um “lenhador”. Ei-la.   Certa feita, um lenhador cortava lenhas à beira de um rio quando num golpe meio desajeitado, o machado escapuliu e caiu na água.  O rio era profundo e o pobre homem não sabendo nadar, sentou-se à margem e começou a murmurar: “Como vou fazer para ganhar o pão das crianças?... Meus filhos são pequenos, minha mulher anda sempre adoentada e esse machado era minha única ferramenta de trabalho. Para comprar outro, terei que andar léguas até o arraial e convencer o dono do armazém a me vender fiado.  E ainda terei que trabalhar por muito tempo só para pagar o machado. Ai, meu Deus, o que farei da minha vida?...” Nisto, apareceu um jovem dentro do rio, nadando pra lá e pra cá, sem perceber a presença do lenhador, que estava atrás de uma moita...

O VOTO DOS ESTULTOS

Publicado no 'blogdofilipemoura' em 05/10/2012   Estava planejando dar sequência ao tema anterior, mas alguma coisa está acontecendo por cá, o que me fez mudar de assunto. Convido o bravo companheiro a se retirar, pois a prosa do momento poderá aborrecê-lo bastante. Portanto, tchau!   Já que me encontro só, sinto-me à vontade para dar uma esvaziada em minha peçonha e aproveito para atacar as incultas massas pela sua voluntária (e talvez providencial) burrice. Ser pobre quase nunca é opção, mas a estultícia chega a ser uma vocação. “Por que o escriba se incomoda tanto com seus pares?”, teria perguntado o recém-despedido leitor. Explico.   Pobre é pobre, rico é rico. Desde que o homem desceu da árvore e a sociedade foi se organizando, essa diferença se faz cada vez mais intensa. Aliás, é falacioso o termo “sociedade”, assim no singular. Nós não vivemos em “uma sociedade”, pelo simples fato de ela não ser única. Poderíamos dizer que vivemos em “sociedades”. Há,  grosso   modo , du...

AFETAÇÃO

Era madrugada e me preparava para escrever este texto quando um esbarrão involuntário derramou o chimarrão por sobre o notebook, fazendo uma senhora lambança. Desanimei com a crônica, tentei limpar o teclado, mas algumas teclas ficaram desobedientes.   Estava pensando nas relações humanas, na amizade. Um familiar, a quem muito considero, disse não saber ao certo o significado de ‘amizade’, e que talvez nem tenha amigos. “Sabe, eu acho que não tenho amigo!”. Disse isso, acrescentando que os laços devem ser reforçados prioritariamente dentro da família. “Mas, há pessoas que não têm família...”, provoquei. Uma gargalhada na outra ponta da linha encerrou o assunto.   Mas, o que é amizade? Há virtude em cultivá-la? A amizade é necessária, mas ninguém se torna virtuoso por ter muitos amigos. Cristo disse: “Amai vossos inimigos!” – não ‘vossos amigos’.  Essa impactante frase pode ser contraposta a outra, também do Mestre, de igual contundência: “Não deem pérolas aos porcos!” Sou constantement...

ESCOLA PARA QUÊ?

Além de inteligente, fina, ela é uma aluna muito aplicada. Dia desses, me interrompeu com uma pergunta: “Professor, sem querer ser grosseira, para que vai servir isso que você está ensinando? De prático, em que vou poder usar na minha vida, por exemplo?”   De uns tempos para cá, é muito comum o aluno questionar os porquês de se aprender determinado conteúdo. Quando era estudante e não conseguindo entender um tópico de álgebra, procurei o professor em particular e perguntei educadamente para que serviria aquilo. Ele, “muito gentil”, respondeu: “Primeiro você aprende isso, depois pergunte para que serve”. Fiquei tão embriagado de satisfação, que saí sem lhe agradecer.   Muitos “educadores” – uma gente à toa, que não dá aula, mas passa a vida inventando coisas e publicando bobagens – costumam afirmar que o professor deve contextualizar tudo o que ensina para que o aluno seja estimulado a aprender. Concordo. Mas aquela gentalha vai adiante: “Se o aluno não sabe onde vai usar o que aprendeu...

