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Mostrando postagens de 2017

ILHÉUS, CORAGEM!

Numa ilha inóspita, a muitas milhas da civilização, há uma escola em que...   Teve aluna mandando o professor tnc; mas teve professor que não foi tnc, e fez queixa policial da aluna que o mandou tnc.   Teve professor vociferando e apontando covardemente o dedo para uma colega; e teve professor devidamente enquadrado por ‘grunhir’ covarde e ferozmente com a colega.   Teve professor exigindo decência de quem lhe apontaria o dedo; e teve professor comportando-se “civilizadamente” após reprimenda de quem não aceitou o ‘dedo apontado’.   Teve aluno agredindo verbal e fisicamente o colega de classe; e teve aluno agredindo física e verbalmente uma funcionária da escola.   Teve pai de aluno ameaçando veladamente um professor durante reunião; mas teve alguém pedindo explicação ao homem que ameaçava veladamente o professor.   Teve pai de aluno ameaçando agredir professor com barra de ferro; e teve pai dizendo não se tratar de ameaça, mas de conversa “amistosa”.   Teve professor sugerindo em rede...

O ESTADO LAICO

Publicado na "Tribuna de Amparo" - edição de hoje.   O Brasil está em chamas. As “temerárias” labaredas já queimam direitos sociais e chamuscam liberdades individuais, delineando um horizonte tenebroso via reformas. O primeiro desses remendos fez ressurgir, com ares de modernidade, a infame escravidão, que a Justiça tem combatido em seus primeiros movimentos. E querem votar, ainda neste ano, a reforma da Previdência!... Por que não estabelecem o teto do INSS a todos os viventes aposentados deste pais? Seria tão simples e quem quisesse mais, que contribuísse por fora.  Dessa forma, sobraria dinheiro até para o salário mínimo dos trabalhadores rurais aposentados. Os lavradores – na opinião dos “barnabés engravatados”, acredite – são os maiores responsáveis pelo rombo no “casco previdenciário”.   Não se sabe por quê, mas enquanto o incêndio avança, as panelas, que tanto estardalhaço fizeram tempos atrás, estão mudas. Não se ouve sequer um rangido de frigideira ou um roçar de col...

MANO VÉIO

Publicado originalmente em15/04/2013 no blogdomouralima   Aquele menino acaba de completar 55 anos. Ainda ontem, estava ele na casa dos pais, ajudando na labuta para sustentar uma prole já grande e ainda crescente. Mal acabara de completar onze anos e o curso primário, já assumiria o posto de braço direito da família na lida com a lavoura. Todos os dias, exceto domingo, levantava-se bem cedo, lavava o rosto, tomava uma xícara de café, enchia uma moringa com água, pegava seu cacumbu (enxada velha e mal encabada) e rumava para o roçado. Eu deveria acompanhá-lo, mas, malemolente como sempre, chegava atrasado, o que me renderia fartas e sonoras repreensões. E hoje, aqueles longínquos tempos que a memória traz de volta percorrendo um atalho – esses misteriosos cosmológicos “buracos de minhoca” de nossa mente – tomam-me de assalto.   O menino, certo dia, foi para a ‘cidade grande’, passando-me o cajado da responsabilidade rural, que nunca consegui segurar com firmeza, para tristeza de papai ...

O TRONCO DE TAJUBA

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  “Chegou!”, disse ele às seis da manhã, dando-me um caudaloso abraço. “Nunca pensei que eu fosse chegar a esta idade, mas fazer ‘oitenta e sete anos’, andando... só tenho que agradecer a Deus!”, completou o alegroso aniversariante.   O dia foi intenso. Cedinho, já estava no feice , onde as felicitações se acumulavam, e a cada mensagem ele respondia com particular atenção. O telefone também tocava. Ao som do celular, largava o notebook e corria para o quarto, onde o aparelhinho não lhe dava sossego. Eram filhos, sobrinhos, parentes, amigos, admiradores.   Garboso de sua saúde, papai diz: “Eu sempre fui perrengue, muito doente, mas Deus me concedeu uma velhice tranquila. Olha, eu não tomo nenhum remédio e durmo a noite inteirinha!... Isso é graça!” Mamãe, porém, tem sido objeto de suas preocupações. Ela está bastante fragilizada – mais pelas enfermidades e menos pela idade, que já lhe pesa.   Se o papai tem o seu celular, mamãe tem o dela também. Todos os dias, às sete da manhã e às se...

