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Mostrando postagens de julho, 2017

UMA SENHORINHA

“No meu tempo já havia velhos, mas poucos”, disse Machado de Assis através de um de seus personagens. Hoje há muitos velhos – podemos dizer com júbilo ou preocupação. Amparados ou abandonados, eles estão por aí... e por aqui. Alguns nonagenários; outros, porém poucos, já centenários. Convivo com uma nonagenária, mas na minha infância não conheci ninguém na casa dos noventa. Dona Sarminda, nossa vizinha, tinha uns oitenta. Outras duas octogenárias viviam em Vilas Boas: a dona Inácia, que morava num anexo da casa do Natalino Tibúrcio, filho da dona Sarminda, e a Sadelina. Lembro-me bem da Sadelina, magra, alta, lavava seus “trapinhos” no chafariz do arraial. A molecada, que hoje já se encontra nos umbrais da ‘terceira idade’, fazia troça da ‘desinfeliz’, que respondia com impropérios – sua única defesa. As três pobres negras nasceram “súditas da coroa imperial ”e eram netas de escravos. A dona Sarminda, que não tinha documentos oficiais, se referia a fatos antigos como “no tempo do cativ...

UMA CANETA BIC

Há muito que a visita do rapaz ao amigo não passava de uma promessa, pois sempre surgia algo a lhe impedir a viagem. Enfim, ele conseguiu ir. Mas fora prevenido de que aquele senhor costuma estar sem assunto. Noutros tempos, costumava chegar à sua casa algum compadre, que ficava horas na sala, sem uma ponta de prosa. O visitante fazia um cigarro, acendia, fumava, olhava lá fora, cuspia... Mas o velho continuava num silêncio monástico, mantendo as pernas trançadas, contemplando a palma da mão, brincando com os dedos ou olhando fixamente para um ponto indefinido.  E a visita resistia até que: “Então, compadre, eu vou chegar lá em casa.” “Demora mais, compadre!... Não quer mais café?” “Não, compadre, obrigado. O café tá bom, a conversa tá boa, mas preciso ir. Até logo!” “Então... até logo, compadre!” E assim, de forma tão espontânea e natural, os compadres encontravam-se e se despediam.   Sabendo disso, o rapaz, que não é tão moço, encarou o desafio e foi comigo visitar o velho amigo, que...