ELES VENCERAM

Já fui repreendido mais de uma vez por ‘politicar’ este espaço, mas não me emendo e cá estou novamente a resmungar. Peço desculpas aos amigos que me aturam, porque a amizade deve estar muito acima da ideologia, da consanguinidade e de qualquer credo ou rabugice. “Quem encontra um amigo, encontra um tesouro”, diz o Eclesiástico. Eu tenho alguns amigos, poucos, mas o suficiente para minha despesa, que não é das maiores. Há quem tenha muitos amigos, talvez centenas deles – ou “um milhão”, como pretendia Roberto Carlos, que não é amigo de ninguém. Inimigos não tenho, penso eu, mas vai saber... Já Dilma Vanda Rousseff tem inimigos em número e importância muito maiores do que os que eventualmente eu tenha. Mas Dilma encontrou seu ‘tesouro’ na figura de Kátia Abreu, que lhe “garante forte proteção”, conforme afirma o mesmo Eclesiástico. Precisamos aprender com Dilma e Kátia o significado disso!   Não quero falar sobre as causas do impeachment e, no momento, pouco me importam os seus porquês. ...

A OLIMPÍADA DE ALINE

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 Artigo encaminhado ao jornal "A Tribuna de Amparo"   Aline estava de volta à “Luiz Leite”, uma escola pública onde estudou da quinta série ao terceiro colegial. Como convidada, falava de sua trajetória para uma pequena plateia de jovens como ela, que sonha com uma vida melhor e um mundo mais justo. De família humilde, Aline quis quebrar o paradigma da perpetuação da pobreza, típica de uma sociedade capitalista e cruel como a nossa. Para isso, teve que estudar, enfrentar dificuldades, transpor barreiras e amassar com pés e mãos o barro que emoldura o triunfo dos fortes.   Terminado o Ensino Médio, Aline entrou num cursinho pré-vestibular, que ela mesma pagava com seu pequeno salário de ajudante de manicure. Sem tempo de sair, de se divertir, a sua rotina se resumia ao serviço, estudos e nada mais. Prestou vestibular ao final do ano, mas não conseguiu passar. Com apoio dos pais, parou de trabalhar para se dedicar exclusivamente aos estudos preparatórios, intensificando ainda m...

DIA DOS PAIS

Publicado originalmente em 05/08/2011 no 'blogdofilipemoura.com'   O sol já se põe. Após algumas baforadas no cigarro de palha, ele se recolhe ao seu quartinho.  Pega do bolso o  vospic  – um velho isqueiro dos tempos em que trabalhava na roça e o único bem de que se pode dizer seu – e o coloca junto ao cigarro sobre a mesinha, na qual descansa uma pequenina madona de resina.  Ao lado, há uma cama vazia. Seu companheiro de solidão ainda não veio. Deve estar no banheiro, porque de uns tempos para cá, uma incontinência os faz levantar diversas vezes à noite para urinar. Às vezes, não dá tempo de chegar ao mictório;  por vezes, nem se dão conta da urgência e a coisa se mistura ao sono, molhando seus sonhos.   Mas seu Sebastião – esse é o nome do primeiro – quer dormir logo, pois amanhã seu filho deverá aparecer.  Desde que chegou ali, não se recorda de quantas vezes o filho veio: se duas ou três. Mas se bem se lembra, a última foi por ocasião do dia dos pais. Então, quem sabe ele...

PRA QUE CHORAR?...

De filipemouralima@gmail.com para casacivil@presidencia.gov.br     Andei pesquisando e não encontrei a informação de que tanto preciso: Com quantos anos, em que cargo e com que salário se aposentou o ministro Eliseu Padilha? Ficaria muito agradecido se o próprio me informasse. FILIPE        Fui ignorado pelo ministro-chefe da Casa Civil a quem ousei mandar o e-mail acima, mas isso não me surpreendeu. O que me assombrou foi a súbita indignação de uma boa alma, até então muito crédula da ‘nova ordem’ que se instalou no país.   “Quanto tempo falta para você se aposentar?” –  perguntei àquela mulher, uma velha conhecida. “ Tô contando nos dedos. Pra mim, faltam cinco anos... Cruz-credo, num aguento mais esperar!” “É, mas talvez falte mais tempo...” “Como assim, mais tempo?!...” “O novo governo vai mexer no tempo de contribuição.” “Mas, pros novos, né?... Pra nóis , os véio , num mexe mais não.” “Querem aumentar em quarenta por cento o tempo de contribuição para todos. Assim, você ter...

