MÁRIO
Numa manhã, em viagem de visita a familiares, ao longo de uma maratona recheada de imprevistos e já bastante fadigado, eu me sentei num banco de cimento da rodoviária e comecei a ler enquanto esperava o ônibus. Estando já imerso num conto de Clarice Lispector, um farfalhar desviou minha atenção: absorto em seu labor, um homem varria, varria e ajuntava; varria, varria e ajuntava. Depois pegava o lixo com a pá e despejava num saco plástico. Era o Mário que se aproximava, trabalhando calado e ligeiro. O corpo esguio lhe conferia agilidade, fazendo lembrar os campeões da Corrida de São Silvestre. No entanto, o homem que varria, embora nunca tenha sido atleta, certamente tem habilidades quase olímpicas, sem as quais não sobreviveria. Quando ele chegou mais perto, peguei meus trastes e mudei de lugar a fim de lhe facilitar o trabalho, mas não sem antes de lhe dar bom-dia. Foi a primeira vez que o Mário parou de varrer. Agora, apoiando-se no cabo da vassoura, com os olhos fixos no horizont...