Postagens

Mostrando postagens de março, 2024

NA SORVETERIA

Imagem
Noutros tempos eu gostava de me amoitar num cantinho de boteco para ler, escrever ou simplesmente observar as pessoas que entram e saem – e também aquelas que nunca saem. Eu me divertia vendo um ébrio encostado no balcão com um copo de cachaça pela metade, mirando o líquido numa contemplação apaixonada e sem fim. O homem pega o copo, dá uma balançada na pinga, mas desiste de beber, deixando novamente o copo no balcão. Olha meio desconfiado para o lado, dá dois ou três passos em direção à porta, mas volta para seu cantinho e fica novamente namorando a pinguinha, que parece ser boa.     Antigamente a cena com o manguacinha no boteco era mais pitoresca. Naquele tempo, o sujeito tinha a liberdade de acender o cigarro, mas para isso teria que usar uns três palitos de fósforo: um quebrava na primeira riscada; o outro palito caía e ele, por razões óbvias, não conseguia pegá-lo; com sorte, era bem-sucedido na terceira tentativa. E os copos... ah, preciso falar disso. A cachaça foi feita pra s...

ELA SE FOI VESTIDA DE BRANCO

Imagem
Vivi com minha mãe os seus últimos momentos. Nunca, jamais pude imaginar que seria eu a pessoa a estar com ela em sua hora derradeira. Uma profusão de pensamentos me tonteava naquele começo de noite do dia 29 de fevereiro. Mamãe inerte, respirava silenciosamente com o oxigênio no fluxo máximo.   Eu tinha à disposição uma poltrona confortável, mas preferi uma cadeira de plástico, porque eu sabia que naquela noite eu não poderia cochilar. E numa cadeira menos confortável, provavelmente eu velaria o sono de minha mãe sem que dormitasse. Naquelas horas aflitas, eu me dividia entre a mamãe e o celular, de cuja telinha brotava um jorro interminável de mensagens, muitas não respondidas. Eram irmãos, parentes e amigos que queriam saber como ela estava. Eu não imaginava que aqueles seriam os instantes finais de minha mãe. Naqueles minutos, que depois eu saberia serem os últimos, enquanto eu observava a respiração e a temperatura da minha mãe, a minha irmã mais velha costurava o ‘vestido branco’...