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Mostrando postagens de 2020

O OGRO DO PLANALTO

A fila era maior nas manhãs de segunda-feira, quando havia cerca de uma dezena de “estropiados” aguardando atendimento na enfermaria da unidade militar de cavalaria – onde servi no ano de 1980. O médico era um tenente, mas o cabo Valadares é que tinha mais contato conosco e quem ministrava a famosa injeção de eucalipto, que servia para tudo e doía pra burro. Mas nem sempre sobrava serviço para o cabo Valadares, porque de vez em quando o subcomandante, um capitão paraquedista, aparecia subitamente e, vociferante, punha todos em posição de sentido. Depois de uma saraivada de impropérios, interpelava um por um: “Soldado, o que você tem?” “Estou com dor de cabeça.” “Isso não é nada. Pode descer! E você, o que sente?” “Tenho tontura” “Isso é ressaca. Pode descer também!” E assim, em um minuto ele esvaziava a enfermaria.   Eu trouxe esse fato aqui para mostrar como funciona a cabeça de alguns militares, que têm a hierarquia como dogma. Do ponto de vista ético, moral ou profissional, a autori...

A FAMÍLIA 'MOURA LIMA'

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Esta é a minha família e essa foto foi tirada no antigo terreiro da casa em que vivi a minha infância. Numa casinha de alvenaria e sem reboco que existia ali, minha mãe teve sete filhos, sendo que seis estão na foto e o outro partiu ainda na primeira infância. Lembro muito bem de cada nascimento, que enchia de júbilo a nossa casa.   Funcionava assim. Algumas vezes, sem que soubéssemos de nada, uma avó chegava à tardinha em casa e ficava para pernoitar. Eu achava estranho, porque minhas avós não tinham o costume de nos visitar. E ainda vindo para dormir?... Bem, minha avó chegava, se ajeitava numa esteira na sala e lá dormia. Nós também íamos para cama cedo, logo após o anoitecer, porque não tínhamos sequer rádio de pilha para nos entreter. Lá pelas tantas, não sei se meia-noite ou três da manhã, papai chegava ao nosso quarto e bradava: “Tem gente nova!” Acordávamos sem entender, mas tudo se esclarecia com o choro do recém-nascido. Então levantávamos e íamos até o quarto dos pais. Lá es...

PAPAI, AOS NOVENTA!

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ESTÓRIAS SOBRE GUARDA-CHUVAS

Entrado em anos, não me lembro de períodos tão longos de seca como acontece atualmente. Quase não chove mais. Antigamente chovia e chovia muito. Tanto é verdade, que naquele tempo quase ninguém saia de casa desprevenido. O guarda-chuva era peça quase obrigatória do vestuário masculino e a sombrinha embelezava as mulheres. Conheci um homem que nunca andava sem o seu guarda-chuva.  Ele o encaixava no ombro (não sei como conseguia fazer aquilo) e assim caminhava pelas longas estradas empoeiradas ou barrentas do meu sertão. É... ninguém de “juízo perfeito” saía de manhã para voltar à tarde sem levar consigo o “morcegão”.   Na minha casa havia um único guarda-chuva, que meu pai costumava deixar para nós, porque embaixo dele devia caber uns três moleques, ou mais. E ele se virava protegendo-se da chuva com um ‘saco de aniagem nas costas’ – uma peça conhecida por nós como “saco de mauá” ou “saco de linhagem”, que parece não existir mais.   Certa vez meu pai comprou um guarda-chuva novinho e ...

PIOLHO

Seu nome é Paulo, todos o conhecem por Paulinho, e na infância tentaram apelidá-lo de “Piolho”, mas não pegou. Naquela família de muitos irmãos, com exceção de minha mãe, a primogênita, todos arrastaram apelido por algum tempo; alguns para sempre.   Irmão caçula de minha mãe, este tio é muito querido por todos na minha casa. Papai, que não costuma elogiar familiares, sobre ele não economiza palavras. “Ah, o Paulinho é sério, de fibra. Nele pode-se confiar, porque é verdadeiro!”   São tantas as minhas histórias vividas na companhia do tio Paulinho, que eu teria que escrever muitas páginas para dar conta de parte delas. Para o momento, no entanto, quero apontar alguma coisa, pouca, mas que será suficiente para lhe traçar o perfil.   Quando ainda pequeno (bom, ele não cresceu muito!), uma de suas irmãs exclamou: “Gente, não é que o Paulinho sabe fazer conta de juros?!” Naquela época eu não sabia fazer contas e muito menos o que seria ‘juro’. Mas, a partir daquele dia, eu passei a ver meu ...