ESPERANDO NO PORTÃO

Ele estava parado em frente ao portão da escola enquanto os estudantes entravam em costumeira algazarra. Eu deixava o prédio após o expediente e tentava alcançar a rua, desvencilhando-me daquela turba irrequieta. O homem parecia desorientado. De rosto encovado e olhos claros, seus cabelos muito brancos e despenteados davam a impressão de que o chapéu lhe fora arrancado minutos antes por uma ventania. Aproximei-me e perguntei: “O senhor não quer entrar? Não quer encarar essa meninada e dar umas aulas?...” O velho me fitou vermelho e vi seus olhos turvados de indignação. Pensei-o bravo por eu ter sugerido algo “abominável”: dar aulas. Não, ele não estava bravo por isso, mas por outro motivo.   “Você trabalha aqui?”, perguntou. “Sim”, respondi. “Já procurei a deretora , mas não resolveu. Agora eu vou fazer do meu jeito.” “O que foi?” “A minha menina tá dando beijo num sujeito aí, e eu não vou deixar isso ficar assim. Minha mulher está lá no Jardim Público atrás dela, mas acho que não enco...

O JULGAMENTO DIVINO

Recentemente, tive um civilizado bate-boca com um amigo em rede social. No contexto em que se deu o “entrevero”, o jovem, idealista e pertinaz, defendia a primazia da “justiça divina”, enquanto eu apelava para a “divina misericórdia”.   A ideia de um “Deus de Justiça” me vem à cabeça sempre com certo alívio. Fico imaginando aquele homem furibundo, fortão e barbudo, com a balança numa das mãos e a espada na outra. Um arcanjo, acho que os anjos têm essa função, pega a alma e a põe trêmula na balança do “Juiz”. Este entrega a espada ao auxiliar, um querubim, e dá uma ajeitada na balança. Desloca umas argolas, endireita o braço, olha a escala e faz umas contas, de cabeça mesmo, porque calculadora não lhe faz falta. Após breve análise, a alma volta encolhidinha e já com o destino selado às mãos do arcanjo, que estava ali esperando o veredito. A frase: “Afastai de mim, malditos. Ide para o fogo do inferno!” soa-me como ópera, se proferida contra ladrões, homicidas e os demais malvados de nos...

TRAVOU!

Estava com um texto pela metade e sem meios de continuar. Minha mente travou e a preguiçosa imaginação parecia ter entrado em estado de dormência. Quando decidi continuar e voltei ao computador, quem resolveu travar foi o dito cujo. O notebook implorava por atualizações há tempos, mas eu sempre adiava. Quando cedi aos seus reclamos, talvez por pirraça, o danado engasgou de vez com a mensagem:  ” Instalando atualização 7 de 13 ”. Dali ele não saiu mais e continua abobalhado desde a tarde de ontem. Fazer o quê?...   Agora, com o computador da ‘patroa’, que não domino a contento, tento rabiscar alguma coisa, mas está difícil. Talvez a culpa seja do calor, da insistente seca que nos aflige e não minha. Porque sempre é bom encontrar algo ou alguém a quem culpar pelos nossos insucessos e frustrações. E como isso conforta!... Ah, mas tem a estiagem... Como é triste a estiagem! Com o estio, tudo fica mais complicado se ele vem acompanhado de calor e ‘ar seco’... Mas nós merecemos sofrer essas ...

NÃO, GENERAL!

Servi o Exército por dois anos e, apesar da ditadura militar que infelicitava a nação à época, trago boas recordações da caserna. Lá, conheci pessoas íntegras, generosas, que muito me ensinaram.  A disciplina era dura, mas não havia privilégios para os mais abastados. Para o bem ou para o mal, soldado era tratado como tal, sem distinção de cor, classe ou sobrenome. Havia uma frase muito batida, que o sargento repetia aos conscritos nos primeiros dias: “Aqui é o lugar onde o filho chora e a mãe não escuta!”  Não me lembro se chorei no quartel. Devo ter chorado, mas de saudade de alguém, que não escutou, como também minha mãe não escutara – proibida que estava pelo sargento disciplinador.   São impressionantes as oportunidades encontradas por quem ingressa nas Forças Armadas. Para o caboclo estudioso e responsável, uma estradinha de sucesso pode ser aberta, e uma carreira, ainda que modesta, pode surgir-lhe alvissareira. Conheci muitos militares graduados oriundos de comunidades carentes...

NÃO MATARÁS!

