SERIAM 'NOVENTA E CINCO'

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Já era noite. Talvez neblinasse ou fizesse frio – disso já não me recordo. Lembro que estávamos na cozinha quando um irmão disse ter ouvido um ‘toque-toque’ na porta da sala. Diante disso, ficamos apreensivos, mas não estávamos indefesos. Tínhamos o papai conosco e nele a confiança para lidar com a situação, seja ela qual fosse, era certa. Estávamos protegidos.

Preciso registrar que estou falando de um tempo distante, e aqui rememoro algo acontecido há mais de meio século. Naquela ocasião, morávamos num sítio do meu avô paterno, numa pequena casa sem vizinhos próximos, sem água encanada nem luz elétrica. A iluminação era por lamparina a querosene. Tínhamos duas lamparinas: uma era exclusiva da minha mãe, que, adoentada, gostava de ficar reclusa no seu quarto; a outra era para o restante da família e ficava na cozinha. Era na cozinha que sempre ficávamos, particularmente à noite. Alguns sentados no banco de madeira, outros ao redor do fogão a lenha. Era na cozinha que tomávamos as refeições, conversávamos e fazíamos orações. Aquele pequeno cômodo com chão de terra batida era para nós quase um templo de convivência doméstica. Ali o papai, todas as noites, cansado de sua jornada, rezava o terço e lutava com o sono. Por vezes, numa cochilada mais forte, o terço caía de suas mãos, mas ele o apanhava e retomava a prece. Terminada a oração, ele dava ordem para que fôssemos para a cama. Ele também, após lavar os pés, partia para seus aposentos, encontrando mamãe já ‘no terceiro sono’, como se dizia.

Na noite em que se deu o fato aqui narrado, papai estava conosco, mas isso não era comum. Sendo pedreiro, ele costumava trabalhar longe de casa, e como sempre andava a pé, era demorada a sua volta.  Mesmo trabalhando perto, papai costumava sair de tardinha para aplicar injeções. Ele era uma espécie de enfermeiro muito requisitado naquele ‘córrego’. Além das injeções intramusculares, ele sabia, como poucos, aplicar também as intravenosas. E ainda havia os pedidos de reza nas casas, que nunca deixou de atender. São essas as razões por que nosso pai nem sempre estava em casa nas primeiras horas da noite.

A batida na porta continuou espaçada e suave – essa era uma forma educada de chamar alguém da casa. Mas, para nossa tranquilidade, papai estava conosco naquele dia e ele foi à sala para atender a quem batia na porta. À frente, com a lamparina à altura dos olhos, papai girou a tramela da porta e tentou enxergar a visita. Naquele momento um misto de orgulho e medo nos assomou. Orgulho pelo destemor do pai, um homem corajoso; medo pelo que pudesse acontecer com ele e conosco, pois a lamparina poderia ser apagada com um simples bafejo, e todos ficaríamos no escuro a mercê de um possível invasor. 

Felizmente não estávamos em perigo. Quem chegava era uma mulher. Negra, alta, magra, ela trazia consigo uma criança e pedia abrigo. Papai mandou que entrasse e, após obter algumas informações, ajeitou pra ela uma cama na sala, que era o único lugar disponível. Num canto do quarto da sala havia uma esteira artesanal, feita de taboa, que papai sempre mantinha para alguma eventualidade. Ele estendeu a esteira, cobriu com um lençol, pegou um cobertor e acolheu a mulher e o seu filhinho naquela noite.

O nome da mulher, eu soube depois de moço, é Isolina. Ela morava numa comunidade de gente muito pobre, na entrada da cidade. O filho dela, que era especial, tinha apelido de Pilorino. Essa era uma alcunha maldosa, preconceituosa, racista. A pele negra do garoto fora associada ao pelourinho – um tronco onde os escravizados eram açoitados. De pelourinho, através da ignorância infame de gente branca, bem alimentada e maldosa, veio o apelido do menino, que depois o vi rapaz. O tempo passou e eu nunca mais soube notícias dele nem da mãe.

