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Mostrando postagens de 2022

RÉVEILLON

Estamos na virada do ano de 2022 para 2023. O momento – a que todos dão o “sofisticado” nome de ‘réveillon’ e lhe atribuem tamanha importância – para mim, e os três cães que estão aos meus pés, não faz o menor sentido. Nós quatro – Pituka, Tiziu, Tokinho e eu – achamos que esta é uma noite como todas as demais, com a diferença de que hoje haverá uma rajada de rojões perturbando a nossa paz e a de tantos – incluindo nessa conta os outros cães, gatos, passarinhos e pessoas com deficiência.   Agora, neste exato momento, os três estão dormindo tranquilamente. Daqui a pouco, lamentavelmente, eles serão atormentados com as explosões pirotécnicas sem nenhuma razão de acontecer. Uma insanidade.   O ano que termina foi marcante na minha vida. Nesse período, tive duas grandes e sofridas perdas; todavia, não posso negar que tive também algumas importantes conquistas. Aconteceram, contudo, rupturas tristemente necessárias; no entanto, laços importantes foram restaurados ou reforçados. De fato, o a...

FIM DE UM CICLO

Enfim, sem pesar, encerro meus dias como professor. Digo sem ‘pesar’ e sem ‘pesar’ – seja esse ‘pesar’ verbo ou substantivo. Explico.   Dia desses, na sala dos professores –  que não é bem uma sala, mas um palco, e essa parte vai sem explicação –, eu disse aos colegas que ali estavam: “Estou saindo sem pesar com ‘s’ e sem pesar com ‘z’. ‘Pesar’ no sentido de ‘medir’ os prós e os contras, e ‘ pezar’ no sentido de lamento ou tristeza”.   Mal acabara de dizer essas palavras, pude perceber que uns pares de olhos me fitavam aflitos. Sem entender o porquê, supus que fosse devido à homofonia das palavras que usei com pretensa criatividade, mas não. Bem depois pude perceber que toda aquela perplexidade foi causada por minha ignorância vocabular. Não existe PEZAR no vocabulário oficial da língua portuguesa. Existe, sim, PESAR, seja verbo ou substantivo e com significados bem distintos.   Essa não foi a única deslizada deste professor perante os pares. Ainda há pouco tempo, fazendo chacota do n...

PREDADORES NO WHATSAPP

Dias atrás, enquanto eu tentava escrever sobre o natalício de meu pai, uma mensagem no WhatsApp mudou meu foco. No canto inferior direito do computador, minha filha me perguntava se eu tinha um tempinho para atendê-la. Claro que eu tinha e mudei a tela para as mensagens do zap-zap , que brotavam céleres.   Há tempos, talvez um mês, eu soube que o celular de minha filha havia quebrado, embora ele continuasse sendo usado. Contudo, certo dia “ela” me mandou mensagem, dizendo que agora passaria a usar outro aparelho enquanto aquele seria consertado. A partir de então, ela se comunicaria comigo por outro número e achei razoável que isso pudesse acontecer, não me ocorrendo que o chip poderia ter sido transferido para o novo aparelho sem qualquer transtorno.   Bom, naquele dia interrompi a crônica sobre o papai e passei a trocar mensagens com “minha filha”, que precisava urgentemente pagar uma conta, mas com esse celular ela estava sem acesso à sua conta bancária. E disse mais: tão logo o apa...

AUSÊNCIA

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Papai faria 92 anos neste 20 de novembro. Descobri cedo que ele gostava muito de seu aniversário. Mas descobri tarde que ele gostava de festejar o aniversário com bolo. Nos últimos anos, quando o irmão mais velho não lhe levava um bolo, papai mesmo dava um jeito. Mais de uma vez aconteceu de haver dois bolos no aniversário do papai: o dele e o do Mano Véio. Uma fartura!   Também tarde descobri que papai gostava muito de doces e de queijo. Antigamente a vida não permitia “luxos”, e na geladeira de meu pai não havia dessas iguarias. Mais antigamente ainda, na casa de meu pai nem geladeira havia. Nos últimos tempos, porém, papai tinha queijos e doces à farta numa espaçosa geladeira. Quando lhe batia vontade de comer um naco de queijo com goiabada, não importava se o almoço estava quase pronto ou se era noite alta. Papai ia à cozinha, abria a geladeira, pegava o que queria, sentava-se e se fartava como um rei.   Certa vez, papai me pediu para fazer um arroz doce. “Tô com muita vontade de c...