UM GLADIADOR

Publicado originalmente no ' blogdofilipemoura ' em 03/02/2012   O rapaz é inteligente, divertido e dono de um humor picante, quase cáustico. Apaixonado por futebol, gosta também de um carteado. Quando joga é para ganhar mesmo, não importa se o adversário é experiente ou um neófito – uma criança, por exemplo. E ai de quem o enfrenta no baralho... Ou leva uma surra ou terá de se submeter às suas reclamações sem fim, num repentino mau humor.   Esse homem – a quem chamo de rapaz, mas que já está casa dos quarenta (quase cinquenta!) – parece ter nascido com muita sorte. Mostra-se habilidoso em qualquer modalidade, seja esportiva ou intelectual. Na infância, por ser troncudo, aterrorizava a molecada com seus poderosos punhos. Quando provocado perguntava: “Quer um murro, quer?” – Claro que ninguém queria e isso já era suficiente para dissuadir os mais intrépidos. Sorte de seus irmãos menores que, tendo-o por perto, tinha um serviço de pronto-atendimento contra os moleques malfeitore...

TROCANDO OS ÓCULOS

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  “Escuta aqui, a armação destes óculos é de titânio, então por que quebrou tão facilmente? Olha que tenho muito cuidado...” “Deixa eu ver...”, disse o rapaz, deixando o celular e pegando meus óculos. “Ah, mas tá meio velha, não?! Tá oxidada, desgastada..., quando é que você fez?” “Há uns cinco anos.” “ Vixe ! Tem que trocar mesmo. Já tá velha pra caramba!” “Imagina... Por que velha, se deveria durar muito mais?...” “É o seguinte...”, ele disse pegando meus óculos, soprando as lentes e passando um papel higiênico (argh!). “Óculos não são eternos e se não quebrassem, as óticas fechariam!” “Mas, não assim tão depressa..., com sete anos de uso!” “O quê!? Sete anos?! É pra durar só dois anos!” “Nada disso. Meus primeiros óculos duraram dezessete anos, e esta armação é de titânio, de titânio!” Agora a besta fingiu que não ouviu e ficou ciscando na vitrine, com a parte amputada de meus óculos na mão. Ele não sabe o que é uma ‘liga de titânio’. Ignora ser material top, utilizado em naves esp...

O HOMENZINHO IMPERTINENTE

Postado originalmente em 26/08/2011 no “blogdofilipemoura”   Quase sempre chega atrasado. Apressado, com o boné numa das mãos, olhando para os lados e com um meio sorriso naturalmente esculpido, aquele homenzinho toma assento num dos bancos da capela. Busca sempre o mesmo lugar e caso já tenha alguém ali – não importa quem, nem quantos –, o problema é de quem chegou antes. Ele vai se enfiando entre um e outro: empurra o primeiro, o segundo, e o terceiro escapa furioso. Já sentado, seu boné ainda está na mão e será preciso acomodá-lo ao lado. Portanto, alguém mais terá que se espirrar dali.   Ninguém se move. Enquanto isso, o sacerdote continua a celebração, a assembleia entoa cantos e faz as preces. Mas o intrépido senhor não desiste. Está decidido que seu boné terá que ficar ‘sentado’ ao seu lado e dará um jeito nisso. Impaciente, gesticula-se batendo levemente os pés no genuflexório. Não sendo isso suficiente, começa a fazer uns ruídos. A ausência de dentes lhe possibilita produzir a...

