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Mostrando postagens de 2015

UM SACRAMENTINO

Ele chegou leve, suave, como uma brisa. E com essa mesma leveza, permaneceu conosco por algumas horas. Veio para ouvir. Poucas são as pessoas com essa disposição e este irmão parece ter nascido para isto: dar atenção, escutar. Com certeza ele tem suas aflições, mas as retém consigo, sem que alguém lhe ofereça ao menos uma orelha para que fale.   Encontrei-me com ele de manhã, amável como sempre. Levei-o à minha escola e depois o conduzi até a casa. E me pareceu que sua única curiosidade seria a de conhecer o ranchinho, onde costumo me esconder para rabiscar minhas inquietações – como “Minhas Manhãs”, recentemente postada neste blog. Mas pareceu-me decepcionado com a aceroleira. Talvez a imaginasse grande e frondosa, mas o que se viu não passa de um arbusto. O suficiente, no entanto, para compor um retalho de natureza em estado bruto, com tronco, musgos, folhagens e asas. É essa paisagem que desanuvia as retinas e embala os delírios deste cronista insípido. Conheceu também a matilha da ...

O SEMEADOR

“Eu sou o semeador Vou semeando a Palavra do Senhor”   A estrofe acima é de “O Semeador”, uma das inúmeras composições de Luiz Gonzaga de Souza, o Luizinho Cristiano, que nos deixou recentemente.   Luizinho foi um importante personagem na minha história, quando da passagem da infância para adolescência. Naquele tempo, em Vilas Boas, distrito da pequena e amável Guiricema, meu pai liderou um movimento de evangelização promovendo umas tais “reuniões de equipe”. O nosso grupo era formado pelos moradores do “Córrego dos Lopes” e se estendia para além do tal “córrego”, alcançando o “Cabo Frio”, no alto da montanha, onde morava meu tio-avô Sebastião de Moura. Às vezes íamos até a “Lambança”, comunidade onde morava a família Soriano. Nossos encontros eram nas noites de quinta-feira ou nas tardes de domingo, quando se reuniam dezenas de pessoas para orações, leitura do Evangelho, café com broa e muita música. O Luizinho, com seu violão, era o principal animador. Havia outros músicos, mas este...

NAS GERAIS

Estava com saudade de minas gerais (com minúsculas, porque somos íntimos) e do sotaque daquela gente. Quis ver Minas com seus mineiros e seus minérios, sem mineradoras. Quis ir lá, quis olhar para suas montanhas e nutrir-me de toda aquela mineiridade. Quis rever meus pais.   No ônibus, ao embarcar, já pude sentir um pouco do que buscava. Umas pessoas conversavam sobre esta e outra viagem que fariam. “Preciso ir a “Sansdumon” visitar minha afilhada. Faz tempos que não vou praquês lado”, disse uma. O outro, que não iria a Santos Dumont, dizia não ver a hora de chegar a “Viscon Ribranco”, onde comeria “franconquiabo” e angu. Depois, esticaria até a casa de seu compadre, em Coimbra, lá no alto da serra.   Do terminal do Tietê, em São Paulo, parti com destino a Visconde do Rio Branco. Estava ansioso por chegar a Guiricema. Havia tempos que não via meus pais e queria sentir o cheiro de barro, de mato molhado; queria andar por aqueles pastos e respirar ar puro. Do meu lado sentou-se um simpát...

A ESCOLA É PARA...

Recentemente a Folha de São Paulo trouxe um artigo intitulado “Reprovados em Matemática”. Apoiado numa pesquisa com público acima de 25 anos, feita em várias cidades do país e realizada por um importante instituto, o texto, assinado pelo professor gaúcho Flávio Comim, despeja uma avalanche de números desconcertantes.  Segundo o autor, um terço dos entrevistados não sabe multiplicar, 75% não compreendem frações, mais de 60% não sabem lidar com porcentagem e mais da metade não consegue fazer um bolo. Isso mesmo, 59% dos entrevistados não sabem trabalhar com uma receita de bolo, quando é preciso reduzir ou aumentar proporcionalmente seus ingredientes. Os números continuam, mas eu paro por aqui para não agastar o esquivo leitor.   O artigo do professor Comim desperta os brios de quem lida com ensino, particularmente dos professores de Matemática. Mas o problema é muito mais complexo do que se supõe. As políticas educacionais – notadamente do estado de São Paulo com a implementação da “prog...

