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Mostrando postagens de 2018

SOZINHO NO NINHO

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O casal de juritis chegou devagarinho à minha varanda. Um deles pousou no muro, deu uma espiada pra cima, pra baixo e pros lados. Melhor vasculhar as cercanias, vai saber se não tem um gato por perto?... – pensou. O namorado aproximou-se mais, aninhou-se num vaso de samambaia e fez a corte. Seus movimentos circulares, contudo, não animaram a companheira, que continuava olhando de longe, ressabiada.  Essa coisa não vai dar certo, tenho medo – deve ter pensado a prudente pombinha. No dia seguinte, já havia uns gravetos amontoados pelo noivo que, embora galanteador, parecia não ter muito jeito para a coisa. A noiva, no entanto, não se animou nem um pouco com aquela gambiarra, e ameaçava abandonar o recinto, inclusive o consorte.     Entre humanos, já ouvi dizer, as mulheres têm queixas semelhantes às daquela pombinha. Mas há quem diga serem elas umas eternas revoltosas: reclamam da vida e de tudo, e nunca se dão por agradadas. Mas a pombinha tem razão, porque o seu pretendente é mesmo atr...

JORGINHO

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Jorginho era a síntese do caboclo mineiro: desconfiado, de fala mansa e arrastada, perguntador e sabido. As suas perguntas, contudo, não eram inconvenientes.  De longe, quando eu ainda enfrentava a cerca de arame farpado que delimita seu cantinho, já ouvia: “Quando você chegou?” Depois de nos cumprimentarmos, outras perguntas viriam: “Quando você vai embora? Ah, você vai ficar uns dias aqui, né?” Também a clássica: “Será que vai chover?” A resposta que sempre dou a esta última é profundamente filosófica. Percorro os céus com um olhar perscrutador à procura de uma benfazeja nuvem e arremato categórico: “Rapaz... Sei não.” Mas, conversa vai, conversa vem, perguntas mais complexas também se ouviam do amigo. “E esse homem da eleição, o presidente, o que acha dele? Será que vai dar certo?...”, indagou-me desta última vez. “Você, que votou no homem, deve saber”, provoquei. “Não, eu não votei nele não. Pra mim ele gosta é de gente rica, de estrangeiro. De pobre é que ele não gosta mesmo.”    ...

ENQUANTO SE PODE ACHAR

O tempo é ligeiro. As horas passam, os dias vão. Os meses, os anos, os séculos – todos voam em velocidade de cruzeiro. Com eles, vamos todos passando, desfilando pela vida rumo ao desfiladeiro que nos aguarda. Por isso, uma visita aos pais, ao amigo, ao irmão, ao parente distante é algo que não se pode postergar. Se o hoje existe, o amanhã é uma incerteza. De presente, temos o ‘presente’; o futuro é miragem.   Rabisco este texto numa madrugada na casa de meus pais, que estão velhinhos. Velhinhos, mas felizes. Felizes e saudáveis. E a alegria desse reencontro é um indescritível sinal do Reino. O dia desperta ao som de galos, grilos e sapos na lagoa. Uma carimbamba, lá nas encostas, participa deste alvorecer com sua clássica cantata: “ Amanhã eu vou, amanhã eu vou, amanhã eu vou ”. Talvez ela saiba que amanhã estarei com meu irmão mais velho, o Mano Véio – já ‘sessentão’ e que parece nunca abandonar a juventude. Depois de amanhã, reverei dois amigos: um não vejo há algum tempo, o outro a...

PEREIRÃO

Cheguei lá à tardinha. A porta estava aberta, a tevê desligada e a sala vazia de gente. Os cães, sim, estavam por ali, mas estranhamente quietos. A brancura daquele silêncio permitiu que eu ouvisse vozes sussurradas vindas das profundezas do corredor – da cozinha, talvez. Dei uma batidinha na porta e fui entrando, como de costume.  Uma mulher, que eu desconhecia, veio ao meu encontro, olhando-me desconfiada.  Perguntei pelo meu amigo. Ela respondeu que estava no quarto e quis chamá-lo. Acudi dizendo que o deixasse, que eu iria até lá. Fui incisivo, mas ela se adiantou, acendeu a luz e o despertou. O amigo estava deitado, tentando disfarçar o sono interrompido quando me viu. Com os olhos feridos pela luz, tentou sorrir, falando com indisfarçável dificuldade. “Como tenho sofrido esses dias...” Pensei no diabetes e perguntei: “Não está bem de saúde?” “De saúde até que estou bem, mas é muito aborrecimento.” “O que lhe aborreceu?” “Meu neto está preso.” “Ah, é?! Mas o que foi que houve?” Aq...