ELEIÇÕES À ANTIGA

Sempre me vem à memória uma lembrança muito antiga, que é de quando meu pai e minha mãe vestiam suas melhores roupas para votar. Curioso, eu perguntava ao papai o que é ‘votar’. Ele me explicava, dizendo que era um direito e um dever do cidadão etc. Eu, sem saber o significado do substantivo ‘cidadão, desisti também do verbo ‘votar’.   A eleição acontecia festivamente em Córrego Preto, um bairro rural de minha cidade. O nome oficial do logradouro é ‘Vilas Boas’, mas, por razões bastante particulares, prefiro o nome antigo.  Ou ainda, como os velhos camponeses de antanho, costumo me referir carinhosamente àquele arraial como Corgo Preto .   Depois de crescido, comecei a entender mais ou menos como funciona a tal “votação” com a qual papai muito se entusiasmava. Descobri que na nossa região havia dois ‘partidos’: o ‘PR’, tendo como chefe o Zezito Marta, e o ‘PSD’, de Antônio Arruda. Lá em casa, todos éramos “Zezito”; já na casa de meu avô paterno, todos eram “Antônio Arruda”. Havia certa...

PERDENDO A PACIÊNCIA

“Só tem uma utilidade o pobre neste país: votar. É título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso.”   A frase acima foi dita pelo então deputado federal Jair Bolsonaro na Tribuna da Câmara em novembro de 2013. E tem mais. No ano de 2000 ele foi ‘o único parlamentar’, dentre os 513 deputados federais, a votar contra o ‘Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza’, projeto do governo de Fernando Henrique Cardoso. Todas essas informações são do jornalista Bernardo Mello Franco em ‘Conversa de Política’, um podcast da CBN.   Escrevo este texto pensando em alguns professores bem específicos. Sabendo que esses “professores” pouco ou nada leem, e muito menos leriam este humilde blog, reservo-lhes apenas o último parágrafo, que já é uma significativa honraria para alguém tão insignificante.   Desanimado, quase desisti da ideia de atualizar este blog. Aliás, após doze anos publicando regularmente, tenho pensado na hipótese de parar. Não sei mais o que pensar nem escrever sobre o abismo em q...

DE VOLTA À SALA DE AULA

Eu não queria retornar. Aborrecia-me a ideia de desempregar colegas que estavam me substituindo. E não foi fácil adentrar aquele prédio para lecionar depois de longa ausência. Chegando lá, assinei o livro-ponto e fui para a sala de aula, porque sempre gosto de chegar antes e fazer uma breve meditação. Recebo os alunos, que chegam normalmente em grupinhos de três ou quatro, com celular e fone de ouvido. Quase todos me cumprimentam e cada um vai para sua carteira. Alguns expressam cansaço, uns parecem eufóricos e outros são enigmáticos.   Começo a aula com um pequeno exercício, uma equação ou algo assim. Há alunos que olham para a lousa com curiosidade, e outros com indisfarçável enfado. Observo que em muitas carteiras os cadernos continuam fechados e alguns dedos deslizam freneticamente sobre a película do celular – apesar da mensagem na lousa em letras tremidas: “guarda teu celular!”   A aula flui, mas não rende. Lá atrás, dois ou três rapazes conversam animadamente enquanto uma mocinh...