APELIDOS

Em casa, papai nunca permitiu que colocássemos apelidos uns nos outros. À primeira tentativa, o temido franzido na testa era suficiente para pôr fim na ousadia. Talvez por isso, eu nunca me senti à vontade para chamar alguém por apelido, preferindo sempre o “nome de batismo”. Contudo, não se deve radicalizar, e exceções são bem-vindas. Explico.   Tive uma aluna, a dona Tina, cujo nome de batismo era Libertina. Nesse caso, vai fazer o quê?... Não se discute e nem precisa explicar por que ‘Tina’ fica bem melhor que ‘Libertina’.   Numa ocasião, uma senhora me procurou para conversar sobre a Joana D’Arc, sua filha e minha aluna. “Ela não quer vir mais para a escola, porque as meninas ficam a chamando de Joana e ela não gosta do nome...”, reclamou. “Mas esse nome é tão bonito!... Agora, se fosse Sebastiana...”, tentei consolar. “Mas eu me chamo Sebastiana, professor!”, ela me disse cheia de rubor e de furor. “Mas esse nome é bonito também”, tentei consertar e continuei: “Se-bas-ti-a-na!!! Q...

O ABACATEIRO

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Da latência de uma semente veio a plantinha, que cresceu em silêncio e sem pressa. Seu caule, antes frágil, magrinho, foi espichando e se encorpando, tornando-se um tronco robusto e forte. Seus galhos foram abrindo devagar e outros galhos foram também surgindo e se entrelaçando, formando uma frondosa copa. E então há uma vastidão de folhas, que se roçam e sussurram ao sopro de brisa suave ou de ventos furiosos.     O tempo passando, a árvore cada vez mais exuberante e... nada de frutos! E eu aqui ansiado por um abacate, que nunca vem.  Na última primavera, um cacho de flores pôde ser observado, depois outro e mais outro. Esperei que das flores viessem o fruto, mas não foi daquela vez.   Abacateiro, além da tua sombra, quero teus frutos. Mas se tu não me deres frutos, nada te acontecerá. Machado algum te ferirá a carne. Permaneça onde estás e fica na paz. Abriga na tua folhagem a maritaca, o bem-te-vi, o sanhaço e a garrinchinha; abriga também o tico-tico, a coleirinha, o canário-da-ter...

POR QUÊ?

Eu assisto a jornais, mas não deveria. A cada notícia, um arrepio de tristeza, indignação ou não sei o quê, apossa-se de mim, e corpo e espírito são aterrados. Então eu deveria me alienar de tudo, ir morar no mato, mas o mato está ficando perigoso também. As matas estão sendo incendiadas.   É fogo na Amazônia, no Pantanal, no Cerrado e na Caatinga. E tem o fogo das armas de fogo também. Mãos assassinas de grileiros, garimpeiros, madeireiros, milicianos. E as milícias são custeadas pelo Estado com altos salários para que nos oprimam mais eficazmente.   Nosso país nunca foi tão pisoteado por um governante, mas o povo, manso rebanho, está sempre se curvando àquela "coisa inominável”. A cada investida contra opositores, sobretudo jornalistas, a popularidade do “tranca-rua” sobe consideravelmente.   Alguém, qualquer um, que se recusa a usar focinheira e cospe “corona” no rosto das pessoas, deveria ser repudiado. Eu escrevi ‘focinheira’? Ah, não. Eu queria escrever ‘máscara’, pois o suj...

