MEMORIAL DE VIAGEM – PARTE 12

 

22) Você, raro leitor, não se agaste por eu me arrastar na descrição desse meu desatino na tentativa de descer daquele telhado. Saiba que a minha aflição deve ter sido bem maior do que a sua. Nunca alguém se comprouve por passar longas horas a sol a pino sobre um telhado, refém do medo de despencar de telhas escorregadias e acossado pela sede que lhe seca todas as mucosas. Pois bem, essa era a situação em que eu me encontrava.

Num esforço, a custo, alcancei o primeiro degrau. Senti meu pé direito se firmar e, com um movimento trêmulo, consegui alcançar o outro degrau, que estava um pouco longe. Explico: a escada, além de ser “perneta” conforme já disse linhas acima, tem os degraus muito distanciados uns dos outros, o que dificulta seu uso, particularmente para quem sente pavor de altura e estando em iminente perigo como eu.

Ainda com os pés mal postos sobre os degraus e na tentativa de estabilizar a escada, que teimava em deslizar, deitei-me-sobre as telhas e fui firmando devagarinho. Pois justo agora o suor veio abundante, embaçando os óculos, e eu precisava secar as lentes. Mas com que mão eu faria isso se as duas estavam espalmadas sobre o telhado, agarrando firmemente as protuberâncias das telhas?...

Finalmente consegui descer. Ufa!

O serviço ficou pronto, não sem antes eu voltar lá repetidas vezes para levar uma telha ou uma ferramenta. Ainda bem que aquela luta agônica de subir e descer foi sendo amenizada e eu já não me afligia tanto na peleja.

 

23) Terminado o telhado, chegou a vez do banheiro. Sempre ao usar o lavatório, alguma coisa impedia a torneira de abrir, girando tudo, seja para a direita ou para a esquerda. Para usar a torneira, teria de ocupar as duas mãos: uma para abri-la e a outra para segurar o cano junto à louça a fim de que a coisa funcionasse. Havia tempos que a pia estava assim e parecia que ninguém se incomodava com ela.  Menos eu, porque aquela coisa foi me dando nos nervos. Veja se pode: uma trabalheira danada pra lavar as mãos, essa que a coisa mais prosaica de se fazer... Dessa vez nem perguntei à tia se queria ou não que eu trocasse a torneira. Ousei.

Fui à lojinha de materiais de construção, que fica a poucos metros dali, escolhi uma torneira simples, mas bonita, arranquei a antiga e instalei a nova. Depois do serviço pronto, chamei a tia, que veio desconfiada, olhando de longe. Depois se aproximou e aprovou com um sorriso e palavras de gratidão.

Passado um tempinho, enquanto eu preparava o almoço, vi a tia entrar no banheiro. Fiquei na expectativa de receber uma boa nota para o serviço, agora testado por ela. A tia demorou um pouco, e quando ela abriu a porta, perguntei: “O que a senhora achou da nova torneira?” “Eu não usei a torneira, mas deve ter ficado boa.” “Tia, a senhora foi ao banheiro e não lavou as mãos?!” Constrangida, a pobrezinha se desculpou, apontando para um frasco de álcool sobre a mesa. “Eu uso álcool pra lavar as mãos. Esse aqui é muito bom. Antes tinha aquele parecido com um mingauzinho, mas eu não gostava dele, não.”

(continua)

filipe

 

Comentários

  1. Kkkkkkk
    Desse telhado eu sei bem como é
    A primeira vez que subi pra reorganizar as bentitas telhas, passei um apuro medonho pra descer, mais ou menos igual você relatou
    Mas como precisei de subir várias vezes, então amarrei a escada com corda, então ficou mais fácil, mas não tanto

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  2. É osso! E tem gente que pensa que a prática do bem é só a ausência da prática do mal.. Né não, né?! 👏👏👏

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