O CAPIM, A VACA E O HOMEM

Queria começar este ensaio citando números e fontes para impressionar o solitário leitor, passando-lhe a impressão de que estou bem informado. Se bem que tentei, confesso, mas não consegui. Havia guardado um recorte de jornal com uma gama de informações a respeito do tema de hoje, mas não o encontrei. Também estou com preguiça de buscar na ‘net’. Mas você verá, bravo companheiro, que os dados não lhe farão falta. Como também não lhe fará falta este texto que ora rabisco.   A população envelhece velozmente, mas parece – e isso me é cada vez mais evidente – que não nos importamos com o futuro dos futuros velhos que seremos, ou somos. Educamos nossas crianças somente para a felicidade, como se a tristeza, a frustração, a dor fossem uma anomalia da natureza. Algo que deva ser extirpado do cotidiano para que possamos ter uma juventude ainda mais feliz. Mas o que se vê por aí (e por aqui também), não passa de uma massa idiotamente hedonista, incapaz de tomar decisões, nem de se libertar da r...

SEU MIGUEL

Publicado originalmente no 'blogdofilipemoura.com', em 16/03/2012   Completou 90 anos e diz que não quer viver mais. “Vivi muito e este ano eu quero morrer”. Disse isso, porém, traído por um sorriso no final da frase, deu a entender que não é bem assim. Seu Miguel quer viver mais e, se aguentar, mais 90 anos!    Não se sabe ao certo quanto tempo seu Miguel está internado naquela casa: se 10, 15 ou 20 anos. Quem sabe são os funcionários que cuidam da papelada. Mas ali, quem cuida de papéis não cuida de pessoas. Quem informa alguma coisa a seu respeito é um companheiro. Este afirma, sem segredo, que seu Miguel tem um filho. E que esse filho apareceu somente no dia em que “sepultara” o pai naquele "jazigo" de velhos, que pedem para morrer.   Passa Vinte, de onde veio seu Miguel, é um lugarejo não muito distante. De carro, meia hora; a pé, não há como. Principalmente para quem já é nonagenário – não é, seu Miguel? Pois o grande sonho deste homem é visitar sua terra. Ele s...

NEURAS

Tá horrível a coisa aqui. Um calor insuportável, um vizinho escroto com uma bateria dos infernos e eu tentando atualizar meu blog. Se na calmaria da madrugada já não consigo grandes feitos, imagine agora, na aridez desta tarde calorenta e acrescida dos decibéis de alguém sem noção de civilidade... Mas vou tentar. Quem sabe, na companhia de uma sinfonia de Mozart, eu consiga sublimar o purgatório que me sufoca o espírito e me entorpece a alma?...   Aumento o volume do aparelho, o violino geme enquanto vou cofiando os neurônios a procura de algo. Penso que hoje, sendo feriado, facilitaria. Mas não. Amanhã, se alguém acessar o blog, ficará espantado com tanta baboseira de quem se diz professor. Calma! Professor é assim mesmo e você já teve muitos. Todos são neuróticos, não suportam barulho, nem mesmo o de uma caneta sobre a carteira. Principalmente quando a Fulana insiste no batuque, embalde os pedidos clementes para que pare, ao que responde: “Eu não consigo parar!”. Consegue.  Posta par...

MINHAS BRANDONICES

NOTA : Publicado originalmente no blogdofilipemoura, em 20/04/2012   Brandonice . Essa palavra não existe nos dicionários. Existe apenas no meu léxico, pois fui eu quem a inventei. Sua história é longa, mas devo abreviá-la para não cansar a solitária leitora ou leitor.   Nos tempos em que ginásios eram escolas, frequentei um. Alguns frequentavam-no para aprender aritmética, gramática, ciências e outros saberes; outros compareciam às aulas parecendo ter como único objetivo o de ser reprovado. E naquele tempo, as reprovações eram terrivelmente abundantes!   Na hora do recreio, formava-se uma fila para comprar merenda. Os  ricos compravam refrigerante e salgadinho – uma tal meia-lua, que um dia tive a glória de experimentar; a classe média comprava pão doce e um tal qui - suco ; nós, da classe baixa , disfarçávamos engolindo saliva mesmo. Alguns estavam tão famélicos, que costumavam percorrer o pátio a pedir um pedacinho de pão. Lembro-me de um moleque que fez uma farta colheita, junto...

