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Mostrando postagens de agosto, 2014

TELEFONEMAS

Publicado no"blogdofilipemoura.com", em 09/08/2013 O  telefone  tocou e vi que era ele. Estava indignado, muito bravo. Falava comigo com a mesma fúria que usaria contra um desafeto. A conversa começou mais ou menos assim: “Ô cara, vê se pode uma coisa dessas... Aquela gente da Globo tá dominando a visita do papa, e isso não pode acontecer não, uai! Você não viu? Até a Ana Maria Braga tá lá, vestida de santinha, pra receber o papa! E não é só ela não. O pessoal da novela tá tudo lá também. Cruz credo! E é gente de vida errada. Muita gente ali já casou, descasou, tem filho com todo mundo, mas tá lá que nem anjinho!”   O menino falava sem parar, como se eu fosse o culpado de tudo aquilo.  Logo eu, que nem estava vendo TV  por aqueles dias... Então tentei redarguir: “Mas... é só não ver TV! Eu não vejo novela, não ligo na Globo...” Mas o moleque não me deixava falar. Só ele falava e eu teria de ouvi-lo naquele momento de angústia por que passava. Queria e exigia uma solução para ...

REFLETINDO

Não apresento aqui uma contribuição às ciências humanas, mesmo porque este autor que ora vos agasta não tem suficientes letras para se arvorar de intelectual. Mas, pensando sobre as voltas, reviravoltas e cambalhotas que o mundo dá, cheguei à conclusão de que os antropólogos, sociólogos e demais estudiosos do comportamento humano – e os há às montanhas – estão nos devendo alguns porquês sobre nosso comportamento.   É sabido que as pessoas comportam-se mais ou menos conforme determina seu líder. Já os liderados, muitas vezes, nem têm noção de como são conduzidos; o líder, noutras vezes, nem mesmo se vê como condutor.   Baseando-se nessa breve assertiva, pode-se entender melhor o (mau) comportamento de determinadas pessoas ou grupos. Isso se verifica em gangues travestidas de torcidas organizadas, em determinadas famílias e, principalmente, nas seitas religiosas. Estas têm sido muito comuns e se proliferam feito sauveiro após as primeiras chuvas.   O líder de uma seita é conhecido e vene...

DONA MARIA

Publicado no extinto "blogdofilipemoura" em maio de 2011.   Vivera para além dos noventa anos, e os últimos cinco apartada da família e dos amigos. Mas não era infeliz e gostava de prosear. Tivera alguns filhos, mas um deles se fora há alguns anos. A morte trágica do filho deixara-lhe profundas marcas. Ao visitá-la, de longe e já me reconhecendo, exclamava comovida: “Ah, o meu filho que Deus mandou pra mim. Perdi um, mas Deus me deu outro!” – brincava. Chegando, sentava-me ao seu lado e ela, por sua vez, pegando-me uma das mãos, lamentava a morte prematura daquele por ela gerado. “Marido morre, a gente arranja outro, mas filho... não tem jeito, não dá pra arrumar outro. Você se lembra dele?” – sempre me fazia essa pergunta ao final de sua máxima, ao que eu respondia: “Não me lembro dele, porque não cheguei a conhecê-lo”. Ela me parecia ainda mais triste com  a resposta, mas logo um sorriso brotava e se punha a falar de outras coisas.   Assim que ingressara naquela casa – volu...

NATAL

Amara dona Palmira por meses, anos talvez, mas um dia os anjos levaram-na. E por tempos, Natal acabrunhara-se, ficando sentado num banquinho e tendo por companhia apenas o cigarro. Seu luto demorava passar, até que chegou dona Maria e pôs fim àquela tristeza toda.   Duas mulheres distintas: a primeira, baixinha, vaidosa e já octogenária, disfarçava os anos à custa de grossas camadas de ruge e batom. Usava vistosos vestidos de cores fortes, em tons que variavam do vermelho ao alaranjado, e também brincos e colares, mais parecendo uma cigana. A segunda era de uma estética mais discreta. Somente de vez em quando punha seus esmaltes e alguma maquiagem leve. Não obstante a diferença entre as duas, Natal as amou platônica e intensamente. E o fez bem à sua maneira, cada qual no seu tempo e sem duplicidade.   Certa feita, Natal ficando gravemente enfermo teve que se submeter a procedimento que envolvia uma engenhoca com mangueira e agulha espetada no pulso. Ficou nervoso com aquela parafernáli...

UMA VISITA

Publicado originalmente no "blogdofilipemoura.com", em 23/08/2013   O apartamento, como sempre, estava limpo e perfumado. Sobre a mesa, uma gamela de madeira com varias frutas: maçãs, pêssegos, bananas. No espaldar da cadeira, uma toalha de banho; um pouco além, próximo à cama, um par de chinelos. Um caderno aberto exibia uma caneta e um pequeno bilhete. “Amigo, fique à vontade. Este espaço é seu. A erva-mate está na geladeira. Amanhã, após a missa, darei uma passada por aqui.” Assinou.   Abri as cortinas e divisei no horizonte uma última estrela que ainda brilhava naquela madrugadinha de julho. Fazia frio e na calçada oposta da avenida estava um amontoado de cobertores, sob os quais haveria uma ou duas pessoas. Um pequeno cão ficava de guarda enquanto seu protegido dormia o sono dos desabrigados, ou dos embriagados, quem sabe.   Uma estante repleta de obras machadianas e de outros clássicos estava ali: dadivosa oferenda ao  visitante . Mas os pés dentro das botinas, dolorido...