“Desculpa pelo mal-entendido, professor! Eu estava errado aquela vez, foi mal...” Pasmo, ouvi do rapaz aquele pedido de desculpas, que aceitei sem delongas. Disse-lhe ainda que o quero feliz e que todos os dias rezo por ele – como sempre rezo pelas pessoas que me dão alegria ou tristeza. Ele respondeu: “Eu também, professor”. Sem saber se ele rezava por mim ou me desejava felicidade, agradeci de pronto e sinceramente tamanha generosidade.   O episódio aludido pelo rapaz não foi apenas um simples ‘mal-entendido’, mas algo bem mais desagradável. Há tempos, sofri dele uma agressão verbal na sala de aula seguida de ameaças etc. Colérico, reagi como pude, e se arma eu portasse naquele momento, uma história bem diferente desta estaria para ser contada.  Mas a cura para essas e outras chagas encontrei nas preces que faço diariamente.    Todos passamos por dolorosos conflitos, quando nos afloram os mais inconfessáveis ímpetos homicidas, mas não podemos sucumbir à força da nossa natureza nada a...

O SOLDADO COSTA

“E o ‘Pica-Fumo’, é bacana com vocês? Cadê ele?”, perguntou-me o soldado Costa numa tarde do ano de 1980. Eu tirava guarda no pátio das viaturas do Esquadrão de Cavalaria, enquanto ele estava numa janela do Quartel-General, um prédio vizinho. Não sabia que seu pai, meu chefe de seção e que foi carinhosamente chamado de ‘Pica-Fumo’, era esposo de uma prima de minha mãe. A partir desse brevíssimo diálogo, estreitei laços com aquela família e passei a integrá-la. Mas o Costa, embora simpático, era de poucas palavras, e nas vezes em que fui à sua casa, pouco conversávamos. Sempre havia muita gente por lá e eu me ocupava mais com os assuntos da mãe, que gostava de recordar antigas histórias de sua terra natal.   Naqueles tempos de Exército, tentei seguir carreira militar e ingressei num curso de cabo. Durante um acampamento, sendo designado chefe de uma patrulha de reconhecimento, eu e meus comandados vagueamos a noite pelo matagal à procura do inimigo, mas fomos subitamente abatidos por um...

A CIDADE ENCANTADA

Publicado na “Tribuna de Amparo”, edição de hoje   Sobre os longevos paralelepípedos da rua Quinze de Novembro, afluíam pés apressados para os vários quiosques que ofereciam degustação: uma festiva Amparo inaugurava sua primeira edição do “Festival da Cachaça”. Mas o que nos embriagou de verdade não foi a aguardente, que muitos afirmam ser saborosa, mas a melodia cabocla – muito mais apetecível do que aquelas incursões etílicas. No Largo do Rosário, entre a Capela e o Sobrado da Viscondessa, uma multidão assistia e aplaudia embevecida uma orquestra de viola caipira. Naquela noite de agosto, um grupo de quatorze violeiros cantava e encantava a cidade com suas guarânias, toadas e rancheiras. A praça, a rua e a cidade inteira reverenciavam os seresteiros vindos das cercanias, cujos acordes tangiam a rua Quinze e eram reverberados pelos velhos casarões coloniais no centro histórico da cidade. Por um momento, pudemos esquecer as agruras do dia a dia como carestia, violência e desfaçatez – m...

INCIVILIDADE

Se bem que pedi a Deus, como costumo fazer todos os dias antes de cada jornada: “Senhor, dai-me paciência e competência para realizar meu trabalho, e nada mais!” Mas o Altíssimo, com outras urgências, teria me abandonado. “Tenho agenda cheia. Preciso ‘destrancar’ o Brasil infestado de ‘zumbis’, enquadrar Trump, libertar a Síria, alimentar refugiados e tantas outras emergências... e esse aí só fica me enchendo o saco com suas pequenezas. Dá sossego, cara!”, teria dito o Criador com o cenho franzido, dando largas passadas e cofiando a barba. Mas não, o Barbudinho não me abandonou.   De volta, após um mês de recesso, período que pode ser visto como férias – afinal, foram trinta dias de folga e eu não poderia lastimar, mas... Nesta volta, já no primeiro encontro com meus alunos, houve um grande desencontro: fui impiedosamente xingado e só não reproduzo a “bendita” frase para não ferir pias e imaculadas retinas que aqui pousam. O “crime” aconteceu nos minutos finais da última aula, já nos e...

