SEXAGENÁRIO
Hoje completo sessenta anos e de mim já se pode dizer em linguagem bíblica: “aquele senhor de muitos dias”. Se aos trinta anos alcança-se a ‘idade da razão’, aos sessenta, com ou sem razão, chega-se à ‘idade da libertação’. Livre, agora, da obrigação de ser polido com a aspereza e sensato com a malvadez, quero sorver com sofreguidão esses poucos dias que ainda me restam. Se a vida para o jovem requer coragem, para nós, os provectos, ela exige destemor e suavidade. Nesta crônica, tentarei a suavidade. É manhã e estou na varanda de uma simpática pousada na Serra da Mantiqueira e meus olhos alcançam as montanhas verdes e molhadas, todas cobertas de névoa. Não muito distante daqui, está a igreja matriz de Maria da Fé cujo pináculo perfura uma parte do nevoeiro. No posto, um pequeno trator estaciona para abastecer. Sobre ele há seis caboclos de chapéu e mochila, prontos para o trabalho rural – roçar, plantar, talvez colher. Sento-me com o notebook, deixo a cuia de chimarrão na sole...