O TRIUNFO DO TERROR

Mal se equilibrando sobre as patas, um velho cãozinho vagueava pela rodoviária. Mais à frente estava o dono do animal, um senhorzinho também de muitos dias. “Ele tem dezessete anos e eu oitenta e cinco. Nós sofremos, viu... é duro ficar velho.” Aproximei-me daquele homem e quis conversar um pouco, quis ouvi-lo. Ele pegou uma sacola que estava no banco ao lado e pediu que eu sentasse. “Qual é o seu nome?”, perguntei. “Armando. Armando Pires. Esse cachorro é meu. Eu morava em São Paulo e adotei uma cadelinha chamada Biloca, que teve cinco filhotes. Ela foi envenenada e, quando vi, já não dava mais pra salvá-la, porque já estava morrendo. Vi ela morta e os cachorrinhos mamando nela... Deu uma tristeza danada. Aí eu cuidei dos bichinhos, que viveram muito tempo comigo. Este aqui é o último e já vai fazer dezessete anos dia (...).”   O homem queria conversar mais, mas meu tempo era curto. Tinha que voltar pra casa, terminar um texto para o blog – que decidi trocar por este. “Olha, muito pra...

A VIÚVA ÓRFÃ

É domingo, dia do primeiro turno das eleições – se é que haverá um segundo turno (há), ou se é que haverá outras eleições neste país (não se sabe). Pôs roupa nova, foi bonito para a urna eletrônica, porque talvez vá para uma outra ‘urna’ sem que nunca mais vote.   Na fila de votação, começou a ler o jornal. De súbito, alguém atravessou a sua frente e foi logo dizendo: “Uai, ocê tá aqui?” “Sim, vim votar” “Se fosse mais velho, não ficaria na fila... Eu já votei.” Olhou para aquela mulher. Ela estava com um cão, que esticava a guia impaciente, querendo sair logo dali. Mas ela, sem pressa, puxou para si o cão e deitou falação: “Aquela fedepê da juíza me chamou lá e me disse muito desaforo. Ela quer que eu pague pensão pra minha sobrinha-neta, mas eu não posso pagar. Eu já pago tanta coisa, tantas contas dela, e isso há dezesseis anos já. Mas a fedepê da juíza me disse umas boas. Falou que vai investigar minha vida, que vai ver o que tenho de dinheiro e vai me obrigar a dar pensão pra m...

A ORDENHA

Ele chegou cedo, com o céu ainda estrelado, conforme costume. Encostou a moto, pegou os baldes e se dirigiu ao curral para a ordenha. As vacas não estavam por perto como sempre ficam, mas isso não lhe pareceu anormal. Entrando no curral, percebeu que uma das porteiras estava mal fechada. Parece que alguém entrou e pôs a tranca de forma diferente, teria pensado – ainda que não se assombrasse com isso. Pegou, então, uma pequena aguilhada e se dirigiu ao rebanho, chamando as vacas, cada qual pelo seu nome. Começou pela Boneca, depois Estrela e Açucena. Seguiu-se com a Roxinha, Princesa, Paixão... Todas foram nomeadas, mas desta vez algumas não lhe obedeceram. Estavam aflitas, assustadas, muito estranhas. A custo, conseguiu levá-las ao curral para, enfim, ordenhá-las. Nisso o dia já estava quase claro, dando para divisar melhor cada rês.   A produção naquele dia pareceu-lhe minguada, só um “pinguinho”. As vacas não soltaram o leite, como sempre fazem. Os pastos estão um pouco secos... talv...

E VEIO O MANO VÉIO!

Alegroso e proseiro , ele chegou à noitinha quando eu já havia saído para o serviço. Às altas horas quando retornei, já estava recolhido, dormindo o suave sono dos santos.   De manhã, às cinco, levantei-me. Às seis, pontualmente, ele chegou à sala onde eu estava fazendo minhas preces. “E aí, Filipão, bom dia. Tá rezando?”  “Sim, estou me preparando para a lida”. Ele permaneceu um pouco na sala, falou alguma coisa e saiu. E eu pulei algumas orações, porque o tempo avançava. Minutos depois eu estava ao fogão, preparando o café. “O que você toma?” “Chá. Chá com leite.” Estranhei a insólita combinação ‘chá com leite’, mas meu irmão sabe das coisas e cuida da saúde como poucos. Preparei-lhe o chá com leite, que ele tomou adoçado com açúcar mascavo. “Eu prefiro o demerara, que é menos calórico”, disse enquanto sorvia com avidez o chá “mascavado”.      Saí, quase atrasado, e deixei o mano às voltas com um mamão. Gosta de frutas, mesmo que estas lhe sejam servidas após o café. “Não vai perder...