AS IMPRESSÕES DO GODOY

“Nas minhas andanças pelo interior de São Paulo, correndo atrás de contratos para poder lecionar, acabei indo para a cidade de Amparo. Na escola em que fui trabalhar, conheci muitas pessoas que, em sua maioria, trataram bem 'o rapaz de Minas'. Pois bem, vou falar um pouco sobre um professor de Matemática – homem sábio, que usava roupas simples e já meio “surradas”, um chapéu na cabeça e o jornal enrolado nas mãos – e era justamente o jornal que lia nas horas vagas a grande fonte de inspiração para as sábias reflexões proferidas durante os diálogos nos intervalos.                 Para trabalhar, eu me deslocava diariamente, de segunda a sexta, entre as cidades de Monte Sião (MG) e Amparo (SP), fato que chamou a atenção do professor. Dessa forma, especialmente às sextas-feiras, íamos nós caminhando após a exaustiva e turbulenta semana de trabalho (situação bem conhecida de quem atualmente está em sala de aula no Brasil), rumo aos nossos respectivos destinos: eu à rodoviária e o p...

CABEÇA FRACA

  Não posso dizer que tenho inveja de alguém, mas às vezes a minha admiração pelo talento de alguns beira a esse sentimento. Aliás, ainda quero falar sobre ‘inveja’ aqui, porque esse ‘pecado capital’ é um tema que deve me render boas linhas. Mas hoje quero falar de uma habilidade que muito admiro em certas pessoas: a memória.   Recentemente, no grupo de WhatsApp da família, um irmão, certamente querendo fazer graça, aventou a possibilidade de que esteja fadado a sofrer do Mal de Alzheimer. Dias desses, segundo disse, entrou no carro, posicionou-se ao volante e, quando ia dar a partida, cadê a chave?... Não estava na ignição e nem sabia onde a tinha posto. Desceu do carro, foi não sei onde, perguntou a não sei quem, depois voltou ao carro e, pensativo, sentou-se novamente ao volante, mas... sem a chave. De repente percebeu algo estranho, que não explicou e nem precisava explicar: ele estava sentado em cima da bendita chave.   Depois desse ‘causo’ e para completar a carga, chegou mais ga...

PÉROLA NEGRA

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Hoje meus pais celebram as bonitas ‘’Bodas de Pérola Negra’’, quando são completados 65 anos de vida conjugal. Papai pensou que fossem “brilhantes” e eu arrisquei “nogueira’’. E falei para meu pai: “Se não forem ‘bodas de brilhantes’, vocês brilham do mesmo jeito”. Depois disso, consultei a WEB e dei a sentença: “Bodas de Platina!”. A partir daí, todo garboso de minha sabença, comecei a espalhar, dizendo ser de ‘platina’ as bodas de meus pais. Mas o Mano Véio abriu o dia de hoje, felicitando meus pais pelas “bodas de pérola negra”. Li aquilo e pensei: “Meu irmão está inventando...”. Fiquei quieto, e não convencido, fiz outra pesquisa. E não é que o Mano Véio tem razão?... Se não fosse ele, eu teria dado um título errado para esta crônica.   Meus pais, nessa longa trajetória de vida compartilhada, viveram momentos difíceis, de divergências e até de conflitos. Muitas vezes, a causa dessas dificuldades era de natureza financeira. Papai e mamãe, sempre muito pobres e adoentados, tinham que...

O CARAPINA

Eu estava preparando um almoço no fogão a lenha, queimando uns restos de madeira usada na obra, e pensava estar ecologicamente correto. Mandei uma foto para o grupo de WhatsApp da família e recebi uma admoestação: “Queimando madeira boa... Com essas tábuas daria para fazer um pinteirinho ou outra coisa qualquer”. Aquela frase me deu uma baita fisgada na espinha, mas tentei consertar: “São sobras da obra e essas madeiras são pínus , que iriam apodrecer”. A minha resposta não convenceu nem a mim nem a ele, eu acho, embora o bom mano tenha se recolhido da observação.   Depois disso, quando ia pegar ‘lenha’, comecei a separar umas tábuas. Olhava uma, olhava outra, antes de decidir qual delas seria “condenada às chamas” do meu fogão. E assim, umas foram escapando e ficando empilhadas à parte. E, precisado que eu estava de uma mesinha para pôr na varanda, decidi improvisar. Peguei aquelas tabuinhas, arranquei os pregos, limpei-as dos restos de concreto e comecei meu labor de carpinteiro amad...

