A CAPELA DOS HOMENS PRETOS
Numa praça do Centro Velho de São Paulo, há uma monumental escultura intitulada “Mãe Preta”. Distraída entre pombos e mendigos, uma negra dá de mamar a um bebezinho branco e gorducho. A escultura evoca o tempo em que os filhos das sinhás eram amamentados pelas pretas escravas. Um pouco ao lado, está a capela da Irmandade dos Homens Pretos de São Paulo.
Erguida por negros em trabalho voluntário há um século, essa capela sucedeu a outra que fora construída pelos escravos no começo do século dezoito e, pouco depois, demolida, num criminoso projeto de urbanização da cidade. Seu interior é simples e acolhedor. Nas laterais, entre um Bom Jesus e várias madonas, uma rica iconografia negra se impõe, destacando-se as imagens dos santos etíopes Elesbão e Ifigênia. Santa Bakhita, acompanhada de São Benedito e outros, está majestosamente instalada logo na entrada. Mais à frente, à esquerda, encontra-se Santo Antônio Categeró, outro negro e escravo. E assim, em cada canto e em cada altar há uma multidão de imagens, que parece disputar a prece, o pedido ou a devoção do fiel que chega.
No altar, sob o olhar vigilante e compassivo da Virgem do Rosário, que é a padroeira daquela comunidade, mulheres e homens (pretos e brancos) se dividem na nobre tarefa de auxílio ao celebrante. É uma assembleia genuinamente formada por gente do povo, que participa daquele ritual litúrgico, entoando seus cânticos numa contagiante alegria.
Após a Comunhão, já no final da missa, outra fila se forma. O sacerdote, como que compadecido dos fiéis que estão excluídos do Banquete Eucarístico, lhes asperge água benta. Isso é um verdadeiro lenitivo para a alma destes, mas funciona também como sagrada sobremesa para os outros. Cumprido todo o ritual, o padre se faz povo e com o povo se mistura, trajando seus jeans e camiseta surrados.
Comunidades assim são tesouros da Igreja e deveriam existir em todas as dioceses. Se assim fosse, jamais teriam acontecido histórias tristes como a de minha amiga, dona Dora. Esta, quando jovem, não conseguiu entrar para uma congregação, por ser negra! E isso aconteceu a pouco mais de meio século! O impressionante é que dona Dora, apesar dessa ferida, nunca abandonou a Igreja Católica, permanecendo-lhe fiel como poucos. Viúva, continua vocacionada, mas não pode ser freira. Desta vez, por ser velha!
Talvez haja a necessidade de se fundar, inspirada no Velho Simeão e na Profetisa Ana, as Irmandades dos “Homens Velhos” e das “Mulheres Velhas”.
FILIPE
Felipe meu caro! As refeições requentadas não deixam de ser saborosas! Ao ler a parte do seu texto na qual faz menção da estátua perdida em meio a mendigos, percebemos que nossa sociedade não mudou tanto. O relato do interior da capela estar "forrado" de Santos Negros, nos indica que esse sofrido e lutador povo (sofrido com o preconceito de muitos, e lutador para vencer o mesmo) tem seus legítimos representantes ocupando o maior cargo possível, ser cidadão do Reino de Deus. Devido a universalidade da Igreja, podemos dizer com certeza de que são nossos representantes também. A água benta para aqueles que não tomaram parte da mesa do Pão, lembra-nos de que a Igreja abraça a todos com seu maternal carinho de Esposa de Cristo. O sonho não concretizado de Dona Dora me ensina que devo permanecer firme na Fé em Deus, mesmo quando perder a fé nos homens. E que eu como leigo na Igreja, membro do Corpo de Cristo Jesus, não posso perder a oportunidade única de fazer na minha vida, uma caminhada de fraternidade e acolhida. Muito obrigado por nos fazer pensar através de seus escritos.
ResponderExcluirA Igreja precisa ser próxima dos seus fieis. Infelizmente, temos inúmeros relatos em que a Igreja distanciou-se de seus filhos.
ResponderExcluirQue Deus desperte sempre mais homens e mulheres de boa vontade, para que cresçam cada vez mais comunidades acolhedoras, como esta que você citou.