ENFIM, UM GENERAL

Espero que o raro leitor não se aborreça com esta crônica, mas estou maravilhado com a prisão de um ‘quatro estrelas’. Ao contrário do que se diz, esta não é a primeira vez que um militar com essa patente é preso. A história registra casos, como Hermes da Fonseca e Teixeira Lott. Na verdade, Henrique Teixeira Lott era um marechal que foi injustamente preso em 1961. Legalista, Lott tentava garantir a posse de João Goulart, devido à renúncia de Jânio Quadros, quando foi preso pelos seus colegas militares – os mesmos “gorilas” que três anos depois assaltaram a Presidência e nela se instalaram por intermináveis vinte e um anos.
A novidade aqui é bastante alentadora, porque esta é a primeira vez que um militar no topo da carreira é preso por autoridades civis, e por motivos justíssimos. Nos demais casos, eram obscuras as prisões de oficiais e quase sempre feitas pela milicada. Todavia, como sinal dos tempos ou prenúncio civilizatório, militares têm sido conduzido às grades por civis e por justas razões.
A prisão do general ocorrida ontem foi emblemática, porque esse homem poderá ter sido o mais poderoso militar na história recente do país. Antes de ser ministro, ele teve poderes imperiais no Rio de Janeiro como interventor na Secretaria de Segurança Pública. Depois, já no governo do “imbrochável”, como ministro da Defesa, fez história numa reunião com os comandantes das três forças, que estavam de saída. Histérico, o ministro bufou tão ferozmente com os três generais, que fez os provectos senhores tremerem como “coelhinhos” diante de uma besta-fera.
Não, raro e caro leitor, não me repreenda por tamanho gozo diante dessa que seria a mais esperada das prisões. Muito se diz que oficial preso em quartel não é apenado, mas hóspede. Ali ele teria de graça o melhor dos mundos: da mesa farta ao leito aconchegante; do banho quente à sala-de-estar com ar-condicionado. Que seja. Acho melhor assim e explico por quê.
Imagine esta cena. Um general chega ao quartel para uma visita e a sua presença é anunciada por um clarim. Em seguida, o estado-maior, que é composto pelos oficiais mais antigos da unidade, vai ao encontro do general e o acompanha até o pátio interno, onde está toda a soldadesca perfilada. Nesta hora, a banda militar começa rufando os tambores e segue com um hino. Após isso, o empertigado general empina o corpo, estufa o peito, faz cara de bravo e, acompanhado pelo comandante da unidade, passa em revista à tropa. Durante a passagem, o silêncio é quase absoluto e nada se ouve além da respiração do colega ao lado. Enfim, terminada a inspeção, aquele “César da Roma Antiga” volta ao palco e dirige algumas palavras de patriotismo afetado ao batalhão. Encerrada a cerimônia, o cortejo segue para o refeitório enquanto os soldados para as oficinas e que tais.
Corta para hoje. Nesse mesmo quartel o mesmo general chega, agora disfarçado com óculos escuros e escondido numa viatura com cortinas fechadas. Os soldados são providencialmente deslocados para as “oficinas e que tais” a fim de preservar o anonimato do novo hóspede, que é conduzido ao mais recôndito dos aposentos daquele prédio.
Isso não é ótimo?... Pois eu acho.
FILIPE
Penso que a justiça deve-se começar a fazer pelos graúdos. De cima pra baixo.
ResponderExcluirOs militares precisam aprender a ser mais humildes, sabedores de que pertencem ao comum dos mortais.
E devem ter consciência de que são responsáveis pela ordem e segurança, e não podem entrar pela via da desordem e atropelamento.
Militares, juízes, promotores, parlamentares e gestores são servidores públicos, que deveriam zelar por quem lhes paga o salário -- o povo. Infelizmente isso não acontece.
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