PRETINHA
Ninguém sabe sua idade. Seu nome evoca sua cor, uma cor distante, que já não lhe corresponde, pois está um pouco ruça. Sabe-se, no entanto, que é bem velhinha. Contudo, energia é que não lhe falta. É abrir o portão, que a fagueira cadelinha alcança a rua e ganha asas. Melhor ainda, quando há uma “matilha” composta por seu “tio”, sua “mãe” e por seu companheiro de ladrido. Seu caminhar é bem peculiar. Vai de umas corridinhas rápidas, depois para, volta a correr, para e olha para trás buscando aprovação. Cheira aqui, fuça ali, conhece os hábitos da vizinhança e sabe em qual saco de lixo há o melhor petisco para aborrecimento de sua dona.
Se sua ama e senhora demora chegar, lá está Pretinha a postos em vigilante espera, deitada a meia distância da calçada. Se o portão estiver aberto, melhor. Pretinha fica atenta a todos e a quaisquer movimentos. Olha para a direita, olha para a esquerda. Também olha para cima, como se consultasse um relógio no firmamento. Qualquer ruído de motor desperta-lhe certa sofreguidão. Ergue a cabeça, tenta aprumar as orelhas, que não lha obedecem, e parece se preparar para um salto. Mas, por enquanto nada. Volta à posição inicial, ajeitando-se novamente, apoiando a cabeça por entre as patas, simulando um cochilo.
Andar com essa criatura é tarefa para poucos. Somente os iniciados, quem domina alguns códigos desses canídeos ou por eles tem muita afinidade, pode compreendê-los e aceitá-los e até mesmo se deliciar com algumas de suas cachorradas.
Mais uma vez Pretinha para o trânsito. O primeiro motorista me olha furioso por não poder prosseguir. Mais atrás, outros também param e começam a buzinar. Mas o comboio está impedido de seguir, pois Pretinha está se ”desapertando”, e ninguém poderá se mover antes que ela complete o serviço. Agachada, na frente daquele caminhão enorme - um verdadeiro tanque -, a frágil cadelinha me olha como se dissesse: “Você não vai deixá-lo passar em cima de mim, não é?”. De minha parte, olho para ela com reprovação e para o impaciente motorista pedindo-lhe desculpas e compreensão. Terminada a obra, sai a Pretinha saltitando como se fosse um Diego Souza comemorando um gol de placa cruzmaltino. E aquele “gol”, por ela tão caprichado, é furiosamente esmagado pela volúpia dos pneus daquelas máquinas de motoristas "insensíveis e desrespeitosos".
É das mais tristes, a história de Pretinha. Como muitos de sua espécie, foi abandonada e sobreviveu às piores barbáries do bicho homem. Foi bem tratada por mendigos e fez algumas amizades com cães também “mendigos”. Daí, vem sua docilidade e paciência para com os homens de rua. Sempre está a lhes lambuzar as mãos tentando lambê-las. Com a língua travada devido a uma enfermidade, faz uma tremenda lambança ao comer. Para beber água, estica o pescoço de tal forma, como se uma galinha fosse.
Pretinha não se indispõe com nenhum companheiro. Contudo, não aceita o comando de ninguém que não seja aquela a quem elegera como sua ama e provedora. Mas, como poucos de sua espécie e apesar de sua triste história, Pretinha é feliz.
FILIPE
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