DESAMPARO

Artigo encaminhado ao jornal "A Tribuna", edição de hoje.   A oitocentista Amparo, que foi palco de grandes acontecimentos como os movimentos abolicionista e republicano em fins do século XIX, do embate entre constitucionalistas paulistas e as tropas federais de Getúlio em 1932, e até do Congresso Eucarístico de 1944 além de outras efemérides, está cada vez mais reduzida à memória. A Amparo que hoje se vê não passa de um borrão perante a que fora num passado distante. A rica arquitetura com soberbos casarões, as ruas arborizadas, as calçadas de paralelepípedos, os postes de iluminação, o Teatro João Caetano, os cinemas, tudo isso tornou-se apenas uma fotografia desbotada de uma Amparo outrora pujante. Quando ouço Caetano Veloso cantar “da força da grana que ergue e destrói coisas belas” – verso de sua antológica “Sampa” – penso em Amparo. Alguém ergueu esta monumental cidade para, tempos depois, ser espoliada por uma elite avara que, tal como o mitológico Midas, quer transfor...

MINHAS MANHÃS

O dia nasce prazenteiro. No pé de acerola, a passarada festeja numa babel em que todos, como os mineirinhos, falam ao mesmo tempo e assim se entendem. Eu, que entendo os mineiros, não compreendo nada do que dizem os passarinhos. São os mais variados bicos, idiomas e plumagens. Há também um casal de pombinhas silvestres querendo nidificar nessa árvore. Estes não têm capricho e seu ninho não passa de um amontoado de gravetos. Mas como são belas as juritis! Bebo cada gota desta manhã, que mal começa e já envelhece. Uma brisa sopra levemente, levando com ela minha manhã e a minha inspiração. Ainda há pouco era noite escura.   ***   Passaram alguns dias desde o início desta crônica. As pombinhas já fizeram o ninho e uma delas está sempre em repouso. Neste momento vejo o casal: ele cofia as penas, enquanto a companheira continua aninhada e vigilante. Um pássaro de outra espécie vem xeretar, mas não há conflito entre eles. De tão amistosos, parecem velhos compadres. Os nubentes talvez não dee...

O ESCOLHIDO

Publicado originalmente no "blogdofilipemoura" em 21/09/2012   A tarde começava seca, poeirenta e, mesmo sendo inverno, fazia calor. De súbito, um charreteiro puxando pelo cabresto seu cavalo, que por sua vez puxava uma charrete abarrotada de tralhas, chegava. Trazia consigo umas sacolas com algo semelhante a macarrão, pães e outras miudezas. Algumas dessas sacolas estavam penduradas nas ferragens; outras, porém, jaziam sobre a “mercadoria” que inspirou este texto.    O homem, dono da charrete, do cavalo, das tralhas e de tudo o que transportava, é um senhor já com o bico da botina na terceira idade, mas com fumos de juventude. Quem o conhece, sabe de suas vaidades e preferências juvenis. Mas, é outro o objetivo deste escrito. Pouparei o leitor dessas descrições e me abstenho de falar da vida alheia.   “Toma, menino... Carne! Não quer levar pra você?” Mal acabou de dizer tais palavras, foi arrancando de dentro de sua charrete uns ossos ensanguentados e os atirou a uma matilha...

PAINEL DA FOLHA

PAINEL DO LEITOR DA FOLHA DE S. PAULO  (texto integral)   26/08  Em relação à carta do leitor Alessandro Alves de Souza (Painel do Leitor, 25/8), a Secretaria da Educação do Estado esclarece que valorizar a educação é prioridade. Hoje, 98,7% dos alunos com sete anos já sabem ler e escrever, um ano a menos do que a meta nacional. Índices como o Idesp mostram avanços em todos os ciclos de ensino. Nos Anos Iniciais, o crescimento é de 20,2% na comparação entre 2010 e 2014. A política de valorização ainda garante aos docentes oportunidade de evolução funcional como a valorização pelo mérito, que permite reajustes anuais de 10,5% e pagamento de bônus por desempenho. Valéria Nani , assessora de imprensa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (São Paulo, SP)   28/08 Não é verdadeira a informação dada por Valéria Nani , da Secretaria de Educação de São Paulo, de que os professores paulistas têm "reajuste anual, por mérito, de 10,5%". A prova, que dá acesso a tal promoçã...

DA UTILIDADE DE UM VARAL

Publicado no blogdofilipemoura em 02/11/2012   “Homens, amem suas mulheres, mas não se esqueçam: façam para elas um bom varal. Aliás, um não, mas quantos varais elas pedirem. E os façam bem resistentes, de modo que suportem uma boa carga de roupa molhada. Ainda: não usem, jamais, cordas de nylon. Estas se ressecam com o tempo e, arrebentando-se, arrebentam com a paz no relacionamento!”. Esse deveria ser um preceito para todos os homens que querem conservar o sorriso da amada durante toda a vida conjugal. Desconfio que um bom varal seja o sonho de consumo de muitas prendadas damas e, se não suficiente, necessário para sustentar a harmonia entre casais que dele faz uso diariamente. Essa cordinha mágica une mais do que duas paredes. Une corações e ainda suporta algo bem mais do que as roupas molhadas; suporta, talvez, o peso do relacionamento. Resumindo, penso não haver casal completamente feliz sem um bom varal.   Eu, particularmente, não sou afeito apenas a varais. Considero igualmente ...