MARIA EUGENIA

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A Maria chegou! Mas que moça corajosa!...   Maria, você é muito bem-vinda, mas não pense que terá vida tranquila aqui, porque nós bagunçamos seu planeta. Fizemos as nascentes secar, a temperatura subir, as geleiras derreter. Também erodimos o solo, queimamos as matas e acabamos com tudo, Maria. Que vergonha eu sinto de você, menina!   É, Maria, pelo que se vê, a situação não está muito boa para quem chega desprevenido – eu diria que está é péssima. A casa está mesmo muito bagunçada. Há coisas fora do lugar, coisas sobrando e coisas faltando. O nosso jardim, Maria, está sem flores e a nossa horta, 'farta' de agrotóxicos e 'falta' de verduras. Os bichos, Maria, estão sendo extintos e quase não se veem mais abelhas por aqui. Mas os gafanhotos estão chegando... Sim, há gafanhotos e há diversas “etnias” de mosquitos – alguns até com “pedigree”, como o Aedes Aegypti. Aqui tem ‘Covid’, tem ‘corona’ e tem muita tristeza, Maria. A coisa tá feia mesmo!   Perdoe-nos, porque fomos ...

MUDANÇA DE ASSUNTO

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“Somos descendentes de débeis mentais e essa é a minha preocupação. Por isso, peço a vocês para não ficarem falando de uma coisa só.”   Esse é o papai dando bronca em alguns de seus filhos num grupo de WhatsApp. Não sei o que houve, mas conheço bem o meu velho e já estou lhe dando a merecida razão. As estatísticas dizem que cerca de dez por cento da humanidade possui algum transtorno mental e, como lá em casa somos onze irmãos e eu não consigo ver nenhum tantã, esse número e a genética parecem apontar um dedo comprido para mim.   Então, seguindo o conselho de meu pai, eu estou mudando de ares, porque em postagens recentes fui monotemático. Desta vez não falar de escola nem dos pedagogos nem de política. Se bem que me dá uma coceira danada, porque hoje foi maçante. Mas vou falar de uma coisa mais prazerosa, vou falar do meu cãozinho Tokinho.   Todas os dias enquanto estudo, digito, elaboro atividades, gravo, ouço música, leio... o Tokinho me acompanha silente em seu bercinho redondo. Aq...

AULA DE MATEMÁTICA

Não se assuste, raríssimo leitor, porque não tenho a pretensão de lhe dar aulas. Quero, neste breve texto, compartilhar algo que me deixou um pouco ‘avexado’ por esses dias. Antes, porém, proponho um pequeno problema de matemática que traz quatro alternativas, das quais uma deveria ser verdadeira. O leitor poderá ler e analisar, mas não acho que deva perder seu precioso tempo com isso. Ei-lo.   Priscila foi à sorveteria tomar um sorvete de massa com duas bolas de sabores diferentes e com uma única cobertura. Lá ela se deparou com seis sabores diferentes de massa e três de cobertura. Quantas são as diferentes maneiras de Priscila fazer a sua escolha? [sic] (A) 108         (B) 90            (C) 18             (D) 14   Para melhor “sorver” esse problema, vamos supor que os sabores das massas sejam assim denominados: A (ameixa),  B (banana), C (coco), D (manga), E (leite) e F (uva); e as coberturas sejam de X (chocolate), Y (caramelo) e Z (limão).   Vamos trabalhar com a seguinte hipótese:...

PEDAGOGIA OPRESSORA

“Bom dia a todas e a todos!” (que lindo!). Agora é assim que alguns pedagogos moderninhos, os tais especialistas em educação, se dirigem ao manso rebanho – nós professores. E ao final da parlação costuma haver ainda o indefectível “beijo no coração” (que dor!).   Deu para perceber que neste texto não serei indulgente com determinados atores da educação, mas prometo ser breve. Aqui estou criticando a “ditadura pedagógica” que oprime professores há décadas e quero provar no final desta crônica a desnecessidade de determinados saberes. Mas não vou atacar o patriarca Paulo Freire, a quem todo professor minimamente informado deve reverenciar.   Desde tempos muito antigos, nutro certa birra com a pedagogia. Pernósticos, alguns pedagogos gostam de usar expressões impactantes como ‘resiliência’ (a vedete do momento), ‘ressignificação’, ‘ empoderamento’ , ‘superação’, ‘protagonismo’ (juvenil e sênior), ‘mediação tecnológica’, ‘fase de letramento’, ‘aluno aprendente’ , ‘aluno alfabético’ , ‘esp...

