MEMORIAL DE VIAGEM – OITAVA PARTE

16) Terminada a “grande luta” com as titicas gatinas, fui para o fogão a fim de preparar uma janta. Peguei os pimentões e tomates que eu havia comprado, pus numa vasilha e comecei a lavá-los com detergente. A tia, muito espantada com aquilo, me disse: “Uai, lavando com sabão?! Não precisa. Eu lavo só com água...” “Não tia, precisa ser lavado com sabão, sim. A senhora não sabe como homem é bicho porco: faz xixi, não lava as mãos e depois colhe tomate e pimentão pra vender, e a gente compra sem saber. Isso aqui é sujo e precisa ser lavado direitinho.” A tia não se conteve, fez uma carinha de nojo e quase confessou um segredo dela, já fossilizado na memória: “Engraçado... Você está caprichoso!...” Pensei: Só faltou a ela dizer que o sobrinho sempre foi porcão, e agora, já bem velho, meteu-se a asseios desnecessários. Se ela pensou, não disse; se dissesse, eu não me importaria porque isso é bem verdadeiro.

Enquanto eu lavava os tomates e pimentões, esfregando e enxaguando cada um, a tia foi à geladeira e voltou com um pãozinho na mão. “Aqui, eu vou jantar esse pão e você come o que sobrou do almoço. Não precisa fazer comida.” “Não, tia. Eu quero fazer uma janta pra nós.” “Uai, eu achei que você tinha gostado da comida que fiz pro almoço, e achei que você ia comer a sobra agora na janta. E pra mim, esse pão basta.” “Tia, eu gostei do almoço, mas quero fazer uma comida diferente para o jantar. Então vou caprichar aqui e a senhora deixe esse pãozinho pra amanhã. E aquele restinho do almoço, a senhora dê para os gatinhos. Eles também precisam provar da comidinha gostosa que a senhora faz, né não?!”

Pensativa, a tia ficou um bom minuto olhando para o desolado pãozinho, não sabendo se o guardava ou se o comia. Depois fitou enigmaticamente o “cozinheiro” sem muito o que dizer. Sei disso porque, enquanto eu lavava e cortava os legumes, eu a espiava com o “rabo dos olhos”. Por fim, ela desistiu do pão e o pôs de volta na geladeira, e se sentou pra esperar a comida que eu estava começando a fazer.

Pronta a comida, fizemos uma pequena prece em agradecimento pelo alimento e nos sentamos à mesa para jantar. O nosso “banquete” era bastante frugal: arroz, feijão, pimentão refogado e uma salada de tomates com cebola. A tia ainda se resignou a aceitar que eu lhe fizesse o prato, e o fiz no capricho. Em silêncio e em poucos minutos, ela pôs abaixo aquela pequena “montanha”; eu também, à mesa e no lado oposto ao dela, devorei a minha janta com uma devoção nada franciscana.    

Terminado o jantar, a tia fez questão de lavar a louça. Enquanto isso, eu fiquei por ali, pensando no vazamento da tubulação. Dei uma espiada embaixo da pia, mas o pano que pus parecia seco e isso seria um bom sinal de não haver mais marejamento.    

(continua)

filipe


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