UMA SENHORINHA

“No meu tempo já havia velhos, mas poucos”, disse Machado de Assis através de um de seus personagens. Hoje há muitos velhos – podemos dizer com júbilo ou preocupação. Amparados ou abandonados, eles estão por aí... e por aqui. Alguns nonagenários; outros, porém poucos, já centenários. Convivo com uma nonagenária, mas na minha infância não conheci ninguém na casa dos noventa. Dona Sarminda, nossa vizinha, tinha uns oitenta. Outras duas octogenárias viviam em Vilas Boas: a dona Inácia, que morava num anexo da casa do Natalino Tibúrcio, filho da dona Sarminda, e a Sadelina. Lembro-me bem da Sadelina, magra, alta, lavava seus “trapinhos” no chafariz do arraial. A molecada, que hoje já se encontra nos umbrais da ‘terceira idade’, fazia troça da ‘desinfeliz’, que respondia com impropérios – sua única defesa. As três pobres negras nasceram “súditas da coroa imperial ”e eram netas de escravos. A dona Sarminda, que não tinha documentos oficiais, se referia a fatos antigos como “no tempo do cativ...

UMA CANETA BIC

Há muito que a visita do rapaz ao amigo não passava de uma promessa, pois sempre surgia algo a lhe impedir a viagem. Enfim, ele conseguiu ir. Mas fora prevenido de que aquele senhor costuma estar sem assunto. Noutros tempos, costumava chegar à sua casa algum compadre, que ficava horas na sala, sem uma ponta de prosa. O visitante fazia um cigarro, acendia, fumava, olhava lá fora, cuspia... Mas o velho continuava num silêncio monástico, mantendo as pernas trançadas, contemplando a palma da mão, brincando com os dedos ou olhando fixamente para um ponto indefinido.  E a visita resistia até que: “Então, compadre, eu vou chegar lá em casa.” “Demora mais, compadre!... Não quer mais café?” “Não, compadre, obrigado. O café tá bom, a conversa tá boa, mas preciso ir. Até logo!” “Então... até logo, compadre!” E assim, de forma tão espontânea e natural, os compadres encontravam-se e se despediam.   Sabendo disso, o rapaz, que não é tão moço, encarou o desafio e foi comigo visitar o velho amigo, que...

OS TRÊS CONSELHOS

Dia desses, perdi preciosos minutos com um vídeo que tem feito almas puras verterem as mais cristalinas lágrimas. Traz a saga de um pobre camponês recém-casado, que se despede da jovem esposa e sai à procura de trabalho. Após vários dias na estrada, ele encontra ocupação numa fazenda, onde se estabeleceria. Contratado, pediu ao patrão que todo seu ordenado fosse depositado numa poupança. Passados vinte anos, o camponês pediu as contas e o patrão lhe propôs o seguinte: “Dou-te todo o salário ou três conselhos. Se quiseres o dinheiro, não terás os conselhos; mas se quiseres os conselhos, não terás o dinheiro”. O camponês, caboclo honesto e trabalhador, mas meio pancado das ideias, ficou de pensar. Matutou a noite toda e decidiu pelos conselhos. O patrão, muito “bondoso”, como costumam ser os fazendeiros, deu-lhe três pães: dois para serem comidos durante a caminhada e um para comer com a esposa, quando chegar em casa. E os conselhos: “Vá pelo caminho mais longo, sem pegar atalhos; não d...

ASSOMBRAÇÕES

A minha infância foi recheada de histórias de assombração. Alguns desses casos pareciam verdadeiros, a fonte era confiável, mas nunca consegui acreditar nisso.  Estradas desertas, casas abandonadas e encruzilhadas eram lugares preferidos das “coisas do outro mundo”.  Algumas dessas “almas penadas” ficariam empoleiradas nas porteiras durante a madrugada. Quando alguém se aproximava, a “coisa” abria a porteira para que o andante passasse tranquilamente. Tranquilo?... Segundo contavam, o coitado partia desesperado, em desabalada carreira. Chegando em casa, pedia que não acendessem luz; tinha que ficar no escuro por algum tempo, não se sabe por quê.     De um vizinho, homem respeitado por sua valentia, contava-se que a “coisa” montara na garupa de sua mula. O “indesejado” o acompanhou por todo o trajeto, gelando sua cacunda , até chegar em casa. O animal bufava e suava, trotando com dificuldade, pois o troço era pesado à beça.  Noutro episódio, um parente próximo teve de abandonar sua próp...