BANANA-OURO

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Tenho uma estreita ligação com as bananas, que vem desde minha infância. Penso que se alguém não consegue identificar a banana que está comendo: se é prata, ouro, maçã ou nanica – para ficar nas mais comuns – deve ser uma pessoa muito triste. Agora, um campesino não pode viver impunemente se ele nunca plantar ao menos uma bananeira. Eu já plantei alguns pés de banana, mas ultimamente estou entusiasmado é com a banana-ouro.   Meu pai também tem afinidade com a banana-ouro, e ele conta uma pequena história sobre ela. Ele diz que em certa ocasião, com a idade de uns dez anos, foi com seu pai procurar uma vaca lá pelos lados da casa de uma tia nossa, a Áurea Moura. Naquelas redondezas, eles viram um cacho dessa banana no ponto de ser colhido. Como a tia Áurea não morava mais lá, ela se mudara com a família para a cidade grande, vovô cortou o cacho e o levou para casa. Depois ele chegou a procurar o dono do sítio para pagar, mas o homem não quis receber.   Na infância eu também tive um pequ...

ANGÚSTIA SEM FIM

Graciliano Ramos escreveu vários livros, e publicou também “Angústia”. Tenho esse livro há alguns anos e ainda não o li por absoluta falta de tempo – não de vontade. Não sou Graciliano nem Ramos, mas tenho angústias que parecem não ter fim.   Faz tempos que me encontro entediado, sem vontade de fazer nada além de dormir agora, neste momento, para acordar só no próximo século. Isso me ocorre desde o dia em que um determinado ‘ser’ emergiu do abismo e foi assunto ao poder. Mas a vida segue e exige que eu acorde todos os dias bem cedo, que eu abra o computador para trabalhar, mesmo que eu comece o dia sempre vendo na primeira página a abjeta figura de olhos esbugalhados. Esse celerado, que deveria estar há tempos numa prisão fortificada, submetendo-se diariamente a generosos banhos de sal e não de sol, continua malevolente em sua trajetória genocida. A “onipotência miliciana”, contudo, sobreviverá por meses e não por anos. Explico.   Quem sustenta aquele ‘ser’ na presidência são as forças...

RODRIGO

Conheci o Rodrigo no começo dos anos dois mil, acho que em 2002, se não estou enganado. Naquele ano ele foi meu aluno numa quinta série – ou numa sexta série, se não estou novamente enganado. A classe dele era barulhenta, como eram barulhentas as outras classes, como são barulhentas as pessoas. O mundo é barulhento. Mas havia alguns alunos bonzinhos, silenciosos, que amenizavam minha aflição. E o Rodrigo era um desses.   O Rodrigo tinha uma penca de irmãozinhos. Depois da aula, ele passava na creche, pegava seus maninhos e os levava para casa. Por mais de uma vez eu o vi com dois, três ou quatro deles, numa bonita cena. Bem de tardinha, lá estava o Rodrigo segurando a mão do menor, mochilas nas costas, subindo devagarinho a sua rua.   Eu nunca consegui usar agenda, mas naquele ano em que comecei a dar aulas para o Rodrigo, eu usava uma que trazia umas orientações passadas pelo sindicato dos professores. Na capa da agenda havia uma foto de um garoto de rua.  Era um menininho raquítico, ...

AS MEMÓRIAS DE MEU PAI

“ Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la ”. Essa frase é atribuída ao pensador irlandês Edmund Burke, que não conheço. Sei que ele foi um cara importante, porque vi na Wikipédia. Quem quiser saber mais sobre esse filósofo, não perca tempo, pois o Google não deixa ninguém mais na ignorância.   Mas a frase que abre este texto já me acompanha desde os amarelados tempos de adolescente. Certa vez a escrevi num papel-cartão e afixei na porta do quarto da pensão onde eu morava. Gostei daquela frase desde que a conheci e achei que a exibindo, eu poderia ofuscar minha ignorância, exalando certos vapores de intelectualidade.   Deixando de lado aquela famosa frase e seu (para mim) obscuro autor, quero falar de outra história: a que papai conta. Durante esta quarentena, que tem provocado muito bafafá entre as nossas desautorizadas autoridades, não estou sem trabalhar conforme dizem alguns linguarudos de Brasília. Estou trabalhando muito, porque estou digitando e editando...

