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Mostrando postagens de abril, 2015

Publicado originalmente no "blogdofilipemoura", em 12/01/13   Havia uma cerca de arame e uma tranqueira - uma espécie de porteira feita com arame farpado -, mas os fios estavam meio enroscados impossibilitando-me abri-la. Então, preferi abaixar-me e passar sob a cerca mesmo. Aproximei-me com vagar e notei que a casa estava fechada. Mesmo assim, continuei. A certa distância, chamei a dona da casa. Gritei uma, duas, na terceira vez fui interrompido por uma carinha observando-me de esguelha - ou  de “meia-jota” como diz mamãe. Era o Zé. Ele me reconheceu e voltou exclamando: “É o menino do Zé Lopes, mãe! Mãe, mãe, é o filho do Zé Lopes!!!” Nisto, veio a mãe se esforçando para engolir uma última garfada de sua janta e tentando limpar, com a barra da  manga do vestido, o feijão que lhe borrara a boca. “Chegou numa boa hora... Estamos jantando, vem comer também!...” Lá de dentro, o Zé se impacientava com a mãe: “Mãe, ó mãe, vem comer!...” A mãe replicou: “Espera aí, Zé. Eu estou co...

DONA JACIRA

Nos longínquos anos sessenta, a casa da vovó Jacira parecia estar sempre em festa. Os netos, que já começavam a brotar feito cogumelos no começo da “estação das águas”, para lá acorriam em festiva revoada. Os tios, alguns ainda crianças, misturavam-se com a nova remessa de gente pequena para brincar de bolinha de gude, pega-pega ou subir nas centenárias mangueiras que sombreavam o antigo casarão. E a sempre ocupada dona Jacira, com panela no fogo ou lavando roupa na bica, recebia-nos com indizível alegria perguntando: “E lá?” – isto é, como está sua família?   Durante boa parte da vida, aquela aguerrida mulher trabalhou duro na roça plantando milho, arroz e feijão para sustentar seus onze filhos. Meu avô Aurélio vivia sempre “esbarrado, sem expediente”, conforme se dizia de quem era desprovido de ânimos para a lida. Então, era vovó quem assumia a dianteira de tudo na casa. Cuidava dos pequenos, do roçado, do trabalho doméstico e do marido adoentado, que por muitas vezes ficaria interna...

A PEREGRINA

Publicado originalmente no "blogdofilipemoura.com", em 25/01/2013   A rodoviária estava apinhada de pessoas. Eram muitas centenas, talvez alguns milhares, se contadas mulheres e crianças, para lembrar um texto sagrado. Umas iam, outras voltavam não se sabendo ao certo de onde nem para onde afluíam. Eu também estava tentando ir para algum lugar, mas, talvez diversamente daquela massa, eu sabia exatamente para onde queria ir, embora meu ônibus tenha se recusado a me levar. Por isso, teria que cumprir algumas horas de espera. Contudo, tive sorte ao conseguir um cantinho, onde me sentei para ler uns jornais.     Enquanto estava por ali, fui interrompido por uma insólita figura. Um trôpego sujeito alto, magro, mais para velho do que para moço, de chinelas e trajando calça e camisa claras já meio desbotadas e puídas como as minhas, estacou em minha frente parecendo querer ler comigo no meu jornal. Olhei-o assustado e lhe afastei dos olhos o objeto de sua curiosidade, censurando-lhe...

BALAIOS

Os primeiros utensílios artesanais que conheci foram o pilão e o balaio. O primeiro é um tronco bruto de madeira, que tem uma cavidade onde se põem grãos para serem triturados por uma espécie de clava denominada mão-de-pilão. Meu pai sabia fazer os dois, mas nunca o vi fabricar pilões. Nem mesmo o nosso, de peroba, que por anos nos serviu, e que durante seu “repouso” era virado, transformando-se num confortável banquinho. Mas balaios, um tipo de cesta sem alça, vi meu pai fazer muitos. Eu mesmo o ajudava, cortando bambus, que não poderiam ser muito maduros, por resistirem à moldagem e nem muito verdes, por não terem durabilidade. Papai abria os bambus em longas tiras, descarnava-as e as entrelaçava. Em ângulo reto sobre o fundo assoalhado, dobrava os “mourões” pelos quais tecia a trama de suas paredes.   O Tatão Tibúrcio também fazia os dele, grandes e arredondados, parecendo não ter a mesma perícia de papai. Mas o Tatão utilizava taboca, uma espécie de bambu cheio de espinhos recurvos...