O AMIGO INDIGNADO

Por tempos não o via. Ao encontrá-lo, quis falar sobre tudo, conforme nosso velho costume: religião, família, música, o tempo etc. Uma conversa de sempre, amena, com os semblantes serenos.  Mas, desta vez, o assunto começou com ‘política’, e adeus serenidade! De cenho franzido, ele foi logo dizendo: “Não entendi, não pode ser. O que você vê na Dilma para defendê-la assim tão radicalmente?” Eu queria responder, mas ele não permitiu que o interrompesse. Quis continuar, completar seu arrazoado. “Aqui, eu não vejo jornal na Globo. Assisto ao jornal da Bandeirantes e lá há pessoas sérias, mas só apontam sujeiras. O que esse PT faz e o que essa Dilma tem feito...  Até onde vai esse trem, sô? Eu queria que você fosse sensato e não ficasse assim, defendendo essa gente.” “Mas, a mídia domina tudo!...” Tentei, mas fui interrompido e resignei-me a ouvir o amigo indignado. “E tem mais. Você, eu me lembro, sempre defendeu o MST, que só invade e destrói. O que esse pessoal fez de bom até agora? Nada...

SEM PALAVRAS

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  “Não tenho palavras para descrever um momento tão belo!”   A frase acima deu título a uma série de imagens das Bodas de Diamante de meus pais postadas por uma irmã em sua página do “feice”. Não, não há mesmo palavras que deem conta disso. Comemorar ‘sessenta anos de comunhão conjugal’ não é para muitos. Os obstáculos vão desde causas naturais, como falecimento, a sociais e culturais, que resultam em separações.   Capítulo à parte, a cerimônia religiosa foi conduzida por sete sacerdotes, dentre eles, três (!) são filhos do casal. A capela de S. José, o Patrono da Família, ficou lotada, com gente de várias partes do país; alguns percorreram mais de mil quilômetros, apenas para participar desse evento. Havia parentes próximos e distantes; e amigos, muitos amigos.    Fato raro, que também deve ser registrado, foi a reunião dos “Moura Lima”. Em trinta e cinco anos, desde o nascimento do caçula, esta foi apenas a terceira vez em que se fizeram presentes os treze: papai, mamãe, agora de bir...

AO DOM CIPOLLINI

NOTA: Este texto foi enviado para o jornal "A Tribuna" de Amparo, edição de hoje.   Prezado Dom Pedro Carlos Cipollini, em diversas ocasiões ocupei este espaço para lhe fazer cobranças, mas nunca para ressaltar os seus muitos acertos à frente da diocese de Amparo. E por outras tantas, dirigi-me ao senhor através de e-mails, às vezes hostis, confesso. Mas no seu silêncio, com certeza, rezava por mim e pelo seu ministério.   Certa feita, o senhor me convidou para uma conversa. Fui àquele encontro como quem caminha para o “sinédrio”, devo admitir. Aquela não poderia ser uma prosa de compadres. Estávamos em trincheiras opostas e a artilharia prometia ser pesada. Chegando à Cúria, um amável pastor recebeu sua “cabeçuda” ovelha – conforme se referiu a mim em tom amistoso – e conversamos por um tempo relativamente longo, a julgar pelos inúmeros compromissos de um bispo diocesano. Naquela oportunidade, pude me inteirar dos grandes problemas existentes num episcopado, alguns praticame...

MEU AVÔ SEBASTIÃO

NOTA: Este texto está no novo livro de meu pai.   Sebastião Lopes de Lima, conhecido por Bastião Lope , viveu relativamente pouco, pois falecera aos setenta e, aparentemente, com boa saúde. Desses setenta anos de vida, seguramente sessenta foram de trabalho duro, sem férias, folgando apenas aos domingos e olhe lá... Num sábado, véspera de sua morte, trabalhara até à tardezinha roçando um pastinho onde ficava o Queimado, seu cavalo de cela e charrete. Morrera a caminho da igreja, num domingo, onde assistiria a uma missa matinal.   Vovô Sebastião era famoso por ser homem trabalhador, bem-sucedido e “sistemático”. Muita gente se referia a ele com este adjetivo, não sei se em elogio ou crítica. Eu o admirava e até me esforçava para ser como ele: de poucas palavras, pouco riso, quase turrão, mas respeitado. No entanto, não consegui ser nada do que foi meu avô.   Madrugador, penso ser o vovô Sebastião o único homem que nunca fora despertado pelos raios solares. Quando o sol aparecia no hori...

