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Mostrando postagens de dezembro, 2019

SOB FLECHAS

Ao final de cada ano letivo tenho o mau costume de pedir aos alunos que avaliem meu trabalho. Pego uma folha sulfite e a divido em oito partes iguais, dando um pedaço de papel a cada aluno. Num lado, peço que escreva sobre este professor; no outro, sobre o próprio aluno. Sugiro que fiquem à vontade para espinafrar o professor, e que o façam anonimamente. Obedientes, pelo menos nesse momento, os alunos não perdem tempo. Após isso, peço a um deles que recolha os papeizinhos, que separo por classe de forma que eu fique sabendo o que pensa de mim determinada turma, mas não o aluno.   Para mim não é tarefa das mais prazerosas ler as impressões de meus alunos sobre meu trabalho, porque alguns deles, inclementes, dão-me impiedosas flechadas. Já aconteceu de tudo. Houve um tempo em que eu usava chicletes para mitigar minha ansiedade. E na avaliação, um deles escreveu: “Parece uma vaca velha mascando!” Velho, embora, já não me chamam mais de ‘vaca velha’, porque parei de usar chicletes. Também ...

A AULA INTERROMPIDA

Eu gostaria de escrever sobre algo pitoresco que acontece no meu jardim. No pé de mamona, que plantei recentemente e que já tem a altura da casa, um pombinho silvestre começou a fazer ninho, mas sua “esposa” não se animou com a gambiarra e ambos desistiram do projeto. Deixo para o final esse caso e vou cuidar de uma coisa chata, mas necessária.   Corria o mês de outubro. O Chile ardia conflagrado com multidões nas ruas. A polícia reprimia, atirava, matava. O povo não se intimidava e resistia. No Brasil sob chamas, ardiam as matas e seus guardiões. Em Brasília, as reformas avançavam sobre escassos direitos do povo, ficando este cada vez mais sem horizonte e sem lideranças – que foram presas, amordaçadas ou assassinadas.   Desacorçoado com o momento político que vivemos, entro na sala para mais uma aula. Nas mãos tenho um jornal, que deixo sobre a mesa. Pego um giz e vou à lousa. Paro, olho para os alunos, todos na faixa de 15 anos, e penso: “O que será desses jovens?...” E volto para ma...