Postagens

Mostrando postagens de maio, 2014

SEM INSPIRAÇÃO

Sofro de uma síndrome que vez ou outra acomete cronistas de verdade. Monstros da nossa literatura contemporânea como Cony, Hatoum e Antônio Prata já comentaram sobre eventuais dificuldades em começar um texto. Faltando-lhes inspiração, a primeira frase não sai. Escreve-se algo ruim, que logo é substituído por coisa pior e o texto não flui. Adélia Prado confessou ter ficado “abstêmia” por cinco anos. Não conseguia ir além da primeira frase de um livro que escreveria e procurou tratamento. Então eu deveria ser internado, pois há mais de cinquenta anos que...   Já que me falta assunto, falarei sobre qualquer coisa. Aproveito para despachar algum incauto, se por desventura aqui se aportou meio desprevenido, e aponto-lhe o caminho do Facebook . Lá as coisas são divertidas, embora eu não entenda nada daquela barafunda de imagens e palavras sob um cortinado azul. Não poucas vezes, uma solicitação de amizade é por mim preterida devido à inabilidade com o manuseio das ferramentas. E enquanto as...

CARTA A UM PREGADOR

Publicado originalmente em 01/11/ 2013, em  http://www.uniblog.com.br/blogdofilipemoura     Assistindo à Santa Missa presidida pelo senhor, percebi alguns deslizes em sua homilia. Vou abordá-los sob meu ponto de vista e me abro para suas possíveis considerações.   1º -  Teologia  da Libertação : Não é verdade o que o senhor disse sobre esse movimento na Igreja. A  T . L . surgiu no final dos anos setenta como um necessário tempero à teologia vigente. E como tempero ela sobrevive no seio da Igreja. Ainda: sendo tempero, a  T.L . jamais poderia ser a essência, pois não se pode  alimentar-se  exclusivamente  de sal.   2º - Pobres versus ricos : O senhor disse que o rico se fez pelo  trabalho  - alguém que batalhou etc. E disse que o pobre é aquele que segue à Igreja, ou algo assim; que todos naquela assembleia eram pobres; que o dinheiro é bom e necessário e ninguém vive sem ele; que há pobres morando em barracos inabitáveis, mas com tevê de última geração e parabólicas; que a Igreja não ...

ZÉ BENTO

Morreu Zé Bento. Pobre, sem família e sem nada, habitava uma cadeira de rodas e morava num asilo. Partiu deixando a cadeira, mas de seu mesmo, apenas uma caixa de fósforos, um maço com alguns cigarros e o chapéu. Deixou também umas poucas e rotas roupas, que não despertarão o interesse de ninguém. A cama em que dormia já está à disposição de outro José, que não será Bento.   O anúncio na “pedra” foi curto : “Faleceu José Bento, filho de Maria de Jesus e de Cândido Bento. Era solteiro e deixa amigos” . Por desnecessidade, nada mais foi escrito. Começando pelo seu nome, o nome de seus pais e culminando com seu obituário, percebe-se que na vida de Zé Bento tudo foi diminuto.   Por muitos anos eu o vi em sua cadeira. Sempre em silêncio, parecia estar em permanente meditação. O chapéu de feltro, que às vezes lhe encobria os olhos, proporcionava-lhe certa elegância e algum conforto enquanto cochilava. Quando desperto, aqueles olhos tentavam, embalde, desvendar o horizonte para além da parede...

DEMOLIÇÃO PEDAGÓGICA

(Publicado originalmente no "blogdofilipemoura.com", em 18/11/2013)   Não é para diletantes a arte do mestre-escola; nem a do pedreiro que reboca o teto de uma casa (deve doer bastante o pescoço de tanto olhar para cima!), ou a do projetista  de uma catedral, para ficar apenas no ramo da construção. É preciso muito mais do que boa vontade ou idealismo. É preciso competência, o que me falta, é claro – vou logo dizendo.   Por falar em construção – seara de uma gente miúda e palpiteira, alérgica a pó de giz, mas que se diz construtivista –, tentarei anunciar um projeto de demolição neste pequeno texto. Convido o leitor a me acompanhar. Serei breve.   Recentemente fui convocado pela Delegacia de Ensino para uma  reunião . Eu digo delegacia, mas é proibido. O nome certo é mais pomposo: Diretoria de Ensino, embora não exista por lá um corpo de diretores que justifique o termo “diretoria”, é assim que se diz oficialmente; do contrário, corre-se o risco de ser convocado a comparecer ...

ODE À BANANEIRA

O título é banal, como banal é o cronista e seus escritos. Mas, após uma conversa com um amigo, não poderia deixar escapar a oportunidade de prestar um tributo à bananeira.   Não muito antigamente, qualquer casinha rural tinha um quintal onde se viam algumas árvores e uma pequena e providencial moita de bananeiras. Além de sombra e frutos, a bananeira oferecia confortável privacidade ao camponês em horas apertadas, ou seja, quando ele precisava “amarrar o gato” – espero fazer-me entender sem mais explicações. Não gostaria de entrar em detalhes da vida campesina, mas o citadino leitor não pode ficar desinformado e saberá o quão importante fora aquele matinho para a população rural do passado.   Por outra razão, de uns tempos para cá cismei de querer plantar bananeiras. Banheiro não me tem faltado – para as minhas necessidades, o que tenho dá com sobra. O que não me sobra é tempo de vida para ver crescer uma mangueira, abacateiro ou outra árvore frutífera de caule lenhoso. Algumas dessas...