Neste ano, no Dia de Zumbi dos Palmares, papai teria completado ‘noventa e cinco anos’. Deixo aqui essa homenagem a ele e àquela descendente de escravizados a quem socorreu. Papai não precisa de homenagens nem a dona Isolina de abrigo, mas eu preciso expressar carinho pelos dois, que já estão na Casa do Pai.

FILIPE

 

Comentários

  1. Que bacana!Que exemplo esse seu pai!Homem generoso é de muita fé!Já vivi na minha infância nas mesmas condições. É como uma viagem no tempo.

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  2. Que lindo! Seu pai não tinha medo porque confiava que tudo aconteceria conforme a vontade de Deus, então pra que temer? Queria tanto ter um tiquinho disso! E que bondade, dividir o pouco que tinha e socorrer os doentes mesmo com tantos afazeres! Muito gostoso de ler o seu texto, traz lembranças do fogão a lenha da minha vó e das histórias que meu vó contava em volta dele em noites escuras, sem energia elétrica. Obrigada por compartilhar, faz bem, aquece o coração da gente!

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  3. Que maravilha de texto Felipe. Obrigado pelas palavras que expressam tudo o que o pai foi para nós para tantas pessoas passaram por nossas vidas. Louvado seja Deus por termos um pai bom aqui na terra, quando tantos não o têm.

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  4. Que relato memorável e catequético em tempos de polarização, de mentiras, de racismo, de preconceito e de individualismo selvagem.
    Veja se tem mais uma "rapa" dos fatos memoráveis do papai na sua memória e os registre aqui, Felipe.

    Eu me lembro das duas lamparinas.
    Era assim mesmo. Também da reza que demorava acabar por causa das quedas do terço das mãos do papai, cansado do trabalho.

    E a confiança no papai era tamanha que afastava todo medo. Ele nos inspirava confiança.

    A hospitalidade do papai era incrível: não sei como ele arranjava lugar e comida naquela realidade pobre em que vivíamos.
    Só podia ser a providência de Deus e sua entrega confiante .

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  5. "Os santos e os justos viverão eternamente"
    Costumamos rezar na Liturgia das Horas!
    Que alegria e conforto ler essas linhas e saber que Papai viveu o Evangelho!
    Quem acolhe os pequeninos acolhe o próprio Jesus!
    Papai conviveu e foi educado numa cultura muito racista.
    Mas viveu a fraternidade com todos: as pessoas não importavam por suas raças mas por serem filhos de Deus.
    Nós, filhos, recebemos essa bela herança que é uma dádiva e um compromisso: ajudar as pessoas hoje superarem divisão e discriminação para surgir o Reino de Cristo, reinado de irmãos que se amam e servem!

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  6. Penso que você deveria escrever suas memórias, que são riquíssimas.
    Mesmo que não tenha intenção de publicá-las, mas que seja guardadas como acervo da família.

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  7. Fica aqui um convite-sugestão a você, caro mano.
    Tem boa memória e texto impecável, escreva algo e publique no seu blog, ou aqui...
    Seria um prazer ter outros textos hospedados neste espaço.

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  8. A nossa responsabilidade é enorme devido à fabulosa bagagem dessa formação ética e cristã.
    Temos de levar a sério os ensinamentos de nossos pais e transmiti-los às gerações que nos sucedem.
    Um abraço, mano.

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  9. São histórias como essa que deveremos contar para a geração de hoje, para valorizar o presente, é preciso recordar o que os nossos pais nos fizeram no passado não muito distante, onde a tecnologia ultra rápida vai apagando a nossa memória agradecida. Valeu Mano! Continue sempre a nos brindar com seus textos maravilhosos e educativos. Tenhamos um ótimo final de ano e início do vindouro com as bençãos e a proteção de Deus! Amém.

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  10. Que texto rico e que doce lembrança! Como perder tudo isso? Jamais!... Já solicitou o Ficheiro do blog? Eu já, mas ainda não recebi. Acredito que não seja tão rápido.

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  11. Oi, Bete.
    Ainda não me movi, mas vou me mexer.
    Obrigado pela leitura.

    Tenho me deliciado com seus textos artístico-literários e quero, com vagar, percorrer todas aquelas suas ladeiras floridas.

    Um abraço.

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