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Mostrando postagens de dezembro, 2021

SEXAGENÁRIO

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Hoje completo sessenta anos e de mim já se pode dizer em linguagem bíblica: “aquele senhor de muitos dias”.   Se aos trinta anos alcança-se a ‘idade da razão’, aos sessenta, com ou sem razão, chega-se à ‘idade da libertação’. Livre, agora, da obrigação de ser polido com a aspereza e sensato com a malvadez, quero sorver com sofreguidão esses poucos dias que ainda me restam.   Se a vida para o jovem requer coragem, para nós, os provectos, ela exige destemor e suavidade. Nesta crônica, tentarei a suavidade.   É manhã e estou na varanda de uma simpática pousada na Serra da Mantiqueira e meus olhos alcançam as montanhas verdes e molhadas, todas cobertas de névoa. Não muito distante daqui, está a igreja matriz de Maria da Fé cujo pináculo perfura uma parte do nevoeiro. No posto, um pequeno trator estaciona para abastecer. Sobre ele há seis caboclos de chapéu  e mochila, prontos para o trabalho rural – roçar, plantar, talvez colher.   Sento-me com o notebook, deixo a cuia de chimarrão na sole...

TEREZINHA

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O ano era 1980; a cidade, Juiz de Fora. Eu havia me alistado para o serviço militar e fui convocado para servir numa unidade de cavalaria que ficava na região central daquela cidade. E foi nessa ocasião que conheci a Terezinha.   Tudo começou assim. No quartel, tive como chefe de seção o subtenente Lopes, a quem chamávamos carinhosamente de ‘Sub’. Este era um militar trabalhador, justo, cordial, e por quem eu me afeiçoei desde o início, mal sabendo ser ele o Zezinho,  esposo da “Terezinha da tia Áurea”.   Certo dia, o subtenente Lopes me chamou para acompanhá-lo num serviço que ele faria na cidade. A certo ponto, ele mandou o motorista estacionar a viatura, desceu e me convidou para acompanhá-lo. Em seguida, ele abriu um portão e, com um gesto, fez com que eu continuasse o acompanhando. Bom soldado que era, fui atrás dele. Então o ‘Sub’ afundou casa a dentro, e eu atrás... Já na cozinha, ele anunciou jubiloso à esposa a ‘chegada de um primo dela’. Era bem cedinho e a Terezinha estava a...

MINHA ÚLTIMA AVALIAÇÃO

Como faço desde o início da carreira, em dezembro dou um pedaço de papel a cada aluno para que avaliem meu trabalho. Recomendo que essa avaliação deva ser anônima a fim de que possam expressar mais livremente seus pontos de vista sobre meus inúmeros erros e possíveis acertos também.  O resultado, embora doloroso para mim, tem sido frutuoso, pois a partir dele, eu me esforço bastante para melhorar a atividade docente. De início, essa “enquete” era feita no último dia de aula, mas devido à debandada prematura dos alunos, tive que antecipá-la.   No entanto, engana-se quem pensa ser isso vaidade. De posse dos papeizinhos preenchidos, costumo abri-los apenas quando estamos encerrando a burocracia. No silêncio de uma sala de aula deserta é que eu costumava desdobrar os pequenos “bilhetes”. Ali eu me pegava ora maravilhado com demonstrações de afeto de uns, ora terrificado com a violência verbal de outros. Agora, se me faço vidraça, é por que deveria confiar numa blindagem – mas ela não exist...