O HOMEM DO BIRIL
Publicado no blogdofilipemoura.com em 16/09/2011
Chegara à tardinha. Tocou a campainha e, ao ser atendido, pôs-se a falar de seus problemas, que não eram poucos. E assim, de forma bastante ensaiada, começou: “Escuta aqui, seu moço. Você não quer morrer, não é?” Sobrevivendo a esse tipo de pergunta, que pode matar qualquer um de susto, respondi que não. E ele continuou: “Eu não vou mentir. Deus me livre de mentiras!” Disse e ergueu os olhos para mim, para ter certeza de que eu lhe dava atenção e o merecido crédito. Então, prosseguiu: “Tomo remédios e o posto me dá oito tipos, mas tem um que ele não dá. E se eu não tomar esse remédio, moço, eu vou morrer! E eu não quero morrer... Você tá me compreendendo?” Essa última frase foi como uma pinça, capaz de remover qualquer pedrisco que insistisse em obstruir a boa ação, que se seguiria a tão pungente apelo.
Confiante, fitava-me e estava certo de que o samaritano que encontrara poderia ser o bom moço de quem tanto precisava. De minha parte, naqueles microssegundos que se passaram lentamente, pude observar o personagem que ali se encontrava: Um homem já afundado nos anos, porém “sacudido”, como diria meu pai. Seus cabelos, brancos, se escondiam sob um gorro de lã. Usava uma espécie de alpargatas, mas estava de meias. Sua roupa era um agasalho de malha. Seu rosto, liso e redondo, não denunciava qualquer enfermidade, embora tentasse convencer-me de que estaria moribundo, despencando-se à cova.
Quis ajudá-lo, perguntei onde morava. Gaguejando um pouco, saiu-se com esta: “Ih, seu moço! Sou da roça, moro na Pamonha”. Não conhecendo nenhuma “pamonha” diferente daquela que se faz com milho em palha, quis mais detalhes. Desconversou, voltando ao ponto de partida de sua prosa: “Não quero morrer. Ajude-me com uns trocados, pelo amor de Deus!” Quis ver a receita. Não a tinha. O nome do remédio? “Biril. Custa quatrocentos e cinco reais. O doutor me pergunta: ‘Como vai fazer pra conseguir esse dinheiro?...’ Eu falo que vou pedir esmola. E eu tô pedindo”.
O homem se foi sem as moedas que tanto queria, levando consigo apenas a promessa de que seria encaminhado ao Serviço Social. No bucho, um copo d’água e outro de leite, “bem gelados!” – conforme ordenara. E o remédio? Consultada a internet, verifica-se a sua inexistência.
Com certeza, o astuto senhor estará “birilando” boas almas por aí. Não mais por cá.
FILIPE
Meu amigo, enquanto lia o seu texto consegui perfeitamente visualizar a cena. Isso demonstra habilidade autor ao escrevê-lo.
ResponderExcluirSobre o caso, é lastimável ver que em nossos dias já nem podemos mais agir como bom samaritanos. Muitos desses "nômades" passam pelas portas das nossas casas com a intenção cruel e maligna de nos enganar. Creio que são poucos que realmente precisam, e ainda penso que é quase impossível, nessa situação, discernir quem é joio e quem é trigo. Esse homem era joio.
Uma coisa curiosa é: esse homem foi corrupto na medida em que lhe cabia. Se ele tivesse uma posição diferente (por diferente quero dizer melhor, mais elevada) na sociedade, certamente seria corrupto num grau maior. Ou seja, a essência dele é corrompida. O caráter dele é quase nulo, por isso que tem a capacidade de andar pelas ruas mentindo em causa própria e em detrimento de muitos.
Pior ainda, ele invoca Deus como testemunha do seu malogro. Infausto homem!
Neste mundo de pessoas sábias; disfarçadas de maltrapilhos, temos que ser mais espertas que elas, se não quem se tornará mendigos somos nós; não no ser e sim no pensar!
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