FRUTA MADURA

Cá estou outra vez na varanda de meu pai. A lamparina continua com sua chama trêmula, desconfiada.  Num papel de pizza , acompanhado do chimarrão – como na outra crônica –, rabisco minhas impressões nesta fria madrugada (doze graus, aponta o termômetro), mais tarde, transcritas para a tela. Enquanto isso, papai e mamãe continuam “embalados por Morfeu”.   Cheguei há poucos dias, encontrando mamãe alegrosa e com saúde; e papai também saudável e proseiro . É muita graça ver os pais octogenários, gozando saúde, felizes. Aqui em casa, isso é segredo, as idades dos onze filhos, se enfileiradas, ultrapassariam quinhentos anos de história e encontrariam Cabral com as naus do Descobrimento! É, estamos ficando todos velhinhos e continuamos agasalhados pelos pais... Ah, a mamãe tá uma gracinha, de tão fofa. Dia desses, pela manhã, liguei o aparelhinho de som de meu pai para que ela ouvisse. Pus Tonico e Tinoco cantando “Cabelo de Trança” e, sabendo que ela gosta dessa música, observei seus olhos...

NOITES JUNINAS

Ainda pequeno, tinha eu uns sete anos, papai nos levou a uma festinha – que eu não sabia ser junina. O festeiro, seu Antônio Inácio, morava numa velha casinha de pau-a-pique, que ficava próxima ao local do ranchinho onde costumo fazer a sesta nas tardes de minhas férias.   Chegamos à noitinha. No terreiro, um alto mastro de madeira exibia uma estampa de Santo Antônio, o patrono do folguedo. Ao lado, toras cruzadas crepitavam ao sabor das chamas, aquecendo aquela noite de junho. Não havia lua; havendo, fora ela ofuscada pela fogueira e por nós ignorada. Havia chaleiras de café e muita batata doce, que púnhamos nas cinzas que iam se formando. Broa de fubá também havia, mas preferi as batatas, que eu mesmo cobria com cinzas e depois as tirava fumegantes. Havia também uma sanfona ‘8 baixos’, que seu Antônio tocava.   Lá pelas tantas, meu pai consultou seu velho relógio de bolso e disse: “Vamos embora, que já é meia-noite!”  Um deslumbramento: nunca eu ficara acordado até meia-noite! Seu An...

O HOMEM DO BIRIL

Publicado no blogdofilipemoura.com em 16/09/2011   Chegara à tardinha. Tocou a campainha e, ao ser atendido, pôs-se a falar de seus problemas, que não eram poucos. E assim, de forma bastante ensaiada, começou: “Escuta aqui, seu moço. Você não quer morrer, não é?” Sobrevivendo a esse tipo de pergunta, que pode matar qualquer um de susto, respondi que não. E ele continuou: “Eu não vou mentir. Deus me livre de mentiras!”  Disse e ergueu os olhos para mim, para ter certeza de que eu lhe dava atenção e o merecido crédito. Então, prosseguiu: “Tomo remédios e o posto me dá oito tipos, mas tem um que ele não dá. E se eu não tomar esse remédio, moço, eu vou morrer! E eu não quero morrer... Você tá me compreendendo?” Essa última frase foi como uma pinça, capaz de remover qualquer pedrisco que insistisse em obstruir a boa ação, que se seguiria a tão pungente apelo.   Confiante, fitava-me e estava certo de que o samaritano que encontrara poderia ser o bom moço de quem tanto precisava. De minha par...

A GAMELEIRA

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Eu a descobri garbosa e poucos sabem de sua existência ou por ela não se importam. Cresceu silenciosa, como crescem as árvores, e sua copa já alcança as alturas – uma enormidade. Lembra uma catedral gótica, quando observada a partir de seu tronco repleto de nervuras. Antes, disputava fiapos de sol com a vizinhança galhuda e folhosa; hoje, reina soberba por sobre a ramagem. Balançando ao vento, seus galhos, feito longos e encurvados braços, parecem desdenhar de mim e dos arbustos – uma insignificância rasteira cá embaixo. Brotando de sua base, sinuosas e robustas raízes se estendem pelo solo como serpentes em fuga.   Quando criança, tinha medo das gameleiras, pois diziam serem elas mal-assombradas. Havia uma dessas, um pouco distante de nossa casa, enorme, gigantesca! Crescera em meio a um rochedo com reentrâncias cavernosas, onde urubus nidificam. Morreu prematuramente, ainda uma ‘jovem’ centenária, e dela restou o caule desprovido de galhos, semelhante a um gigantesco braço nu erguido...

