O QUINTO ENCONTRO
À sombra dessa jabuticabeira, que
foi plantada por meu pai e cuidada por ele com tanto zelo, fizemos essa foto.
Papai já não está entre nós, e
neste Dia dos Pais a sua memória certamente será contemplada pelos onze filhos
– todos reunidos na imagem acima, num registro de nosso ‘quinto encontro’.
Foi nesse pedacinho de chão, onde
hoje se regala o “arbusto jabuticabeiro”,
que papai chegou com a família para morar, isso lá pelos idos dos ‘anos
sessenta’, mais precisamente em meados do ano de 1964. Éramos papai, mamãe e
quatro filhos – o mais novo ainda de colo. Na ocasião eu tinha a idade de dois
anos e meio, por isso são poucos os fiapos de lembrança que me restam, mas bastante
reforçados pelos relatos vívidos da irmã mais velha.
Lembro que a nossa “nova casa”
era bem pequena – um casebre com pouco mais de vinte metros quadrados, onde se
espremiam cinco cômodos: sala, salinha, cozinha e dois quartos. Banheiro não
tinha, porque naquele tempo esse era um luxo lá da cidade.
Sobre as medidas dos cômodos,
particularmente dos quartos, uso como parâmetro uma cama de adulto que, naquele
tempo, tinha no máximo dois metros de comprimento e ocupava um espaço que ia de
uma parede a outra de um quarto. E esse era um padrão de quase todas as casas
rurais. Os cômodos tinham em média quatro metros quadrados, mas o quarto de
nossos pais era um pouco maior, e nele cabiam a cama do casal e a caminha da irmã.
Com o tempo, papai aumentou a
casa. Quebrou paredes, levantou paredes, fez outro quarto e uma cozinha mais
ampla. E assim a nossa casa pôde acomodar melhor a prole, que aumentava a cada
dois anos.
Nos quinze anos em que moramos
nessa casa, mamãe deu à luz sete crianças. Ali também foi velado o corpinho do
Genádio, falecido antes de completar dois aninhos. Esse irmãozinho, caso
tivesse sido internado num hospital, poderia estar na foto que abre a crônica.
Mas aqueles eram tempos difíceis.
Não, a nossa vida não era fácil.
No inverno, a coisa ficava ainda mais braba. Cobertor?... Um para o casal e
outro para as crianças. Minha irmã dormia mais confortavelmente, porque tinha
uma caminha só dela no quarto dos pais, mas seu cobertor era ralo também. Na
cama grande, um bebezinho (sempre tinha um bebê lá em casa!) dormia com os pais.
No entanto, assim que um novo rebento brotava, o antigo pequerrucho migrava da
cama grande para a cama da irmãzinha e com ela dividia o cobertor.
No quarto da sala, os ‘homenzinhos
mais velhos’ dormíamos embolados. O cobertor não nos agasalhava, seja porque era
velho e puído ou por ser insuficiente mesmo. Não poucas vezes, papai se
levantava no meio da noite e acrescentava uma colcha ou lençol para nos aquecer.
O nosso Velho Pai não está mais conosco. Todavia, ele continua nos protegendo, e estou tão certo disso que
não lastimo sua ausência.
A sua bênção, meu Bom Velhinho!
filipe
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Que lindo!
ResponderExcluirQue maravilha. São recordações que nos marcam, pude viver intensamente nesta casa, ajudei no transporte no carro de bois do meu avô Sebastião Lopes que neste 10!de agosto faria aniversário.,
ResponderExcluirEnquanto lia veio a lembrança que era assim mesmo,papai sempre cuidando de nós, obrigada pai, o sr foi um exemplo de pai
ResponderExcluirObrigado, mano, por mais um relato de parte de nossa memorável história, marcada por um homem que decidiu fazer da sua um dom. Homem de fé inquebrável alimentada na esperança de que o Senhor não abandona o justo.
ResponderExcluirPaz e bem!
ResponderExcluirMinhas lembranças são poucas. Nasci nesta casa e vivi até os 5 anos e 11 meses. Mas algumas recordações são inesquecíveis: Papai voltando depois de dias ausentes por causa de seu trabalho de pedreiro; Mamãe com seus problemas de saúde neurológicos e mentais; a Marta e os manos mais velhos cuidando dos pequerruchos; a vida muito simples e nosso comportamento matuto, até com medo de ver gente de fora; e uma religiosidade e respeito presentes sempre; por fim, Papai buscando suprir as lacunas que a doença da Mamãe nos causava. Foi nesse ninho que comecei a perceber uma minúscula parte da vida...