SONEL

Publicado no jornal “A Tribuna de Amparo” – edição de 20/03/2020   Sonel para uns e Nelson para muitos, o bom mineiro de Jacutinga, a quem chamo carinhosamente de Alemão, é funcionário do Lar dos Velhos de Amparo há anos. Seu trabalho é silencioso e incessante, como o das formigas. Sempre que o vejo naquela casa, lá está ele frenético, com balde, vassoura e rodo, cuidando da limpeza. Ora o vejo ensaboando e esfregando o chão, ora está enxaguando ou enxugando pátios, alas internas, banheiros e corredores. O Sonel está sempre no labor, mas quando me vê, larga tudo e, braços abertos, vem dizendo: “Ô, meu amigo, eu quero te dar um abraço!”  E então recebo aquele abraço ‘caudaloso’, como diria o poeta Manoel de Barros. De volta ao serviço, exagera: “Agora, sim, está tudo bem, porque abracei meu amigo.”     Do Sonel, pouco sei. Não posso tomar seu tempo com conversas, porque a minha prosa nada acrescentará ao seu rico repertório de vivências. Mas da última vez, arrisquei e lhe fiz umas duas ...

EU NÃO SOU (...)

Previno o raríssimo leitor: este texto contém “substâncias tóxicas”. Caso o desavisado companheiro esteja à procura de amenidades, migre para outra página, porque aqui as cores não estão muito para o azul.   Nestas quase três décadas em que me encontro no magistério paulista, já vi de tudo. Naturalmente coisas boas aconteceram, mas sem mérito dos governantes. O governo atual, por exemplo, resolveu dar fim às faltas de professores, convocando os que não faltam para “tapar buracos”. Alguns diretores cumprem à risca os ditames do governador, e seus comandados lhes obedecem bovinamente, sem que haja sequer um gemido de indignação. Na escola em que trabalho, justiça seja feita, os gestores apenas convidam os professores que se encontram em atividades burocráticas para cobrir certas faltas, sem obrigá-los. De minha parte, procuro colaborar, atendendo classes que nem são minhas. A recepção é sempre amistosa e um bom trabalho tem sido feito.   Ontem, no entanto, a fortuna não me visitou. Após ...

UMA FOTOGRAFIA

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Este é José Lopes, meu pai, e essa foto foi tirada por mim neste Carnaval. Postei-a aqui porque a achei magnífica, fidedigna, uma das melhores das inúmeras que já tirei dele.   Papai tem oitenta e nove anos, mas não só. Tem também muita disposição. Saiu de sua Guiricema às vésperas deste carnaval para visitar um filho distante, que sou eu. Quase setecentos quilômetros é a distância que nos separa. Chegou à tardezinha com seu filho caçula. Embora bem-disposto e bem-humorado, papai estava cansado e tinha uma ferida provocada por um furúnculo, ou algo semelhante. Ele suspeita de erisipela, mas talvez não seja. Houve vermelhidão e inchaço, preocupando-nos bastante, mas ele mesmo não dava muito bola para isso. Apenas pediu chá de “ mercurim ” e de “cinco-folhas” – plantas medicinais que ele conhece tão bem e que trouxera consigo para esse fim. Improvisei um curativo com gaze e fita crepe e ele não reclamou de dores nem desconforto. Na volta, meu irmão o levou a um hospital, onde foi feita u...