CARTA AO POETA

Texto encaminhado ao jornal "A Tribuna" de Amparo, em réplica a um artigo.   Caro Marcelo Henrique. Ainda que um poeta não precise de conselhos, atrevo-me a lhe dizer que um ‘imortal’ da poesia e da prosa deveria se preservar da cólera verborrágica que nos acomete, os reles mortais.   Em seu texto intitulado “Em busca do equilíbrio” e publicado na última edição deste semanário, você diz, entre outras coisas, que “o PT é um cadáver insepulto, fede muito e verte chorume”, que “as centrais sindicais e o MST são, em sua quase totalidade, uma horda de baderneiros” e que “a UNE continua sendo um nicho de comunistas”! Bom, para quem prega o “equilíbrio”, conforme sugere o título do artigo, seu autor parece estar um pouco desequilibrado. Não se deve lançar à geena inocentes almas misturadas aos desalmados, que se encontram também em outras plagas.   Quanto ao alvo de sua verrina, o PT, posso afirmar que não se trata apenas de uma estrela ou uma sigla, mas um partido político com ins...

MALEDICÊNCIAS

“... e não serei maledicente.  Só por hoje!”   Há tempos, colei essa frase na porta do armário na escola onde trabalho. A intenção era guardar-me desse malfeito que assola a humanidade desde seus primórdios. Mas parece que aquele papel descorou não pelo tempo, mas pela vergonha de mim. Continuo dando conta da vida alheia, e deixando a minha vida tão necessitada de cuidados.   Não me consta que Moisés tenha recebido, na “Tábua das Leis”, um mandamento que proibisse sua tribo de maldizer o próximo. Mas Cristo disse nos evangelhos: “Raça de víboras, como podes dizer boas coisas sendo mau? No dia do Juízo, pelas tuas palavras serás justificado ou condenado!” Ah, o Mestre sabia o que estava falando, porque aquele povo do templo devia ter uma língua devastadora!   O vício da maledicência é de difícil tratamento. Não passa um só dia, faça chuva, sol, calor ou frio, sem que este impenitente “escriba” cometa a impudicícia de caluniar alguém. E olha que eu me esforço... Desde a minha infância, j...

BOM-DIA

Cumprimentar as pessoas faz parte do ofício de quem é, ao menos razoavelmente, educado. Ainda que desprovido de beleza e parco de inteligência, pode-se arrumar na vida sendo simpático, porque o sorriso é um infalível abre-portas. Talvez pelo fato de não ser belo nem inteligente, conservo esse velho costume, apesar de eu não ter me “arrumado na vida”.   Um bom dia sempre começa com um bom-dia, diz o ditado. Por isso, costumo cumprimentar as pessoas que encontro, mas nem sempre sou correspondido. Nas minhas caminhadas, que normalmente faço lendo um pedaço de jornal, fico atento a quem cruzo. Aproximando, tiro os olhos do jornal e fixo na figura. Se o fulano (ou fulana) despistar, olhando para o lado, já sei: não quer ser cumprimentado e continuo a leitura. De vez em quando, passo perto de uma senhora, que me ignora inteiro. Noutros tempos, tentei cumprimentá-la, mas ela colheu o meu bom-dia virando a cara com um resmungo, atirando ao longe a minha saudação.  Ela não quer que eu a cumprim...

A CAPELA DOS HOMENS PRETOS

Numa praça do Centro Velho de São Paulo, há uma monumental escultura intitulada “Mãe Preta”. Distraída entre pombos e mendigos, uma negra dá de mamar a um bebezinho branco e gorducho.  A escultura evoca o tempo em que os filhos das sinhás eram amamentados pelas pretas escravas. Um pouco ao lado, está a capela da Irmandade dos Homens Pretos de São Paulo .    Erguida por negros em trabalho voluntário há um século, essa capela sucedeu a outra que fora construída pelos escravos no começo do século dezoito e, pouco depois, demolida, num criminoso projeto de urbanização da cidade. Seu interior é simples e acolhedor. Nas laterais, entre um Bom Jesus e várias  madonas , uma rica iconografia negra se impõe, destacando-se as imagens dos santos etíopes Elesbão e Ifigênia. Santa Bakhita, acompanhada de São Benedito e outros, está majestosamente instalada logo na entrada. Mais à frente, à esquerda, encontra-se Santo Antônio Categeró, outro negro e escravo. E assim, em cada canto e em cada altar há ...