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Mostrando postagens de novembro, 2014

MISTÉRIOS DE MAMÃE

Meu pai está finalizando seu segundo livro, no qual destaca a história de minha mãe. De minha parte, embora eu ouse borrar esta tela com algumas palavras mal-ajambradas sobre ela, reconheço ser escassa minha competência para a empreitada. Prefiro, obviamente, não me estender sobre essa figura que é central em minha vida.   Mamãe esteve prostrada por muitos dias, semanas, devido a um de seus incontáveis ataques epiléticos. Caíra, ferindo-se e ficou paralisada por uma terrível dor que a obrigava a estar quase sempre deitada. Duas de minhas abnegadas irmãs, a mais velha e a caçula, cuidaram da mamãe durante aquele período cruciante.   Mas, quis a Providência Divina que mamãe se curasse de uma hora para outra, conforme conta meu pai. Certa feita, diz ele, ela se levantou de madrugadinha, foi para o banho, vestiu-se, perfumou-se e retomou sua rotina dirigindo-se ao alpendre para fazer suas orações.  Isso se deu no último 12 de outubro – dia dedicado à Padroeira.   Neste espaço – por respeit...

NO BAR

O homem surge das entranhas do boteco trazendo consigo um guardanapo, que é chacoalhado freneticamente contra uma mosca que teima em dar rasantes sobre um bife na chapa. Coloca o pano sobre o ombro, pega a espátula e começa a raspar ruidosamente a chapa. Empurra para um canto fragmentos de queijo, carne e coisas outras. Passa pra lá e pra cá a lâmina, que reluz, e dá umas viradas no bife, que começa a chiar. O pano, que serviu para afugentar a mosca, agora é usado para enxugar as mãos. Ainda com ele, dá uma passada no balcão, molha-o na torneira da pia e o passa novamente no granito, que brilha. “Deus amou a limpeza e eu gosto de tudo bem limpinho!”, diz com a convicção de quem acredita em Deus e na limpeza. Aquele pano, de cor indefinida, vai agora para o ombro enquanto pega uma cerveja no freezer para um cliente. Vira-se para mim, olhos miúdos, baixinho, atarracado – como diria meu pai –, suando bicas devido ao calor desta estação e com o acréscimo da chapa fumegante. Passa o pano pe...

PRETINHA

Ninguém sabe sua idade. Seu nome evoca sua cor, uma cor distante, que já não lhe corresponde, pois está um pouco ruça. Sabe-se, no entanto, que é bem velhinha.  Contudo, energia é que não lhe falta. É abrir o portão, que a fagueira cadelinha alcança a rua e ganha asas. Melhor ainda, quando há uma “matilha” composta por seu “tio”, sua “mãe” e por seu companheiro de ladrido.  Seu caminhar é bem peculiar. Vai de umas corridinhas rápidas, depois para, volta a correr, para e olha para trás buscando aprovação. Cheira aqui, fuça ali, conhece os hábitos da vizinhança e sabe em qual saco de lixo há o melhor petisco para aborrecimento de sua dona. Se sua ama e senhora demora chegar, lá está  Pretinha a postos em vigilante espera, deitada a meia distância da calçada. Se o portão estiver aberto, melhor. Pretinha fica atenta a todos e a quaisquer movimentos. Olha para a direita, olha para a esquerda. Também olha para cima, como se consultasse um relógio no firmamento. Qualquer ruído de motor des...