OBSESSÃO

Dólar barato, real supervalorizado e exportações minguadas. Fora, Dilma! Dólar caro, real desvalorizado e nó nas importações. Fora, Dilma!   Governo desonera produtos de linha branca. Fora, Dilma! Governo cessa isenção de IPI para automóveis. Fora, Dilma!   Preços de mercadorias disparam. Fora, Dilma! Gôndolas abarrotadas e mercadores enricados. Fora, Dilma!   Crise hídrica no Nordeste e cheias na Bahia. Fora, Dilma! Seca no Sudeste e torneiras secas em São Paulo. Fora, Dilma!   Falta professor nas escolas municipais e estaduais. Fora, Dilma! O aluno não sabe ler e seu professor, escrever. Fora, Dilma!   TCU convoca presidente para explicar suas contas. Fora, Dilma! TCE paulista aprova contas do governador Alckmin em 90 minutos. Fora, Dilma!   O TCU tem desafetos políticos da presidente. Fora, Dilma! O TCE paulista é composto por aliados do governador. Fora, Dilma!   Presidente pedala sua bike no Alvorada. Fora, Dilma! Pedaladas fiscais são praticadas desde FHC. Fora, Dilma!   O HSBC f...

BODAS DIAMANTINAS

Papai está indo para os oitenta e cinco; mamãe, recentemente, completou setenta e seis; e em julho próximo, Deus querendo, eles hão de celebrar sessenta anos de casados.  Sessenta anos! Quase não acredito, mas é verdade. Meu Deus, como o tempo passou! Há pouco, bebês brotavam no quarto ao lado e ainda ouço choros cindindo as madrugadas, mas aplacados com o seio materno ou com o paterno mingau de fubá numa mamadeira.   Cena recorrente, aquela: a um tênue gemido se seguia um riscar de fósforos. Papai sempre deixava ao lado da cabeceira de sua cama uma lamparina e uma caixa de fósforos para essas e outras providências. Parece ontem, mas esta memória traz meio século de nossa história. Acesa a lamparina, papai se dirigia à cozinha para preparar, quando não o dito mingau de fubá – que era o menu principal de sua trezena prole –, um chá de erva-doce para aquele rebento chorão.   Nas minhas conversas com o Velho, costumo dizer: “Pai, nós, que já envelhecemos, sabemos que as coisas não funcion...

IDADE PENAL

Artigo publicado no jornal " A Tribuna " de Amparo     Tal como o articulista que me antecedeu neste espaço, também não sou candidato a nada, e ainda que candidatasse, com certeza não me elegeria. Escasso de talento e fraco de intelecto, reservo-me à triste alternativa de espectador da história. Embora eu assista atônito a esse turbilhão que nos redemoinha e tonteia, torço para que este planeta seja mais habitável e a humanidade mais sã. Além dessa torcida – que se faz vã, reconheço – acrescento alguns resmungos, igualmente vãos, como os que se seguem.   Desde o século passado, na atividade docente, lido com pessoas nos seus melhores anos: dos doze aos dezessete. É nessa faixa etária que cada um constrói (ou destrói) o mundo em que viverá. Nessa idade, é inevitável alguns arroubos, mas é preciso ter preparo para lidar com a situação, pois o universo do adolescente é meio complicado: cheio de mitos e medos. Natural que vivendo assim, tão assombrosamente, periga fazer besteira...

ABELHUDO

O Velho estava aperreado. “Coinfeito!”, dizia e repetia para mim e para si enquanto examinava a tela de seu computador. Não é bem isso que ele diz quando está bravo, mas é o que sempre entendi ao longo da vida em delicados e perigosos momentos como aquele. No seu vocabulário, “coinfeito” exprime aborrecimento com alguém que fez “arte” e merece apanhar.   Eu chegava do ranchinho, quando me deparei com o Mano Véio na varanda de casa. Havia chegado naquela tarde e já estava no computador do pai, animado e proseador, enquanto páginas eram abertas e fechadas freneticamente. O pai chegou devagar e o espiou à distância, desconfiado, esticando o pescoço para tentar ver algo na tela. Olhava para mim, para o computador, para o Mano, mas não disse palavra.  Quem falou algo foi o Mano, que deu umas explicações ao Velho. Aliás, este irmão gosta de explicar as coisas e costuma ser bem-informado mesmo – justiça lhe seja feita. Mas, parece que desta vez ele falhou.   “Pai, o computador está infectado ...