MAIOS DE ANTIGAMENTE

Como diria Machado de Assis, na minha infância já existia maio. Só que o maio da minha infância parecia ser mais doce do que os “maios” de hoje. Foi num mês de maio que minha mãe ganhou um bolo trazido da escola por meu irmão mais velho. Acostumados às broas de fubá com erva-doce, aquele presente causou alumbramento em casa, pois foi a primeira vez que, crianças, comíamos bolo. Lembro do gosto de baunilha, que eu nem sabia que era baunilha. O pratinho de papelão ficou por tempos em casa, exalando aquele aroma de “bolo das mães”. Foi naquele dia que fiquei sabendo que as mães têm um dia só seu, e que poderia ser comemorado com um bolo de baunilha.   Em maio havia a colheita do arroz-de-abril – uma variação dos inúmeros arrozes que existem e que cultivávamos – cuja planta de cana longa produz exuberante cacho com grãos dourados e esguios. Parece que o arroz-de-abril não era muito apreciado pelo mercado. Mas não me importam as pretensões do mercado, que exporta; importa-me o arroz, que nu...

CAÇA À JARARACA

O arredio leitor não se assuste. Não farei uma defesa apaixonada de Lula neste “ensaio”, mas também não lhe farei ataques, pois de safanões ele não carece e deve estar com o lombo ardendo de tanto apanhar. Ademais, o meu político favorito nem é brasileiro, mas uruguaio. Gosto do “Pepe Mujica”. Aquele, sim, quando no exercício do mandato, manteve a simplicidade, dirigindo seu fusca e continuou morando no mato, numa chácara da família. De seu ordenado como presidente do Uruguai, noventa por cento eram doados para instituições de caridade. Se atualmente meia de dúzia de nações estivessem sob o comando de “Mujicas”, a humanidade estaria curando suas chagas e se redimindo de seus males.   Volto ao Lula. Essa “jararaca” é o alvo da caçada que se empreende. As miras do Judiciário, no entanto, não estão no homem, mas sobre o que ele representa. Há contra Lula mais de uma centena de ações em diversos tribunais espalhados pelo País. Enquanto não o puserem sob ferros ou o impedirem de disputar el...

O REBANHO EM PERIGO

Artigo publicado no jornal "A Tribuna", edição de hoje.   “Escreva algo positivo no jornal. Tem dia que atendo confissões por até quinze horas, celebro missa no cemitério, faço tantas outras coisas... e você vai ao jornal só para criticar?! Vá lá, escreva alguma coisa boa, que os católicos agradecem!” Assim, o pároco da catedral de Amparo interrompeu a sessão de abraços, fartamente distribuídos aos fiéis numa extensa fila após a missa matinal no Domingo de Páscoa, para me dar esse pito.   Penso ser desnecessário dizer publicamente, mas admiro o trabalho do padre Anderson à frente da Catedral. Amável, discreto, exigente e comprometido, esse jovem sacerdote exerce com louvor seu ministério. Suas celebrações são concorridas, sobretudo pelos jovens, que não suportam delongas – aquelas missas intermináveis. Além de pastor zeloso, é um destacado administrador do rico patrimônio histórico sob sua responsabilidade, cuja manutenção é feita com singular desvelo.   Justiça seja feita ta...

DESÂNIMO

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      Desacorçoado. Assim me sinto perante a juventude, de quem Luiz Melodia disse ser ‘transviada’. Não sei se o poeta tinha razão, mas um desalento ameaça nosso futuro. Para onde descaminham essas massas?   Lido com jovens de classe média baixa desde “tempos imemoriais” e cada vez mais me surpreendo. Afora as exceções, das quais me nutro, muitos são tíbios nos estudos, lassos nos costumes, uns desapiedados.   Dia desses na sala de aula, ouvi algo apologético à pedofilia. O rapaz – que atraía para si a curiosidade e admiração de muitos colegas – ao ser repreendido, retrucou com júbilo: “Sou de menor , o que vão fazer comigo?...” “Mas você já responde por isso, pois tem quase dezoito anos!...” Tentou continuar, mas, na possibilidade de o caso ser levado adiante, aquietou-se.   Para muitos, as aulas são maçantes, desinteressantes, enfadonhas. Alguns pedagogos (demagogos) costumam responsabilizar os professores pela má gestão das aulas, resultando no insucesso da aprendizagem. Essa, por...

