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Mostrando postagens de abril, 2014

DESENGANO

Passava das cinco da tarde quando ela chegou. Estava cansada, arfante. Perguntou-lhe por onde andava. “Espera um pouco”, disse ela com dificuldade para falar. Sentou-se num banco de madeira e aceitou um copo d’água fresca. Ela pegou o copo, bebeu um gole e o devolveu com um semissorriso. As coisas pareciam meio complicadas para o casal, e, de uns dias para cá, ela sempre saía para fazer algo que ele ignorava. Houve uns tempos em que sua escapada era pela manhã; agora saía à tarde, bem de tardinha.   Quando menina, costumava ir ao armazém do seu Chico com a irmã mais velha para  comprar  uns doces. Não era bem “doce” o nome que se dava àquela iguaria feita quase que exclusivamente de açúcar e corante. Chamavam aquilo de bala-de-bico e havia nas mais variadas cores: caramelo, vermelha, amarela, laranja, verde etc. Conquanto não variasse o aroma nem o sabor, ela gostava das verdinhas; e quando não as  encontrava  costumava embirrar, recusando-se a voltar para casa. A irmã não lhe era muit...

CORPO FECHADO

Estava disposto a postar um texto menos sóbrio, debochado até, mas não me pareceu conveniente num dia como este. A Sexta-Feira Santa já foi, na devoção popular, o mais santo dos dias santificados. As mulheres não varriam casa, crianças não podiam gritar, os homens faziam jejum e não se falavam palavrões. Bem diferente de hoje, pois até os botecos, que naquele tempo ficavam fechados, estão cheios de gente tomando cachaça e comendo torresmo. Também há, por estas bandas, um estranho evento denominado “Fecha-corpo”. Multidões se dirigem a um alambique para tomar a tradicional pinguinha com poderes de dar proteção ao “devoto” ao longo do ano, desde que tomada nesta sexta-feira da Paixão. Não se sabe se, além do corpo, a tal pinga protege a alma, mas a fila é longa. Quase tão longa quanto a famosa procissão que, na tarde deste dia, soleniza a Paixão.   Particularmente, não costumo acompanhar procissões. Incomoda-me tanto a multidão como a lentidão de seus passos. Prefiro ficar ensimesmado no...

DOIS JOSÉS

Um José é aposentado e tem mais de oitenta anos. Gosta de  jogar  cartas, de escrever, ler e de navegar na internet. O outro José também é aposentado. Tem menos de oitenta anos.   Um José levanta bem cedo, trata dos animaizinhos, faz seu café e suas orações e dá uma volta no quintal à procura das saúvas que costumam devorar suas plantinhas.   O outro José levanta cedo.   Um José gosta de passear. Costuma visitar um parente, um  amigo  ou alguém doente. Anda mais de uma légua até a igreja para não perder os dominicais ritos sagrados.  Embora goste de caminhar, não dispensa a garupa de uma moto.   O outro José gostaria de passear, de visitar um amigo ou parente, mas...   Um José não costuma receber ordens; se as recebe, refuta-as ou as ignora. Conhece bem a vida e costuma dar lições aos mais  jovens  de como vivê-la. Está sempre solícito para atender alguém; e quando chega um amigo ou conhecido, este não sai sem um punhadinho de prosa e um golinho de café.   O outro José recebe ordens...

PETROBRÁS

Não me sinto autorizado a dar palpites na vida política de meu país, seja pela minha crônica ignorância ou pela ignorância de minhas crônicas. Mas, como na democracia o direito mais palpável é o de resmungar, continuo resmungão. O agastado leitor, se ainda o tenho por aqui, poderá se descansar de mim. Sua página do facebook o espera novidadeira e é pra lá que deve ir, pois aqui é só pedreira e não pretendo ser breve.   Nos últimos dias a nação foi assaltada pela notícia de que Dilma Rousseff autorizara a compra de uma refinaria americana por preço aviltante, fato acontecido há seis longos anos. A aquisição foi homologada pelo Conselho de Administração da Petrobrás por ela presidido. Para este estulto que vos fala, se é verdadeira a história, falta-lhe um pedaço. Por exemplo:   1) Por que não divulgaram esse escândalo em 2008? Não, eu sei que não tem nada a ver com o favoritismo de Dilma nas eleições de outubro deste ano, mas por que somente agora?   2) Como em qualquer conselho as deci...