VIDAS INTERROMPIDAS*

Por uma estranha razão, o ‘aborto’ voltou a dominar o debate nacional. O tema, que deveria ser assunto do Legislativo, entrou na agenda do Judiciário e daí veio a inflamar “lares e bares”. Não me parece tarefa fácil defender algo tão delicado como a “interrupção de uma vida”, até porque a decisão de abortar só pode ser tomada por alguém que teve a felicidade de não ter sido abortado.   Dentre os vários artigos publicados sobre o aborto, os jornais trouxeram recentemente alguns números inquietantes. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, 14% das mulheres ‘não mães’ não desejam ter filhos; 14% dos brasileiros defendem o aborto em qualquer situação; 59% dos entrevistados não querem mudança na lei – que permite aborto em alguns casos; mas 58% das pessoas ouvidas acham que a mulher que fez aborto deve ir para a cadeia. Essas estatísticas, sombrias e desconexas, causam-me profundo mal-estar.   Que a vida surge a partir de um óvulo fecundado parece ser consenso entre pessoas minimamente sensatas...

HONESTIDADE

À noitinha, ele parou em frente ao portão, mas não tocou a campainha. Bateu palmas. “Oi, eu sou morador de rua e vim pedir ‘um real’. Ah, primeiramente parabéns porque hoje é Dia dos Pais. O senhor é pai?” “Sim, sou pai, mas dinheiro... um real? Sei não...” “Me dá um real, moço. Eu sou um desgraçado de um pingaiado e quero comprar uma cachaça, mas não tenho um puto no bolso! Tô sendo sincero, pois mentir é feio. É pra comprar pinga mesmo.” “Eu vou lhe dar dois reais.” Peguei uma cédula de dois reais, examinei com cuidado para ver se era mesmo de ‘dois reais’ e dei ao pedinte. “Olha, eu fico muito agradecido. Cê fez uma caridade prum morador de rua. Eu tava bebendo este perfume aqui (ergueu algo semelhante a um frasco), porque é difícil ficar sem a danada. Obrigado mesmo. Valeu.”   O homem não foi apenas sincero, foi honesto também. Não trapaceou dizendo estar há uma semana sem comer, que a mulher está acamada há meses e que o filho acaba de ser atropelado por um drone. Não, ele a...

DONA IDA

A Capela de Nossa Senhora das Dores estava quase vazia. Numa urna, defronte ao altar, o corpinho de minha amiga repousava sereno quando amigos e parentes foram chegando pouco a pouco. Aproximei-me devagar e a vi. Seu rosto, agora livre das fadigas terrenas, expressava uma ternura angelical. O pequeno sino tocou e o sacerdote entrou reverente para dar início à celebração.  E nesse momento, exaltou o nome de dona Ida: “Mulher de muitas virtudes e de oração, dona Ida é digna de ornar-se com o terço que traz nas mãos!”. Sim, o padre Carlos tem razão. O terço foi companhia inseparável de dona Ida desde a infância. Nas visitas que eu fazia, nunca a vi sem o tercinho. Muitas vezes eu a encontrava adormecida, numa espécie de êxtase, mas numa das mãos estava lá o pequeno rosário.   Essa minha amiga viveu os últimos cinco anos cega e surda numa cadeira de rodas. Quando eu chegava, ela costumava perguntar quem sou. Mas na impossibilidade de me ouvir ou me enxergar, desistiu de fazer essa pergunta...

A TARDE VEM

“ Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto ”, disse Isaias, o mais poético dos profetas. De minha parte, ignorante nas Santas Escrituras e nas demais escrituras nem tão santas assim, tenho andado à procura do Senhor, mas não só. Procuro os amigos, próximos ou distantes. E vou desviando dos inimigos, alguns muito próximos.   Desta vez fui a Minas, que ainda teima em existir, e pude ver meus pais – já um pouco idosos, porém lúcidos e saudáveis. Revi colegas de infância e parte da irmandade – “apenas" seis dos onze que somos. Não alcancei dois amigos, que partiram antes de minha chegada. Mas revi uma amiga, que partiu logo após eu chegar e com quem troquei poucas palavras. Estava cansada, mas receptiva. Fizemos uma prece, talvez a última dela. Houve desses momentos de tristeza profunda, porque os amigos não são para sempre.   Senti falta do seu Jesus, um velho carapina a quem eu conhecia como Jeso . Da outra vez ele me contou pedaços de sua vida sofrida:...

