MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 13
24) Eu mal terminara de fazer o almoço
e a tia já se aproximou com um prato. Ela estava com fome, até porque a hora já
avançava para o meio-dia e o costume ali é de almoço mais cedo. Eu havia
preparado um pimentão, prato de que gosto muito, acrescido de feijão, arroz e um
frango meio ensopado. Fiquei temeroso de que a tia não gostasse do frango,
talvez ela o achasse salgado ou até mesmo insosso. Mas dessa vez tivemos um
‘final feliz’ no almoço, com a tia provando e aprovando tudo.
35) Houve uma vez em que as coisas não
fluíram assim tão bem. Era Quaresma, a tia comprou um bacalhau e me pediu pra
fazer. Eu disse que teria de deixá-lo de molho de um dia para o outro para dessalgar,
mas ela tinha pressa e queria comer o peixe naquela hora. “Não, não precisa
deixar de molho. É só ferventar, que o sal sai todinho. Pode fazer assim, eu
sempre fiz desse jeito...”, ela disse isso na certeza de que o sobrinho não
falharia, mas falhei miseravelmente.
Ferventei o peixe conforme ela me orientou,
escorri a água e preparei uma panela com o tempero que eu tinha à mão: alho,
óleo e só – cheiro-verde, não tinha; coentro, não havia; pimenta, nem pensar; sal
eu não pus porque suspeitei de que o peixe pudesse ainda estar salgado. Então fritei
o alho no óleo (não tinha azeite) e forrei o fundo da panela com pimentão,
cebola e tomate – azeitona não existia. Depois, por sobre esses ingredientes, fiz
um mosaico com as postas de bacalhau e tampei a panela sobre fogo brando. De
vez em quando eu abria, mexia bem devagar pra não desmontar aquele arranjo e
fechava novamente. Passados mais uns minutos, a tia se aproximou com uma
colher, abriu a panela quase que furtivamente, deu uma mexidinha, pegou alguma
coisa e saiu na direção da pia. Eu fiquei a observando à meia distância.
Animada, ela soprou o petisco, que estava pelando de quente, e o levou à boca.
Eu fiquei de olho naquela cena. Seu rosto, antes sereno, turvou-se. Em seguida,
este pobre cozinheiro recebeu a temida reprovação, que veio numa pequena frase,
mas suficiente para minar os brios de um ‘mestre-cuca’, que nunca fui. “Está
muito salgado!” “Mas tia... Eu não pus mais sal. A fervura foi insuficiente,
mas vou dar um jeito”. Nisso, ela se
recompôs e ficou na expectativa, tentando entender o que eu faria para
recuperar o seu almoço.
Fui à geladeira e peguei alguns tomates,
lavei, cortei em rodelas não muito grossas nem finas e as pus sobre o peixe.
Foram muitas rodelas de tomate, tanto que a tia me alertou: “Não é muito, não?”
“Não, tia. É o necessário para equilibrar o tempero.” Esperei uns minutos e
provei antes dela. Estava perfeito para este plebeu, mas não para ‘patrícios’
que detêm a arte de preparar frutos do mar, particularmente bacalhau.
26) Encerro esta parte com um texto
pouco inspirado, isso é sabido. Todavia, não espere o raro leitor que os demais
capítulos sejam melhores, porque não serão. Adianto-lhe que há coisas mais
aprazíveis pra se fazer ao invés de desperdiçar precioso tempo com meus delírios.
E tem mais: não pretendo parar tão brevemente, porque muitas das minhas
errâncias deverão ser registradas nas tortas linhas deste ‘memorial’.
(continua)
filipe
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