O ADEUS DE PITUKA

 


Foi um momento muito difícil para nós, menos para a Pituka, porque ela não tinha ideia do que estava acontecendo.

Passava das três da tarde quando entrei na clínica com essa cadelinha nos braços. Ali fui atendido pela secretária, que me conduziu a uma salinha onde havia apenas lavatório e uma mesa metálica. Depois aquela funcionária trouxe uma flanela, que foi posta na mesa, onde deitei a 'amiguinha'. A veterinária estava atendendo alguém noutra sala, mas minutos depois ela veio. Muito simpática, foi logo conversando com a sua ‘paciente, apalpando aqui e ali, enquanto me fazia perguntas e apresentava ponderações. A solução não poderia ser outra, porque a Pituka estava em sofrimento. Há uma semana ela parou de andar, não conseguindo sequer parar em pé, mas se alimentava. Ontem ela comeu menos do que o de costume e mal conseguia erguer a cabeça. Hoje ela não conseguiu se alimentar, tremia muito e parecia ter dor.

Antes de sair de casa, quando fui pegar a Pituka para levar ao carro, a Maneka sentou-se ao lado e olhou tudo contemplativa, quase premonitória. O Pitoko, sempre desconfiado, ficou à distância. O Tiziu não percebeu nada, mas esse coitado é assim mesmo: devagar em tudo.

Assim que abrimos o portão, enquanto o carro avançava para a rua, os três ficaram nos olhando lá de cima, mas num silêncio... Parece que até o Tiziu percebeu, naquele momento, que estava havendo ali uma triste despedida.

Mas preciso voltar algumas horas antes dessa partida. 

Ainda pela manhã, antes de o dia clarear, fui ver a Pituka. Inerte, ela não se moveu ao meu toque, mas seu corpo estava quente. Pensei: ela acabou de morrer, e não vou dar notícia triste à Rosana nessas horas. Tomado de tristeza, decidi fazer minhas preces e esperar o dia amanhecer para ver o que fazer.

Com o dia claro, eu ainda não havia terminado as orações, pensei: será mesmo?... Fui conferir. Não é que a ‘menina’ estava vivinha!? Talvez tenha se convulsionado, não sei.

De volta à clínica.

Então decidimos pela eutanásia. Enquanto a doutora preparava a seringa e os fármacos, eu massageava as orelhas da pobrezinha. Meus dedos roçavam aquela pelagem macia, cor de mel, enquanto uma agulha era introduzida numa de suas pernas. Ali eu tentava disfarçá-la para que ela não sofresse com a fisgada e, para isso, eu movia mais freneticamente as mãos no pescoço e na cabeça. Olhando fixamente para ela, sabendo que aquela seria a última vez, pude perceber que seus olhinhos brilhavam de contentamento, piscando a cada vez que meus dedos tocavam suas pálpebras. Naquele momento, a Pituka parecia feliz, realizada mesmo, porque o que ela mais amava na vida era carinho de mãos humanas, não importando de quem seriam as mãos.

Finalmente, aqueles olhinhos anuviaram-se.

filipe

Comentários

  1. Meus sentimentos a você e a Rosana, sei o quanto vocês gostam desses bichinhos, cuidam com muito carinho e eles são companheiros que fazem parte da família no dia a dia. Triste a despedida, que a tristeza não demore em seus corações, e que os outros três preencham seus dias com muita alegria. Abraços

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  2. Sentimentos. Gostava de ver o seu trabalho era no blix.pt

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