INTELIGÊNCIA E HABILIDADE

Muito já se estudou sobre a capacidade que o ser humano tem para dominar a si, a natureza, os recursos naturais... e o seu semelhante! A isso, convencionou-se nomear ‘inteligência’ e o homem se autodenominou um ‘animal inteligente’. Há pouco mais de trinta anos, porém, o americano Howard Gardner, pesquisador de Harvard, ficou famoso por propor a teoria das Inteligências Múltiplas. Segundo Gardner, não há apenas uma, mas nove inteligências. Pedagogos, esses mestres sem discípulos, amam referir-se as tais ‘inteligências’ como também amam citar Gardner em suas falações. É chique falar de assunto “top”, e muito mais chique é citar um autor “top” como aquele aclamado cognitivista, que se tornou guru dos pedagogos e oráculo dos cursos de pedagogia.   De minha parte, não tendo pisado em Harvard, não sendo pedagogo nem possuindo sequer uma das ‘nove inteligências’ enumeradas por Gardner, discordo desse premiado doutor. Atrevo-me a dizer que não há ‘inteligências múltiplas’, mas ‘habilidades mú...

VAI, BRASIL!

São exatamente sete horas da manhã de quinta-feira. Estou numa sala de aula fria e sem alunos quando ligo um pequeno notebook. O antigo, o ‘titular’, começou a falhar, como têm falhado os titulares das seleções que espraiam nos gramados russos nesta Copa – exceto o CR7.   Um professor entra na sala e faz breve reflexão sobre a vida, o trabalho, os embaraços da profissão e fala também sobre o abandono da educação, o desperdício de material didático etc. Livros caríssimos são descartados ainda dentro da embalagem – assim ele os recebe em uma fábrica de papelão onde trabalha à noite. Não fala sobre a Copa do Mundo, mas lamenta o mau humor dos brasileiros. Após breves e introspectivas lucubrações, conclui: “As pessoas estão amarguradas”. Concordo com o colega e volto ao teclado.   Por falar em Copa do Mundo, no segundo dia de jogos, eu estava na casa de um amigo, a quem visito regularmente, quando na TV passava Portugal e Espanha. Contra o esquadrão espanhol havia Cristiano Ronaldo que, so...

O PAPA CONTRITO

Vivemos um tempo de aguçada polarização ideológica com duas vertentes contrapostas: “gente do bem” versus “gente do mal”. Ironicamente, os autodenominados “do bem” se parecem mais malévolos do que seus adversários supostamente “do mal”. E de uns tempos para cá, aquele antagonismo histérico, que se estabelecera na seara política, migrou para a religião. É o que assistimos particularmente entre católicos, onde os ânimos estão cada vez mais exaltados. A CNBB e o Papa Francisco têm sido continuamente atacados pelas tais “hostes do bem”.   Chama atenção o episódio envolvendo casos de pedofilia no Chile, praticado por padre e acobertado por bispo. A pedofilia, essa pestilência putrefata incrustada na humanidade desde tempos imemoriais, também está presente na Igreja. E o clero católico, embora humano, tem o divino dever de ser exemplo para seus fiéis e jamais poderia condescender com o crime. Mas no caso do Chile, o Papa Francisco tem sido injustamente acusado de omissão. Houve até quem dis...

TRISTE CENA, TRISTE SINA

A policial saca a arma e mata um bandido em frente à escola de sua filha. O momento era tenso, perigoso, havia muitas vidas em risco e parece que a agente cumpriu sua obrigação. No dia seguinte, o governador-candidato já estava faturando. Homenageou a policial com discurso e buquê de flores, e sentenciou garboso: “Quem ofender um policial corre risco de vida, pois a farda é a extensão da bandeira do estado!”   O discurso do governador está bem ajustado ao presente, quando uma onda ufanista se avoluma, mas se encaixa no pretérito também. Descobriu-se recentemente que os governos militares autorizaram a execução de “inimigos políticos”, contrariando, pasmem, a orientação dos Estados Unidos. Na época houve, inclusive, um incidente diplomático entre os dois países devido à rebeldia do governo brasileiro, descumprindo o recomendado.   Mas será que aquela policial agiu prudentemente? Soube-se depois, como era de se esperar, que o bandido não estava só. Ao menos um de seus comparsas já foi id...