MENTE BAGUNÇADA

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“Aquele que não conhece sua história está condenado a repeti-la”   Deixo para comentar a frase acima no final do texto, porque agora estou muito ocupado com minha mesa tão bagunçada, como confuso também estão meus miolos e seus parcos neurônios entrelaçados e preguiçosos. Tão preguiçosos e irresponsáveis como este computador, que fez desaparecer o texto digitado de manhã. Ele, que sempre salvou automaticamente, dessa vez me traiu.   Faz tempos que estou aguardando minha sofrida aposentadoria no conforto do lar, onde passo o tempo lendo, cuidando de meus vira-latas, fazendo pequenos serviços com madeira. Também resolvi fazer uma horta onde plantei alguns pezinhos de almeirão. Só almeirão, porque nada mais consigo produzir. A couve, o jacu devora; alface não prospera; cebolinha dá pulgão; rúcula tem ferrugem branca. Mas, para quem não tem muito jeito de hortelão, que pelo menos plante e colha almeirão. E é isso que faço com relativo êxito.   E eis que o tempo passou, minha aposentadoria ...

CHATEAÇÕES

Começo a escrever este texto na "sala vip" da viação Cometa, no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo. Daqui a pouco, por obra do acaso (ou do descaso), embarco para Juiz de Fora. Tenho rodado bastante ultimamente, e essas viagens têm me causado algumas alegrias e variados aborrecimentos. Hoje, quero falar de perrengues, porque dizem que a vida sem um pouco de tédio não tem muita graça. Todavia, se assim for, prefiro uma vida nada engraçada, mas sem tédio. Xô, inhaca! Não sei por quê, mas quando saí de casa para pegar o primeiro dos três ônibus, que comporiam meu périplo, eu estava sem máscara. E é meu costume sair com aquele trapo charmoso na fuça. Chegando à rodoviária e sabendo da obrigatoriedade, procurei a máscara nas minhas tralhas, revirando a mochila e nada! Eu sabia que tinha posto uma dezena delas junto às minhas roupas. Como não encontrava, pedi ao motorista que me deixasse embarcar e lá dentro eu a acharia com calma. Ele me disse um 'não' com tanta fo...

DESARMAI-VOS!

De pequeno, eu já sonhava com uma arma. Comecei com arco e flecha feito de bambu, depois evoluí para canivete, faquinha de ponta, espingarda e... Parei na espingarda, interrompendo uma trajetória que teria me levado a uma cobiçadíssima ‘garrucha calibre 22’.   Meu primeiro canivete foi um presente de meu pai quando completei dez anos. Lembro bem do dia em que meu irmão mais velho e eu fomos à cidade com o dinheiro dado pelo Velho, que seria a conta de pagar o presente. Era um domingo de verão com céu nublado e chão molhado. Após caminhar por mais de hora numa estrada barrenta, chegamos à vendinha do Jurandir, em Guiricema, e compramos os canivetes. O meu irmão escolheu um com cabo branco e o meu tinha o cabo em tons escuros.  Aquele foi um dia de grande contentamento para mim, porque com um canivete no bolso eu passei a me sentir um homem-feito. Naquele tempo era assim mesmo. O passaporte masculino para a idade adulta era uma pequena arma ou cigarros.    A história da espingarda foi di...

DIA DOS PAIS

Dia desses, conversando sobre meu velho pai e as dificuldades por que passamos ao longo da vida, observei que papai plantou abundantemente, cultivou com esmero e nos deixou fartura. Graças a ele, eu disse, temos hoje generosa colheita. “Sim, devemos colher, mas não podemos esquecer de semear também”, ouvi e concordei dizendo que vamos colher as espigas, debulhá-las e semear os grãos!   Metáforas à parte, papai deixou um rico legado de trabalho, honestidade e desprendimento. Em mais remota memória, vejo meu pai lavrador: cultivando roças de milho, arroz e feijão; pedreiro: assentando tijolos, tirando nível e prumo; carapina: lavrando madeira com enxó, plaina e formão; enfermeiro: aplicando injeções, enfaixando braço quebrado (o meu); professor: lecionando, alfabetizando vizinhos e filhos; rezador: rezando terço em velórios e promovendo reuniões para oração na redondeza.   Esse era meu pai: um homem de oração e de ação, mas não só. Papai vivia sempre apertado financeiramente. Adoentado, ...

