MEMORIAL DE VIAGEM -- PARTE 11
20) A manhã avançava a passos
esticados, o sol já dava sinais de que o dia não seria apenas morno, mas ainda havia
restos do frescor da aurora. A tia acabara de acordar e se movimentava
lentamente, tentando se levantar – eu pude perceber sem que a visse. Larguei
meu livro e o mate e fui até o quarto pra ver se ela queria ajuda para calçar
as chinelas ou algo mais. Não precisava. Ela já estava de pé e arrumava a cama,
estendendo lençóis e dobrando o cobertor. Ofereci ajuda, mas ela agradeceu.
“Sempre arrumo de um jeito que me facilite depois”, pontuou.
Voltei à cozinha pra fazer um chá,
que ela toma sempre sem açúcar. Terminei de preparar o chá e, enquanto ela se
ajeitava, cruzei a rua pra pegar um bolo na mercearia. Ao me ver com o bolo, muito surpresa, foi logo perguntando quanto custou e pedindo pra deixar pra ela
pagar. Dizia não ter dinheiro agora, mas que acertaria quando recebesse seu
‘ordenado’. “Não, tia. Eu já paguei, não se preocupe com isso”.
Sentamos, ela pegou um pedaço
daquele bolo enquanto eu enchia uma caneca de chá. “Se for pra mim, não ponha
açúcar!”, ordenou. “Sim, tia, não vou pôr açúcar”. Ela tomou o chá com o bolo e
se disse satisfeita. Também tomei chá (açucarado!), comi bolo e fiquei
igualmente satisfeito.
Terminado o desjejum, lavei as
vasilhas e saí para o quintal a fim de planejar meu dia, que seria intenso.
21) O telhado estava avariado, com telhas soltas ou quebradas. Quando chovia,
era um horror, com água entrando pelo forro, molhando a cozinha toda. A tia
estava muito chateada e não conseguia alguém que consertasse. “Eu pago, não
quero nada de graça, mas nem pagando...”, lamentava a pobre senhora. “Tia, eu
vou tentar resolver isso, mas não sei se consigo. Tem escada?” “Eu não tenho,
mas o Sebastião tem. Vou ver com ele.”
A tia desceu a escadinha que dá
para a varandinha e dali chamou o vizinho, que a atendeu prontamente – e já trazendo
uma escada, que era bem precária, feita com varões de charrete. Sei que o raro
leitor não sabe o que é isso, mas aquela escada era bem estranha e perigosa. E
era nela que eu subiria para alcançar o telhado da tia.
Apoiei a escada na varanda, que
me pareceu o lugar mais propício, mas a escada era “perneta”. Explico. Uma das
pernas era maior, de forma que eu teria de apoiar a perna menor numa coisa para
que ela não me derrubasse. A custo, consegui subir. E pra descer?... Pra descer
foi bem complicado, porque a escada estava de “sacanagem” comigo. Assim que
punha um pé no degrau, ela começava a deslizar, ameaçando me derrubar. Eu
desistia e pensava: “Meu Deus, como vou descer?!” Enquanto eu me afligia lá em
cima, cá embaixo a tia não parava de falar comigo, e eu sem entender bulhufas.
Ela falava, repetia, me chamava... “Tia, estou longe, não estou ouvindo nada!”,
bradei.
(continua)
filipe
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