A VELHICE

A velhice vem chegando, mas não de mansinho e arrastando as pantufas, como querem uns. A velhice tem pressa.   Não faz muito tempo, eu era um menino de ‘pés descalços e calças curtas’. O curso primário, que comecei aos seis anos e que parece ter sido ontem, fiz usando apenas duas peças: calção e camiseta. Para a solenidade de entrega do “diploma do quarto ano”, papai, orgulhoso de mim, pegou um casaco militar que ganhara de amigos e o deu a uma de suas irmãs para transformá-lo na minha primeira calça comprida. Até hoje eu me lembro do desconforto: as pernas, antes livres, agora embrulhadas no tergal que lhes embaraçava o movimento. Foi uma revolução para um corpo ainda “implume”, um marco, o rito de passagem da infância para a juventude. Com aquelas calças compridas eu me sentia um homem-feito antes dos dez anos.   Com os primeiros ventos da mocidade a roçar-me o buço, já comecei a me preocupar com a velhice. Não queria rugas, cabelos brancos e os demais “assessórios” reservados aos pr...

RUPTURAS

Rupturas acontecem ao longo de uma existência: vida mais longa, mais rompimentos. A velha aritmética demonstra isso, e convence. Entre os muitos enlaces e desenlaces, há entrelaçamentos de frágeis estruturas que trincam, vergam e desmoronam ao sabor das mais amenas emoções. Tudo parece ir bem, sem esforço, mas sempre da ordem para o caos – conforme manda a ‘entropia’.   Rupturas acontecem entre colegas, vizinhos e, acredite, ‘amigos’ de redes sociais. Aliás, essa forma de amizade parece tão sólida quanto uma paçoquinha. Eventualmente há nessas mídias alguma solidariedade, vale registrar. Todavia, a convivência cotidiana é o grande teste a que todos nos submetemos, e nele sucumbimos.   Romper-se com amigos ou familiares é rotineiro e dolorido. Não há por que comemorar o fim de uma proximidade, mas, apesar desses tropeços, a Terra continua em seu bailado girando, girando. E a vida segue sua trajetória curva. Nós, rápido ou devagar, vamos passando a passeio.   Uma fratura conjugal é a mai...

CENAS URBANAS

Manhã ensolarada de terça-feira. Após meu primeiro turno de serviço, deixo a escola, subo a rua que margeia a Praça São Benedito e sigo em direção à igreja. Estou criando uma rotina de passar lá todos os dias no final da manhã. Na praça, dois jovens “queimam matinho”. Passo lentamente e disfarço a observação. Eles me olham sem disfarçar, mantendo um riso contido, dando impressão de que me conhecem. Claro que sim e eu me lembro de um deles na escola. Valentão, sempre foi um sujeito desaforado – como diziam os antigos de minha terra sobre tais tipos. Esteve preso por algum tempo, mas “a liberdade voltou a cantar”, conforme verseja a “poética cadeeira”.   Subitamente, uma viatura da GM aparece na descida. Os policiais vasculham a praça, espetam os olhos na dupla, estacionam em diagonal, descem do carro rapidamente e gritam: “Mãos pro alto!” Olho para os “manos”, mas eles não me olham mais. Estão ocupados, vestindo a camisa e vão ‘vazando de fininho’, como se ordem não lhes fosse dada. Os ...

LULA

Hoje é um dia triste para mim e, por isso, quebrando a tradição, escrevo fora do cronograma habitual. Para muita gente, no entanto, este é um dia de júbilo porque, finalmente, Lula, o “grande satã”, vai para as grades. O mais triste é ver pobres, beneficiários dos programas sociais do PT, comemorando o calvário de Lula. A mídia, essa entidade “onipotente”, “onisciente” e “onipresente”, faz desses “milagres”.   Não quero discutir erros do Lula nem do PT. Certamente houve, e muitos. Mas, e os acertos... não contam?  Quantas vidas foram salvas naquele período de 13 anos de Lula e Dilma!... A fome foi praticamente extinta com o Bolsa-Família; o Pró-Uni colocou milhares de jovens nas universidades particulares; as cotas para estudantes de escolas públicas nas universidades federais; o ‘Mais Médicos’ prevenindo e curando doenças do povo da periferia e do sertão; linha de crédito para pequenos agricultores; o Minha Casa, Minha Vida; o incentivo a cooperativas rurais, e muito mais.   “Decisão ...

