MEMORIAL DE VIAGEM – NONA PARTE
17) A noite chegou e com ela os
pernilongos. Com as janelas abertas devido ao calor, um enxame dessas
minúsculas criaturas invadiu o recinto numa medonha profusão de zumbidos. Uma loucura.
A tia pediu pra eu fechar a casa porque “poderia ter musquitim”. Meu Deus! Na cozinha, no banheiro, no meu quarto... em
todo canto havia desses “camicases”! E a tia tão suave, numa paz que me
assustava. Eu atormentado e ela pacificada. “É... nesta hora costuma entrar
algum pernilongo, por isso é bom fechar as janelas”, reforçou.
Olhei ao redor à procura de
alguma arma com a qual eu pudesse me defender. Espiei em cima de armários,
cômodas, guarda-roupas e nada de encontrar uma raquete elétrica – aquela que
tem uma telinha com corrente de alta voltagem, própria para fazer torradinha de
muriçocas. Não tinha raquete elétrica nem latinha de veneno em aerossol para
debelá-los. O negócio foi quedar-se ao inimigo, que vinha sedento e faminto.
Indo ao banheiro, consegui eliminar
um monte deles. Arranquei a camisa, fiz dela uma trouxa e fui acertando um a um
nas paredes e no teto. Alguns escapavam, mas eu os perseguia com fúria, abatendo-os
em pleno voo, e isso me dava um estranho prazer. Mantendo a porta fechada, pude
cantar vitória sobre o inimigo, agora dominado e vencido.
No banheiro eu pude me divertir,
mas não no quarto. Lá seria impossível acertá-los devido à existência de muitos
esconderijos. Eles se refugiam atrás do guarda-roupa, embaixo da cama, por trás
da cortina. Ali eu estaria sob o domínio do inimigo, mas tinha o ventilador.
Ligado no máximo, uma torrente de ar seria capaz de desviar a rota dos
capetinhas e eu poderia dormir em relativa paz.
Ainda antes de me dirigi aos meus
aposentos, observei a tia. Ela estava sentada à mesa e tinha os olhos mortiços.
“Está com sono, tia?” “Ah, eu durmo cedo!” “A senhora já rezou?” “Ainda não.”
“Quer rezar o terço comigo?” “Se você
quiser, podemos rezar.”
Fomos para a sala e a tia não
cochilou durante a reza, participando ativamente de cada Pai-Nosso e de cada
Ave-Maria. Num certo momento, ela chegou a interromper a oração pra dizer que
reza um pouco diferente de mim, que não sabe contemplar os mistérios. Respondi que
isso não tem a menor importância e que ela pode continuar rezando do jeito dela.
Ao final, a tia invocou a sua ‘santa
de devoção’: a ‘Senhora Desatadora dos Nós’. Disse que o padre havia
recomendado, e que essa santa é muito milagrosa. Discordei. “Tia, Nossa Senhora
é uma só: Maria, a mãe de Jesus! Esse negócio de muitos nomes pra uma mesma
santa só nos confunde e dá razão a quem nos ataca.” “Ah, eu sei, mas acho que ajuda
na nossa fé ter uma santinha de devoção, mesmo sabendo que Maria é uma só”,
pontuou.
Terminada a oração, peguei a
garrafinha dela, enchi com a água da talha e ela me pediu pra ajudá-la a se
deitar. Ela se sentou na cama. Tirei dela as chinelas e a cobri com um lençol
fino, porque fazia calor. O cobertor ficou semidobrado ao lado, de forma que a
qualquer momento ela poderia cobrir-se, caso a temperatura caísse na madrugada.
Terminada essa “tarefa”, fui para
o meu quarto. Cansado, esperava adormecer assim que eu me deitasse.
(continua)
Filipe
Omi du céu! Como conseguiu dormir? Com pernilongo não há jeito! Uma vez dormi, ops, tentei dormir numa casa alugada pelos Manos Jorge e Eduardo em Mauá. Foi uma noite inesquecível!
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