FOFOQUEIROS

Concordo com o amigo: fofoca é um problema sem solução.   Estava para mais de dois anos que eu não o via. A última vez que nos encontramos foi antes da pandemia. Apavorado com a moléstia que se alastrava, refugiei-me num arrabalde bem afastado do burburinho da cidade e não mais me encontrei com o amigo. Dia desses precisei ir à casa dele e lá cheguei no meio do dia. Apertei a campainha e esperei por largo tempo, talvez uns dois ou três minutos. Ele, um “animal noturno e solitário”, foi despertado em horas inoportunas, e isso deve tê-lo aborrecido bastante. Assomou-se à porta, lançando-me um olhar sonolento e nada amistoso, mal respondendo ao meu bom-dia. Perguntei como ele estava, se seus pais estavam bem etc. –  essas perguntas corriqueiras e desimportantes que são feitas por gente educada ou, no meu caso, sem assunto.   O amigo apenas disse que estão todos bem, e não foi além disso. Depois ficou estacado como uma fera acuada, fixando-me uns olhos cansados e entediados. Permaneceu no ...

A BENGALA

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São três horas da manhã e perdi o sono. Estou na cama que foi de meu pai, ao lado da cama da minha mãe. Mamãe  também está acordada.   Na parede do corredor que dá acesso à cozinha, outra fiel companheirinha  do papai também parece não dormir, esperando pela  volta dele. Ali, ela permanece quieta e em silêncio, sem saber ou fingindo desconhecer que há idas sem vindas.   Foi nesta cama, às duas da madrugada, que certo dia meu pai me chamou. Isso aconteceu há pouco mais de três meses. Insone e em crise respiratória, papai me pediu socorro. Ele me acordou e ligou para a minha irmã logo em seguida. Levantei, cheguei no quarto e ele ainda falava com a filha: "Preciso de ajuda!" Pela primeira vez na vida, dei bronca no meu pai: "Se estou aqui, por que foi acordar a menina?!".    Não,  não se deve repreender os pais, principalmente um pai como aquele que tive. Eu ainda pensava nisso quando ele me olhou com olhos tristes e aflitos, dizendo: "Eu não estou conseguindo re...

ESQUENTANDO O FRIO

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  Faz frio. Meus cães não reclamam, mas tremem. Peguei umas madeiras velhas, podres até, e pus no fogão. Eles ficaram me observando, curiosos, cada um no seu cantinho. Acendi o fogo. Parece que gostaram, embora a Pituka, incomodada com a fumaça, pedisse para sair. Então abri uma fresta na janela e a fumaça se dispersou. A cozinha ficou quentinha e meus três cãezinhos: Tokinho, Tiziu e Pituka puderam dormir em paz. Mas o que dizer sobre os milhares de pessoas nas calçadas de pequenas, médias e grandes cidades?...   Este é o Tokinho    Esta é a Pituka  E este é o Tiziu    FILIPE

PESADELO

Eu estava num campo de pastagem e mata, numa região montanhosa, acompanhado de um irmão e uma moça, que não consigo lembrar quem. Em certo momento, sem que percebêssemos a tempo, um touro se desgarrou do rebanho e partiu em nossa direção. Sem saber o que fazer nem se haveria algo a ser feito, corri morro acima, deixando para trás o casal. O touro me escolheu, gostou de mim, e quanto mais eu corria, mais ele se aproximava, chegando a bafejar o vento quente de suas ventas nas minhas costas. A custo e extenuado, cheguei a um sítio e percorri sua cerca até uma abertura por onde entrei. O touro me seguiu, entrando logo atrás. Continuei minha carreira à beira da cerca de arame farpado, cujos fios extremamente esticados faziam-na intransponível. O touro continuava no meu encalço e eu já não tinha forças para escapar de suas guampas. De repente, vi num ponto da cerca um pequeno vão por onde passei para o outro lado, rolando no chão. Foi a conta de eu passar para que o marruá chegasse. Ele paro...