MISTÉRIOS

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  A imagem que ilustra esta crônica pareceu-me intrigante. Antes que o leitor escorregue distraidamente pela página, sugiro que volte os olhos para a foto e tente decifrá-la. O que está ali?... Após examiná-la, continue a leitura. Ao final deste “tobogã”, outra imagem o aguarda para fechamento do texto.   Confesso ao ‘ausente leitor’ minha dificuldade para acreditar em milagres, que acontecem, mas sem estardalhaços. A tecnologia, por exemplo, é um milagre do engenho humano – apesar da horrorosa ‘tomada de três pinos’! A tríade (vida, morte e ressurreição) é o mais sublime dos milagres – obra-prima do Criador. Mas há outros ‘sinais’ que nos inquietam cotidianamente.   A história é a seguinte. Uma amiga, freira por mais de trinta anos e a quem chamo carinhosamente de ‘Irmãzinha’, deixou o convento. Houve desentendimentos com a “chefia”, dos quais não tenho ciência, mas dou “carradas de razão” à amiga, que não se ocupa de outra coisa senão rezar e fazer o bem. Eis uma autêntica ‘irmã de c...

A IRMÃ MAIS VELHA

Escrever sobre a “Irmã mais velha” exige tempo, zelo, memória e o talento de um escritor que não sou. Ouso, contudo, pôr nesta página pequenos retalhos da vida dessa singular figura, que não teve uma infância ajardinada e multicolorida como toda criança deveria ter.   Muito cedo, ela teve de assumir compromissos domésticos – ao suceder à mãe impossibilitada pela enfermidade –, começando a fazer nossa comida, lavar as roupas, cuidar da casa e dos irmãozinhos. Por ser ainda tão pequenina, não conseguia alcançar as panelas sobre o fogão, também pequeno. Então, meu pai teve de improvisar, pondo um caixote de madeira para que nele subisse e pudesse manusear conchas e escumadeiras.   A nova cozinheira trouxe-nos conforto, oferecendo-nos refeições nas horas devidas, mas a menina custou a se organizar, atrapalhada que ficava com o serviço se avolumando cada vez mais. De manhã, quando papai se levantava para fazer o café, ainda havia vasilhas no fogão para serem lavadas. O pai ficava confuso, p...

COISAS DA JUVENTUDE

Ele não estava na sala quando cheguei, onde sempre o encontro nas tardes de sexta-feira. O neto me disse com voz ‘aguada’: “O vô tá no quarto, professor ! Voô! Vooooô!”. Chamava o avô, caminhando a passos bambos e seguido por mim até ele.   No quarto abafado, sobre uma cama-box sem lençol, estava o velho. Sem camisa, o suor escorria sobre seu dorso, que brilhava. O quarto pequeno, sem móveis, parecia amplo, enorme até. Na parede, uma foto de seu casamento, e na soleira do vitrô, um anjo. Não havia guarda-roupa porque as roupas, sendo-lhe escassas, cabem todas na gaveta da cama. Pedi um pano para lhe enxugar o rosto, mas o rapaz não sabia onde tinha pano. “Mãe, onde tem pano?”, gritou. “Pegue um papel mesmo”, pedi. “Aqui, o papel e o pano... Toma! Se precisar de mais coisa é só falar!” Saiu. Segundos depois, voltou: “Se precisar, é só chamar... Taaá, professor ?”   Deitado no colchão, o homem estava inquieto, abrindo e fechando os olhos, num sono perturbado. Tinha diarreia e sua bermuda...

O CENTENÁRIO DE AURÉLIO

Aurélio de Moura, meu saudoso avô materno, teria feito cem anos no último dia 12 de fevereiro. De vida frugal, sofrida e solitária, vovô foi um homem doente, e por diversas vezes levado ao Colônia – um hospital psiquiátrico em Barbacena tristemente retratado no livro “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex . Quando internado, trabalhou duro cortando lenha, dando banho em pacientes e ajudando a pôr cadáveres em caminhões – que chegavam a dezenas por dia. Naquele tempo, havia por lá as abomináveis sessões de eletrochoque e, segundo diziam, um temível “chá da meia-noite”. Sobrevivendo aos choques e sem tomar o “chá”, vovô sempre voltava do Colônia mais gordo, de cabeça raspada e queimado de sol. Lacônico, guardava para si as muitas histórias daquele ‘manicômio’.   Uma sutil mudança de comportamento indicava a fragilização psíquica de meu avô. Começava insone, perambulando pela casa ao lume de uma lamparina; depois, punha uns óculos de sol e saía pelas redondezas, fazendo rápidas visitas...