ONANISMO PEDAGÓGICO

O título pode chocar os leitores mais pudicos, se é que os tenho, mas não achei palavra melhor para traduzir meus ânimos nesses tempos pandêmicos.


 


Começo falando sobre algo ocorrido nesta semana e que me deixou desconcertado, isto é, a meio caminho entre a vergonha e a ira. Fiquei envergonhado porque, ao longo de trinta anos como professor, nunca fui repreendido por um superior sem que este não recebesse a devida réplica; desconcertado porque fui admoestado e sem condições de me defender; irado porque há um plano malévolo de doutrinamento de professores orquestrado por uma elite que desconhece a escola pública.


 


Ano passado, durante todo o período de teletrabalho, fomos obrigados a assistir a inúmeras videoconferências, teleconferências, palestras, monólogos e quejandos. Neste ano, apesar do risco de contaminação, fiquei mais tranquilo porque me senti livre daquelas amarras. Mas descobri que não estou liberto. Explico.


 


De volta à sala de aula, sem alunos, e com vontade de exercer a docência, encontrei uma colega em início de carreira com quem comecei a desenvolver um trabalho conjunto.  Pegamos o material pedagógico e começamos a planejar, já que dividiremos algumas séries do ensino médio. Foram vários dias revendo conteúdos, resolvendo exercícios, discutindo a melhor forma de abordagem etc. No embalo, esqueci de que havia uma videoconferência da qual eu deveria participar como ouvinte. A “chefe” chegou e perguntou: “Não está assistindo à videoconferência?” Eu disse que não, que havia esquecido... (menti). Mas ela foi incisiva: “Não pode deixar de assistir!” Sem defesa, resolvi atacar: “Essas VC nada me acrescentam, é tudo enrolação! Já aqui, estudamos, planejamos, produzimos”. A “chefe”, no entanto, não se deu por vencida e rebateu: “Tem que assistir, porque todos assistem e sou cobrada!” Finalmente cedi, mas atirando: “Por você, e apenas por você, vou assistir à reprise. Mas aquelas ATPCs são um lixo!” A professora se foi e eu fiquei perturbado com o episódio: primeiro, porque tenho muito carinho por ela; segundo, porque ela estava apenas fazendo o seu trabalho.


 


Terminado o expediente, voltei para casa cansado, chateado, bastante maltratado pela situação. Então abri o computador e me dei ao sacrifício de assistir à malfadada teleconferência, desta vez com expressões floridas como “trilhas de aprendizagem” e “transbordamento”. Pernósticos, esses atores não se cansam de inovar com a melosidade de “um beijo no coração de todos e todas”, ou com as palavras da moda: “protagonismo”, “galera”, “ressignificação”, “engajamento”, “inovação” e a indefectível “resiliência”. Ah, e tem as expressões inglesas, que não sei pronunciar nem escrever. Eles querem ser chiques, mas são bregas, e talvez não saibam que antigamente, quando se aprendia português de verdade, a professora citava o ‘anglicismo’ e o ‘galicismo’ como os principais vícios de linguagem denominado ‘estrangeirismo’.


 


Após assistir ao vídeo, com duração superior ao de um longa-metragem, encaminhei relatório com um comentário bastante cáustico, mas verdadeiro: “Não conheço professor com alguma argúcia e pensamento elaborado que aprecie as atividades da EFAPE”.


 


Neste momento em que a pandemia de covid atinge o pico de internações e mortes, o governo decide pela volta às aulas presenciais. Os onanistas da EFAPE, aqueles das palestras enfadonhas, estão a salvo da contaminação; já os professores não terão melhor sorte.


 


FILIPE


 

Comentários

  1. É interessante te ver narrar coisas em que eu estava presente. Compartilho da sua observação. Abraços

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  2. Obrigado pela leitura e... pela coragem!

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