MEMORIAL DE VIAGEM – TERCEIRA PARTE
7) Saio da padaria, ando uns dez minutos e chego à rodoviária. Como o ônibus demoraria, aproveitei para visitar uma tia que mora nas cercanias. Não tendo o endereço, mas sabendo que é perto da rodoviária, fui procurar. Entrei numa casa de produtos agrícolas e perguntei: “Você sabe onde mora a dona Aparecida?” O homem me olhou, olhou do lado e perguntou à colega. Ela não conhecia nenhuma ‘dona Aparecida’. Arrisquei ‘Cida”; não deu. ‘Cidinha’; não também. “Aquela mulher que cuidava do irmão que morreu recentemente...” “Ah, sim. Ela mora ali!”. Os dois saíram pra calçada e apontaram para um prédio. Andei um pouco e me enrolei, perdendo o rumo dado por dedos tão dedicados.
Parei numa farmácia e fiz a pergunta, mas agora da maneira certa. “Ali, naquele prédio, em cima da padaria”, respondeu o funcionário. Fui lá e vi que havia vários números de apartamentos no interfone. Pensei que poderia ser o 303 e apertei uma, depois outra vez – nunca aperto três vezes. Não deu. Entrei na padaria, comprei um bolinho de fubá e perguntei onde mora a dona Aparecida, aquela que cuidava (...), fui interrompido com a resposta: “No 202!”
8) Aperto o número 202, que talvez seja 203 (já esqueci) e fui atendido por uma voz familiar: “Quem é?” “Seu sobrinho filipe. Lembra de mim?” “Track!!”, essa foi a resposta dada, mas pelo portão, que destravou para, em seguida, a voz daquele interfone pedir pra eu subir.
A tia Aparecida me recebeu com sorriso e abraço calorosos, mas parecia pronta pra sair. Desconfiado, já fui dizendo que a minha passagem seria ligeira e que meu ônibus já estava quase saindo. Senti que a tia ficou aliviada com minha pressa, contudo, me convidou pra entrar e sentar, mas fiquei de pé na sala, achando que seria mais acertado. Apenas quis saber como ela está, como foram seus dias com o irmão de quem ela cuidou por onze anos, essas coisas. Ela me contou detalhes dos cuidados finais com o irmão enfermo, da ausência da família nuclear dele, mas se disse tranquila por fazer o que tinha de ser feito. Disse também que uma filha, que mora no prédio, foi sua companheira nos momentos mais agudos da lida.
Passados uns vinte minutos, tempo suficiente para que eu soubesse segredos esquisitos de família e passagens difíceis da vida dela, encerrei a prosa e quis me despedir. Ela disse que teria de ir à fisioterapia, então fechou a porta, desceu comigo até a rua e nos despedimos. Dali, marchamos em sentidos opostos: ela para a clínica e eu para a rodoviária.
9) Chegando à rodoviária, vi que o meu ônibus sairia às dez e meia, e eu esperaria ainda por uma hora. Com tanto tempo livre, resolvi pegar o livro, e foi nesse momento que apareceu o gari Mário, cuja história contei neste blog. Saiu o Mário, chegou o ônibus. Subi, paguei a passagem e me sentei lá no fundo. Pensei: vou chegar às onze e vai dar pra eu fazer o almoço pra tia Geni.
O ônibus arranca comigo e outros poucos passageiros, avançando pelas ruas estreitas e acidentadas da pequena Visconde. Não me animei a ler. Preferi contemplar a paisagem urbana repleta de casebres malcuidados: alguns no alto do barranco, outros nas íngremes ribanceiras. E o ônibus vai bamboleando enquanto eu tento me segurar para não escapar do banco. Ao lado, era a minha mochila que tremia temendo ir ao chão num escorregão.
O ônibus alcança a zona rural e vejo a paisagem desolada, com os pastos ressequidos devido à longa estiagem. O inverno é sempre assim, mas nunca me acostumo e vivo sempre ansiado pelas chuvas e pelas cores da primavera, que logo vêm.
De repente, a embarcação entra no perímetro urbano da minha cidade e eu começo a ficar preocupado se já não seria a hora de “apear”, como diria papai. Cismei que tinha de descer e puxei a corda, que buzinou na orelha do motorista, que freou e parou bruscamente. Desci, mas desci errado e tive que caminhar por longa distância, talvez uns cem metros, até o ponto onde eu deveria parar. Essa não foi a primeira vez que erro a parada.
Caminhei, caminhei, caminhei e cheguei à casa da tia Geni. Contudo, dessa vez ela não estava no alpendre me esperando como da outra vez. Mal apertei a campainha e já apareceu uma carinha redonda e desconfiada numa das janelas. Era a tia, que não me parecia tão receptiva como antes.
(continua...)
FILIPE
Como os nascidos no sec. XX preservam a tradição da bem querença aos familiares, mesmo que distantes, e não se importam em receber alguém sem aviso prévio. Os nascidos no sec. XXI não querem nem ouvir falar de receber visitas, quanto mais sem avisar . O amigo tem o dom de tornar o cotidiano numa escrita interessante e gostoso de se ler.
ResponderExcluirJá estou de morada nova. Foram dias de sofrimento até acostumar com a plataforma, pois acredito que o blogspot não vem atualizando-a como deveria. Está longe da intuitividade do Sapo e não tem a mesma beleza e funcionalidades. Não estou completamente satisfeita já que não consegui acertar pequenos/grandes detalhes. Mas, por hora, vai ficar assim mesmo. Devagar vou arrumando. O novo endereço é intercambiandoblognovo.blogspot.com. Caótico, mas só intercambiando não estava disponível.
ResponderExcluirEstou tentando me acertar com a 'wix', mas está difícil.
Devagar a gente se ajeita, né?...
Obrigado pela companhia neste blog e espero que continuemos conversando em outro ''condomínio''.
Até mais.