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Mostrando postagens de dezembro, 2014

DE PASSAGEM

“Vamos fazer uns exames? Depois dos cinquenta é preciso monitorar a saúde. Então, vou listar os procedimentos que você deverá realizar para a próxima consulta”. Essas foram as palavras de um médico muito simpático, embora ele não seja cubano. Após a breve entrevista, estendeu-me o formulário seguido de um aperto de mão. “Até mais”, eu disse. “Até”, respondeu o doutor, economizando o ‘mais’.   Foi uma trabalheira danada para, finalmente, eu receber um calhamaço do laboratório com os resultados. Ao conferir um por um fui me animando, porque parecia que eu estava muito bem. Caso fosse um exame de vestibular ou concurso público, eu teria excelente média, com chance de passar entre os primeiros. Mas, há um ‘porém’: em termos de exames médicos, a ‘média’ não faz sentido algum. Você tem que “tira notas boas” em todas as “matérias”, pois não adianta ter colesterol de fazer inveja num atleta olímpico, mas taxa de glicemia pré - tumular .   Alguém aí já se deparou com a palavra “citratúria”?  Po...

O ADEUS DE NEGUINHA

Postado originalmente no "blogdofilipemoura.com", em 02/05/2013   Sua presença silenciosa e felpuda terminou. A cadelinha serelepe, que há um mês ciceroneava os enlutados visitantes pelas ruelas do cemitério, não mais existe. Foi lá que a encontrei por ocasião do sepultamento do pai de uma amiga. Durante aquele fúnebre cortejo, parecia ser ela a única “pessoa” a estar alegre. Enquanto todos caminhavam pensativos - talvez meditando sobre a particular tragédia que é o fim de cada um -, a cadelinha passeava por entre os passantes num corre-corre sem parar. Talvez nem estivesse assim tão feliz, visto que fora recentemente abandonada e, por certo, estando à procura de seu dono.   “O que não tem remédio, remediado está”, afirma um ditado meio  besta. Mas o remédio para aquela cadelinha foi a adoção. Aproximei-me dela fazendo algum gesto de bom amigo e ela deixou-se cativar por mim. Embalei-a nos braços e a conduzi ao novo lar.   Por alguns dias ela me pareceu saudável e feliz. Inte...

FASCISMO À VISTA

Todos são testemunhas de meu despreparo intelectual para falar de política, religião, história, até mesmo de lavoura. Se eu fosse ganhar a vida como hortelão, estaria, há anos, morando embaixo de uma árvore. A prova disso: plantei uns pés de couve, que antes me pareciam promissores, agora estão a me dar vergonha, tal o estado de penúria em que se encontram.   Para ser minimamente sensato, eu deveria ler e ouvir, apenas. Mas, eis que um teclado, pouco exigente, ostenta sua placidez e eu me atrevo a usá-lo. Portanto, seguem-se umas linhas impregnadas do nada que trago comigo, e do tudo que me atormenta neste momento.   A Comissão Nacional da Verdade acaba de apresentar seu relatório sobre os crimes da ditadura militar. Expôs uma coisa nojenta, tão fétida como a que se tornou conhecida há umas décadas: o dossiê “Brasil: Nunca Mais”. Esses crimes perpetrados pelos militares e por uma casta de civis já deveriam ser do conhecimento de todo brasileiro suficientemente alfabetizado. Mas não são...

O ADEUS DE PRETINHA

Publicado originalmente no "blogdofilipemoura" em 14/06/2013   Morreu Pretinha. A cadelinha que sempre , num misto de paciência e ansiedade, nos esperava; que alegremente nos recebia; que se entristecia com nossa ausência. Morreu idosa, doente, desdentada, mas não abandonada. Um tumor lhe invadiu as entranhas cegando-a, tirando-lhe a audição, tolhendo-lhe os movimentos e fazendo com que se locomovesse às apalpadelas.   Pretinha gostava de passear. Pela manhã, bem cedo, ela me convidava para uma breve caminhada. Ainda escuro, caminhávamos pelas ruas desertas, despidas de automóveis e de gente. Enquanto eu me dirigia ao Pai em minhas preces matinais, ela se entretinha com coisinhas, que só mesmo eles, os desambiciosos   cãezinhos, são capazes de valorizar. Num trote miúdo, dava breves paradas e olhadelas para trás para se certificar de minha presença. O rabinho balouçante, tal como uma batuta, parecia ditar o ritmo das passadas, vergando-se de um lado para o outro. Houve tempo...