FILHOS REVERENTES

Eu estava numa rodoviária quando uma conversa me chamou a atenção. Na fileira de bancos atrás da que eu me encontrava, uma senhora falava com o filho numa chamada de vídeo. Soube que é ‘chamada de vídeo’ por que, curioso, espichei os olhos para trás e vi, em tela cheia, um rapaz de cabelo raspado nas laterais e barba por fazer. A conversa era mais ou menos esta: “Filho, não fale assim comigo. Sou sua mãe!” “Tô falando besteira?... Não tô. Tô falando na moral e você vem com esse mi-mi-mi.” A conversa continuava cada vez mais áspera. A mulher falava baixo, tentando ser discreta, mas o rapaz gritava, e ela parecia não saber usar o botão do aparelho para controlar o volume. Por último, quando ela se levantou para pegar o ônibus, que acabava de chegar, ainda pude ouvir: “Vocês, meus filhos, me tratam como se eu fosse sua irmã. Acho que nem irmã, mas uma qualquer. Nunca me ouvem com atenção e sempre me dão bronca. Eu não sou criança e estou cansada de levar zanga de filhos. Nunca falei assim...

RELEMBRANÇAS

Retornei à casa de meus pais, mas dessa vez não encontrei o Velho à porta da sala, na varanda de casa – a recorrente imagem num canto de minha memória, em registro da última vez que estive aqui. Todavia, encontrei mamãe, que, desde a despedida de papai, está falante e interativa, e não se sabe por quê.   Dias depois de minha chegada, numa manhã fria e ensolarada, repeti o último trajeto que fiz com papai numa ida à cidade. Caminhei até a estrada e esperei a van, que chegou dez minutos depois. Entrei e dei uma nota de dez ao motorista. Ele me devolveu três reais de troco, certamente lembrando da última vez quando papai pagou as duas passagens com uma nota de vinte e recebeu, como troco, três notas de dois. Caminhei até o fundo e me sentei sob olhares curiosos e alguns cochichos [esse aí é filho do Zelope...].   Abri o livro que levava comigo, mas não consegui me concentrar na leitura. Passados poucos minutos e depois de muitos solavancos, já estava eu desembarcando na praça da cidade.  ...

CONVERSA COM A PITUKA

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Estou aqui, sofrendo para atualizar o blog. Na minha companhia está a Pituka, que parece curiosa para saber o que escrevo. Viro para ela e falo que a “coisa tá preta”. Ela me olha desconfiada de que a coisa não esteja tão preta assim. Afinal não lhe falta água, ração nem carinho – e tudo isso ela tem de montão.   Não, Pituka. Você não sabe de nada. As coisas estão muito ruins, sim. Temos um sicário na Presidência, que quer dar o golpe e interromper nossa frágil democracia; muitos de nossos parlamentares são venais; alguns procuradores, não poucos, são tíbios; e os magistrados, uma boa parte deles, são ineptos.   A Pituka levantou-se, deu uma volta em torno de si, deitou novamente e bocejou.   Ah, entendi. Você até concorda que as coisas não estão bem, né Pituka?... Você sabe quem é o presidente, mas não sabe o que é ‘sicário’. Eu explico. O dicionário dá como sinônimo de sicário: assassino contratado, pistoleiro, malfeitor. Agora que a Pituka já sabe o que é sicário, acho que ela quer...

A DESPEDIDA DE PAPAI

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“Meu pai estava muito doente, deitado numa cama, e me chamou para pedir água. Eu trouxe o copo e ele se ajeitou, sentando-se apoiado à cabeceira, e bebeu todo aquele copo d’água.”   A imaginária cena acima, que me era recorrente desde há muitos anos, foi quase uma antevisão da derradeira vez em que estive com meu pai. Nesse nosso último encontro, aquela cena veio real, e com tintas surrealmente fortes. Papai estava no leito de uma UTI com cateter de oxigênio, monitores cardíacos e outros apetrechos. Naquele momento doloroso eu estava amparado pela companhia de um irmão, o Freizinho. Estávamos para viajar naquela noite e passamos no hospital para despedir de nosso bom velho – uma cortesia da equipe gestora da UTI, que nos permitiu entrar fora do horário de visitas.   Entramos e percebemos que o quadro de nosso pai se agravara consideravelmente. Fizemos uma oração acompanhada por ele em silêncio e de mãos postas. Falamos sobre a mamãe, dizendo que ela, já de alta daquele mesmo hospital, ...