CARNE AMARGA

Não fui consultado sobre o que penso da ‘Operação Carne Fraca’ que abalou o País, mas estou dando meus palpites. De início, estranhei o nome “carne fraca”, que me fez lembrar o apóstolo Pedro num franco desabafo ao Mestre. Pedro tinha o ‘espírito forte’, mas admitiu ter a ‘carne fraca’. De minha parte, não sei se minha carne é forte o bastante para trabalhar até os sessenta e cinco anos como quer o “ogro do Planalto”, mas o meu espírito é bem fraquinho e tem passado por muitos perrengues ao longo desses anos.   Deixando de lado a “franqueza  petrina ” e voltando às mazelas verde-amarelas, parece que os policiais federais acharam carnes estragadas, e carne estragada não é carne fraca, mas podre. Se a operação não pôde ser batizada com o sugestivo nome de “Carne Podre” é porque algo ainda mais putrefato ocorrera com as autoridades.     A mídia não destaca, mas está também em curso a ‘Operação Carne Fria’. Nesse trabalho, a PF investiga negócios entre pecuaristas de áreas ilegalmente desm...

ÓLEO NA PISTA

Publicado originalmente em 16/12/2011 - blogdofilipemoura   A tarde escorria insuportavelmente quente e preguiçosa. Interrompi uma leitura e vagueei pelo prédio nu, desprovido de sua matéria prima: os alunos. Lá fora, um pequeno grupo se formava em torno de um homem traído por sua moto, que lhe deu uma rasteira e o estatelou no chão – felizmente não se ferindo. Houve certa agitação, alguém ligando para os Bombeiros, ou para a Guarda etc. Passados alguns minutos e já resolvido o problema do desafortunado motoqueiro, saí para observar as coisas e “investigar os seus porquês”. Um colega estava parando os motoristas, a fim de alertá-los quanto ao óleo derramado no “leito carroçável” ou “pista de rolamento” – conforme dizem as autoridades –, mas para nós, os comuns, é rua mesmo. Ou chão da rua, para ser exato.   Compadeci-me do amigo. Estava vermelho e sua “laje”, luzidia e descoberta, parecia estorricada pela inclemência do sol. Quis ajudá-lo, alternando com ele. Ora ele orientava, ora eu....

UMA CORRESPONDÊNCIA

Meu querido irmão Filipe, paz e bem!    Que bicho estranho eu sou, né? Você até se antecipou ao meu aniversário e eu, nada!    Mano, muito lhe agradeço as palavras de sincero afeto por ocasião de meu natalício! A gente é humano e se alegra pela amizade e pelas expressões de carinho, sobretudo quando são expressões da alma! Estou muito feliz de chegar aos 44! (um pouco preocupado também, é verdade... Tô ficando velho e às vezes isso assusta! Coisas para integrar!)    Mano, como de outras vezes, consegui passar uns dias, durante o meu níver , no Morro [um eremitério], lá em Guarapuava. Dessa vez foi bem diferente, pois fiquei sozinho. Na primeira noite, fiquei meio receoso (ansioso). Me c huchei cedo debaixo das cobertas – na verdade, o meu mantéu de frade. Não levei cobertor, pois achei que lá já teria, ou quem sabe..., é verão ainda e estaria mais quente. Passei um frio danado. Aos poucos, fui me acalmando e só não dormi melhor mesmo, devido ao frio. No segundo dia não pousei lá, mas ...

BANANA-MAÇÃ

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Um ano atrás, ganhei de meu pai uma pequena plantinha, que embrulhei com muito jeito num jornal e pus dentro da mochila com cuidado para não a sufocar. Não há criatura mais vulnerável do que uma mudinha de banana, principalmente se ela está dentro de uma mochila e se essa mochila está com alguém displicente, que quer transportá-la por centenas de quilômetros.   Meu pai pegou essa muda onde existe uma rústica plantação de bananas-maçãs, ainda dos tempos de meu avô paterno. E o pequeno filhote chegou ao destino, ganhando como bercinho um vaso bem adubado. Então, entre mimos e regas, a primeira folha despontou minúscula, num desanimado verde-abacate. Depois, com outras folhas já num verde mais pronunciado, a menina foi se animando, refolhando-se e se vestindo, até ser necessária sua mudança para o solo, onde se emancipou. Seu novo lar foi numa encosta, próximo a um pé de manga-espada, que por aqui se diz manga-bourbon. A anfitriã mangueira, uma exuberante “pré-adolescente” que também veio...