DONA LAURA

Conheci a dona Laura já beirando seus ‘noventa’ no longínquo passado quando me mudei para esta cidade. Ela estava sempre bem ornada com um vestido ramado, de cores fortes. E seus cabelos, muito brancos, acomodavam-se sob uma presilha dourada. Dona Laura me parecia uma mulher feliz, porque piedosa e elevada, embora tivesse lá seus perrengues de saúde e de finanças.   Laurinha, como eu ousava chamá-la, morava numa modesta casa ajardinada com seu filho Laercio, um rapaz já de “muitos dias” com quem pouco conversei, porque estava sempre meio “escondido”.  Meus encontros com ela se davam regularmente aos sábados, à noitinha, quando voltávamos da igreja que frequentávamos num bairro vizinho. Conosco também vinha uma falante dona Mariinha, que era meio ‘ reclamona’ . Dona Laura tinha paciência com a amiga, mas não lhe poupava umas reprimendas de vez em quando. “A Maria é boba, devia parar de reclamar, porque ela é a dona da casa e não tem que viver humilhada”. Quase sempre, dona Mariinha vinh...

O CENTENÁRIO DE JACYRA

Minha avó materna, a saudosa dona Jacyra, faria cem anos no próximo dia quatro de fevereiro. Faria, não. Ela fará cem anos, que comemorarei sozinho, sem bolo, mas com uma prece. Porque, para mim, a vovó não morreu.  Ela continua viva na minha história.   Dona Jacyra foi avó muito jovem. Quando ela tinha apenas 35 anos, nasceu minha irmã Luzia, sua primeira neta. Depois de Luzia, rebentaram-se em diversos ninhos, ao longo de quatro décadas, outros 39 netinhos.  Uma fartura!   Recordo com saudade das inúmeras vezes em que mamãe nos levou à casa da vovó. Chegávamos no meio do dia, muitas vezes sob sol forte. Então ela nos oferecia água fresca tirada de um pote, servida numa caneca artesanal de lata. Sobre um pranchão de madeira embaixo da janela da cozinha, havia dois grandes potes de barro, que eram liturgicamente abastecidos por meu avô Aurélio. A mina ficava um pouco distante, mas o vovô sempre estava às voltas com seus baldes, nunca deixando faltar água em casa.   Lembro-me bem daquel...

QUANDO A MEMÓRIA COMEÇA A FALHAR

“Rua dos Camarés, 94  –  9º DP; ônibus 2010, Pq. Edu Chaves”     O endereço acima me foi dado por um agente policial da rodoviária Tietê, em São Paulo. Caso o leitor decida me seguir, saberá o porquê disso.   Numa tarde de domingo, eu me preparava para uma viagem à casa de meus pais, em Minas. Ao sair, já no carro, senti falta do celular. Como estava a poucos metros de casa, uma marcha à ré foi suficiente para eu verificar que o aparelho não tinha ficado em casa, mas estava escondidinho na mochila. “Minha memória está fraca”, pensei.   Então verifiquei documentos, dinheiro, passagens etc., e pude seguir tranquilamente. Chegando ao terminal rodoviário, com quase quatro horas de antecedência, fui ao guichê de autoatendimento e retirei a passagem. Beleza. Agora é sentar e esperar o tempo passar. Aprecio ficar sozinho nesse oceano. São milhares de pessoas indo e vindo. De um canto, bem discretamente, observo a multidão em viagem, e eu viajo com ela.   Antes daquela fruição, achei melhor ve...

SEU MILTON

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Uma rua estreita, muito íngreme e calçada com pedras irregulares, me leva a uma casa modesta, porém um pouco melhor do que as edificações vizinhas. O portão é aberto por um homem idoso e de poucas palavras. Estou chegando ao asilo de Maria da Fé – uma cidade no alto da Mantiqueira, no sul de Minas.   Todos os anos, em fins de dezembro, costumo visitar essa casa, de onde a cada ano uns partem e outros chegam. Faz frio em pleno verão, e os velhinhos se espalham com cobertores por quartos, corredores e salas de televisão. Um espaçoso refeitório, uma lavanderia e um pequeno quintal cimentado nos fundos são áreas liberadas para todos e abertas aos visitantes.   Ao lado de varais repletos de roupas recém-lavadas, um alambrado separa o espaço cimentado de uma pequena horta. Ali há alface, couve e almeirão em quantidade suficiente para abastecer diariamente a cozinha. Outros cultivares existem por lá, mas deles não me recordo.   Já beirando os ‘noventa’, seu Milton sempre foi o hortelão da cas...