JAMAIS ESQUECEREI

É manhã de sexta-feira e acabo de falar ao telefone com meu pai. “Estou muito agradecido a você por ter me internado, ele disse”, e continuou: “Desde a hora em que cheguei aqui, não tive nenhuma crise, nem tosse... nada! Estou muito bem.”   Essa passagem me evoca uma memória bem antiga. Volto-me à longínqua década de 1960, quando, há 54 anos, era papai quem me internava nesse hospital. Eu era um garoto que tinha seis anos, febre alta e um montão de bichos-de-pé. Tinha também mão inchada, pés putrefatos e um corpo vergado de dor.   Lembro perfeitamente do dia em que meu avô Sebastião veio a minha casa e me viu doente. Vovô decidiu pela minha internação, pegando-me e me levando ‘na cacunda’ até a estrada, onde esperamos a ambulância que me levaria a Visconde do Rio Branco. Papai me acompanhou até o São João Batista, onde fui internado – o mesmo hospital em que se encontra meu pai. Meu pai, não. Meus pais. Porque mamãe também está “hospedada” lá. Ele no 301 e ela no 202.   Surpreso com a ...

LEVANDO BRONCA

Pensava eu que os avançados anos me livrariam das recorrentes broncas recebidas ao longo da infância, juventude e até da maturidade, mas não. Semana passada fui repreendido por um sujeito, que parecia não ter razão. Ao serviço.   De vez em quando preciso dar uma tesourada na ‘’espessa cabeleira’’ de um pé de acerola que sombreia todo o quintal e costuma invadir o telhado vizinho. O arbusto já se tornou uma respeitável árvore e nele abriga um sem-número de pássaros dentre os quais, pardais, bem-te-vis, rolinhas etc. Subo numa escada apoiada em sua ramagem e vou aparando as pontas com um alicate de poda. Preciso ser cauteloso porque a escada pode falsear, provocando minha queda, e há entre as folhagens algumas rolinhas aninhadas, às quais não posso causar danos.    Cortada toda a galhada, com uma corda de varal amarro um grande feixe e levo para um local distante, à beira do rio. Sempre fiz esse serviço aos domingos, quando o trânsito é calmo, quase inexistente. Dessa vez, porém, decidi ...

A GUERRA

Ninguém me pediu opinião sobre a guerra que acontece lá pelas bandas da Europa. Se nada me foi perguntado é por que todos já dominam o assunto, ou por que minha opinião não tem valor algum. Ainda assim, ouso expressar meu ponto de vista sobre a insanidade que ocorre naquelas paragens.   O que mais impressiona é que os atores políticos querem tirar proveito da desgraceira que cai sobre os ucranianos. Muitos fazem projeções eleitorais em cima dos cadáveres produzidos por essa guerra bestial. Também no Brasil a esquerda disputa com a direita o butim da guerra. Por aqui há aqueles que se digladiam pela Rússia, e os que se matam pela Otan – todos uns boçais.   Vejo essa questão mais ou menos assim. Não conheço o Rio de Janeiro, mas sei que lá há bairros disputados por milicianos e traficantes. Um parêntese: é preciso dizer que milicianos e traficantes são feitos do mesmo “pó”.   Deixando “aquele pó” de lado e supondo que o solitário leitor more num bairro onde há disputa entre bandos, o raz...

