FIM DO DIA COM TOTÓ
Publicado originalmente em 25/11/2011, no blogdofilipemoura.com
É domingo e a noite chega. Modorrenta, como fora a tarde, a manhã, o dia todo. Ao meu lado, descansa o Totó (seu nome é Lilico, mas atende por Lico). No rádio, um programinha muito raso, ralo mesmo. O locutor entrevista um músico de nome... Nem sei. Não consigo acompanhá-los. Parecem-me meio pernósticos – para usar uma expressão chique. Ou metidos a besta – não sendo chique mesmo. Mas já terminou.
O Lico continua ali, ao lado. Agora, está cuidando de uma das patas. Mordisca, mordisca e depois lambe. Fica entretido nesse ofício de manicuro por minutos, até horas. De vez em quando, para e me olha como se perguntasse: “E aí, já acabou?” – “Não, Lico, não acabei e nem sei se vou acabar”, respondo-lhe em pensamento.
Gosto da companhia deste cãozinho. Não sei o que pensa de mim. Aliás, nem sei se ele pensa, mas, aqui neste rancho, ele me conforta com sua presença leve, macia e ofegante. Na “vitrola”, um réquiem de Mozart me ajuda a sepultar o dia que, há horas, finara. E o Lico já se enrosca num tapete próximo à porta. Revira-se de barriga para cima, sem vergonha de expor suas “vergonhas”.
Esse "despudorado" vira-lata, de pelagem cor de mel e uma orelha quebrada, não faz o tipo bom-moço. Apesar de recentemente ter sofrido um AVC, e de estar sendo curado de uma infecção intestinal (diarréia das brabas!), dá bastante trabalho devido ao seu comportamento audacioso, hiperativo.
Lá fora, o silêncio é quebrado por uma chuvinha miúda. Uma chuvinha molha-bobo, conforme diz papai; ou um “fubazinho”, como gosta de dizer mamãe. Aqui dentro, a Orquestra de Budapeste continua sonorizando as partituras mozartianas. Enquanto isso, divago sobre meu cotidiano, sobre as coisas desta vida, e da outra que virá. Sobre a semana que começa logo cedo, na manhã de amanhã. Novos desafios me arrastam para o laborioso e movediço chão da sobrevivência.
FILIPE
Comentários
Postar um comentário