UM ANO SEM ELA

Numa bela passagem bíblica, o pregador adverte: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!”
Como não refletir sobre isso? Como entender que muitos de nós ainda nos mantemos agarrados aos prazeres mais comezinhos desta vida?... Parece que não compreendemos que a vida pode e deve ser bela, mas a sua brevidade é espantosa.
A foto acima é da minha mãe no seu último aniversário, quando ela completava ‘oitenta e quatro’ anos. Ali, mamãe já estava bastante debilitada, usando cânulas de oxigênio, mas continuava bem-humorada e fazendo suas orações cotidianamente.
Tenho pensado bastante sobre a efemeridade da vida. Não me parece ser tão distante o passado em que eu era criança e minha mãe uma jovem mulher de vinte e poucos anos. O tempo passou, eu cresci e mamãe envelheceu; o tempo passou mais um pouquinho, eu envelheci e mamãe partiu. E assim a roda foi girando, está girando e vai continuar girando.
Lembro dos tempos de minha mãe com seus adágios que entraram para o folclore da família. Um deles, mamãe usava quando estava descrente de que uma promessa não lhe seria cumprida. Ela dizia: “Ah, sim... Só se for no dia 30 de fevereiro!” Interessante que eu ficava pensando: por que mamãe diz sempre essa data? Há algo de especial nela? Somente depois de crescidinho descobri que ’30 de fevereiro’ não está no calendário. Descobri também que o mês de fevereiro é o mais pobrinho dos “doze irmãos”, e que o coitado tem apenas ‘vinte e oito dias’; com sorte, costuma ter ‘vinte e nove’, mas só de vez em quando. Enquanto isso, alguns de seus irmãos sortudos têm a fortuna de 31 dias.
E foi justamente no ‘bissexto 29 de fevereiro’ que mamãe nos deixou. Até imagino o papai a recebendo lá no céu. Aqui, um parêntese. Gente, existe céu e não é pra todo mundo, tá?! É melhor a gente tomar alguns cuidados nesta vida, senão... Mas os meus pais estão no céu e disso eu tenho a mais absoluta certeza. Porque ‘quem faz o bem, recebe o bem’. E há de haver outra vida pra essa conta fechar.
Voltando ao céu, onde papai chegara há pouco tempo e estando ali meio sem ter o que fazer, ele dá uma voltinha e avista, lá longe, uma senhora baixinha de passos apressados. Reconhece a mamãe e se agita esfregando as mãos, já caminhando na direção dela. “Vem, minha Nega, estamos te esperando. Então você resolveu vir pra cá logo no dia 29 de fevereiro?! Vai ficar difícil pros meninos celebrar esse aniversário, não?..." Mamãe, ainda meio esbaforida e com o rosto corado de sol, passa a mão na testa para afastar o suor que lhe embaça a vista, olha profundamente para o papai e diz sorrindo: “Sei lá como é que é...” Eles riem à farta e entram para a festa há muito preparada pra minha mãe.
Um ano sem mamãe – com saudade, mas sem tristeza. Conforta-me saber que fizemos por ela o que os filhos devem fazer pelos pais. Alegra-me a feliz certeza de que a mamãe está bem.
FILIPE
Que maravilha! O encontro de nossos pais na eternidade feliz! A dor do amor vivida neste mundo se transforma em alegria perene, que ninguém poderá tirar.
ResponderExcluirBelíssima refleixão, primo. Belas memórias!
ResponderExcluirParece que eu estava dentro do texto. Que maravilha!
ResponderExcluirBela reflexão! E uma linda homenagem à seus pais !
ResponderExcluirPaz e bem!
ResponderExcluirObrigado, Mano, por esse panegírico para nossa eterna Mãezinha! Você soube poeticamente captar e misticamente viver o encontro de dois eternos namorados, não aquele "amor" quando primeiro as pessoas são reviradas na sua interioridade corporal para depois, quem sabe se der certo, conhecerem suas essências, se é que sabem que existem.
Papai e Mamãe viveram um amor puro e devotado, e os anos de convivência não desgastaram seu encanto recíproco. Quantas vezes todos os manos presenciamos: Mamãe sentada na sua poltrona, de onde já não podia sair sozinha, chamando pela gente e perguntando: "cadê ele?"; "quem, Mamãe?"; "seu Pai!".
Eu imagino realmente esse encontro como algo divinal, ou melhor divinizado! Aliás os teólogos nos ensinam que Deus é Amor! Então, se foram morar com Deus, foram mergulhar para sempre no Amor que nunca morre nem deixa morrer. Como dizia meu xará, Gabriel Marcel: "Ama-me e jamais morrerás!"
A certeza de que o amor transcende a vida terrena é um alento para nós.
ResponderExcluirChe belo!!!
ResponderExcluirQue linda história!.
ResponderExcluir‘quem faz o bem, recebe o bem’
Acredito que sim.
Pergunto-me: " será que pensar fazer o mal não dá trabalho? "
Fazer o bem é espontâneo e não é preciso esperar pelo retorno.
Nós sentimos quando ele vem ter connosco.
Obrigado, Maria, pela sua visita a este "meu cantinho".
ResponderExcluirAbraços