NO TERMINAL RODOVIÁRIO

Cheguei com relativa folga à rodoviária de Sampa. O tempo me permitiu passar na ‘feirinha literária’, que é uma espécie de “quarto de despejo” de uma livraria. Ali há livros a preços bastante razoáveis. Com módicos 15 reais, por exemplo, compram-se clássicos da literatura brasileira. Sempre levo livros infantis para algum sobrinho e palavras cruzadas para meu pai. Dessa vez garimpei um calhamaço com 365 cruzadinhas por apenas 20 reais. Olhei mais alguma coisa e pedi desconto, mas era só para professor, que precisaria mostrar contracheque. Peguei as cruzadas e uns livrinhos, dentre eles um romance brasileiro do século dezenove, e, por não ter holerite, paguei a fatura cheia e saí.   Fui ao banheiro.  Havia muita gente lá. O piso molhado, escorregadio. Em cada ‘’cabine’’, alguém aliviava as tripas. Naquele momento eu me lembrei de um irmão que costuma dizer: “Se eu estiver no banheiro, não fale comigo. Nem adianta insistir. Pode me chamar, falar, perguntar o que quiser que eu não respond...

MEU PRIMEIRO ALUNO

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A imagem acima deverá ser a de minha última lousa. Eu quis fazer o registro porque nesse dia, quando se completavam exatos trinta anos de magistério, eu estava me despedindo dos alunos para uma licença bastante prolongada, e sem o propósito de retornar à sala de aula.   Certa vez escrevi neste blog, que um professor deveria se aposentar aos ‘cinquenta anos’ porque o docente, assim como a mortadela, tem data de validade. No meu caso, a coisa está ficando mais complicada porque já fiz ‘sessenta’!   A minha primeira experiência de professor se deu quando eu tinha dez anos de idade. Um tio, que era trabalhador rural e que estava para fazer dezoito anos, queria se mudar para a ‘cidade grande’ e tentar uma vida melhor na indústria. Para isso, ele teria que fazer um teste de conhecimentos que incluiria alguma operação matemática. Numa tarde,  ele apareceu na minha casa montado numa égua e me pediu para lhe dar umas “aulas”. Meu pai consentiu e ele me pôs na garupa do animal, que foi trotando ...

SOBRE SACOS E ANDARILHOS

Quando menino, eu tinha um primo-avô paterno que, para onde quer que fosse, levava consigo um saco às costas. Lembro bem daquela figura: andar cambaio, chapelão de palha, botas, porrete numa das mãos, e na boca um pequeno graveto. Eu nunca soube o que havia dentro daquele saco nem onde aquele senhor morava. Acho que ele nem tinha casa. No entanto, falavam que tinha muito dinheiro e que seus ‘cobres’ estavam todos naquele saco. Outros já diziam que ele carregava apenas bugigangas e que sua fortuna fora confiada a um abastado sitiante de quem esperava, como recompensa, a mão de uma das filhas. Como o devedor tinha três filhas moças, todas lindas e solteiras – e para meu parente, que não tinha luxo, qualquer uma serviria –, suas chances deveriam ser bastante razoáveis. Todavia, a ‘sorte grande’ não o contemplou. O tempo passou e o velho primo, cada vez mais velho, morreu solteiro.   Na minha casa também havia alguns sacos onde púnhamos mantimentos como milho, feijão, fubá, amendoim etc., ...

DONA CELISA

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  Dona Celisa foi uma das pessoas mais incríveis com quem convivi ao longo desta vida, que já se alonga. Quando a conheci, ela era uma “jovem octogenária”, que conservava o viço da mulher culta e elegante que sempre fora. Sua companhia era leve, suave, quase imperceptível. À noite, aquela mulher nunca se recolhia aos seus aposentos sem antes nos dar um boa-noite; pela manhã, ao se levantar, o bom-dia era tão certo quanto uma prece matinal.   Dona Celisa gostava de café. No começo de sua enfermidade, eu lhe dava o “pretinho” ainda na cama. Ela se sentava, pegava a xícara e, após um pequeno gole, dizia: “Tá gostoso!”   Paulista, dona Celisa mais parecia uma mineira.  O jeito de receber visitas, de prosear e o café oferecido a quem chegasse davam-lhe um ar de mineiridade. Muitas vezes, enquanto sua filha dava aulas de pintura lá no rancho, ela pegava o pote de pó, uma vasilha com água e me olhava sem dizer nada. Então eu sabia que era para fazer o café. Mas não era só café. Ela também peg...