A INFÂNCIA REVISITADA

É sempre uma celebração o encontro dos Moura Lima – família a que pertenço por divina graça. A alegria é indizível. Cada um puxa uma história antiga da infância – e tem que ser antiga mesmo, porque estamos todos já bastante envelhecidos. Os mais novos contam das suas, que os mais velhos não presenciaram. Obviamente, os fatos narrados pelos irmãos mais antigos não foram vivenciados pelos novos. E assim, uma sucessão de histórias e gargalhadas nos aproxima e congrega, mitigando as sutis, porém inevitáveis diferenças que temos. Um dos causos mais interessantes lembrados pela irmã mais velha foi sobre ‘amendoim’, que há tempos eu queria registrar.


 


Papai, em tempos muito antigos e de que tenho pouquíssima lembrança, tinha um cavalo de nome Figurão. Acho que esse foi seu único animal de montaria. Mas, por razões que desconheço, papai teve que vender o Figurão, ficando para trás o arreio. Esse arreio ficava pendurado num gancho de madeira amarrado ao caibro do telhado no quarto da sala. Certa vez, papai vendeu também o arreio, deixando inútil aquela peça de madeira.


 


Agricultor, papai plantava arroz, feijão, milho, abóbora e amendoim. Todas as colheitas eram jubilosas, mas a do amendoim era particularmente festiva. Este era arrancado do solo, despencado e posto em balaios. Após apurado, o amendoim era espalhado no terreiro para secar. Crianças, participávamos mais comendo amendoim do que trabalhando. Mas papai não se importava com isso, embora nos advertisse sobre a inevitável dor de barriga, que vinha tão certa como um castigo.


 


Como sempre fazia com o que colhia, papai reservava uma parte para a despesa e vendia o restante para um compadre ou para o vendeiro da vila. Com o amendoim não foi diferente. Vendeu uma parte e deixou a outra para nós, que guardou num saco. Mas quando papai percebeu que o amendoim do saco estava diminuindo rapidamente, disse: “Chega! Agora essa parte aqui é para plantar.” Pegou o saco, amarrou sua boca com uma corda e o pendurou no gancho onde ficava o arreio do velho Figurão. Como o saco ficava alto e nós não conseguíamos alcançar, tive a luminosa ideia de pegar uma varinha e cutucá-lo. Fui cutucando, cutucando, até que, de um buraquinho, veio a recompensa pelo meu esforço. A partir de então, era só cutucar o saco que, alheio às ordens de meu pai, nos fornecia generosas porções. Mas de tanto fuçar naquele buraquinho, parece que o saco ‘perdeu a paciência’ conosco. Certa vez, fui lá e ele começou a despejar ininterruptamente as vagens. Fiquei aflito, tentando devolver, não sei como, o ‘butim’ ao saco, que se recusava a aceitar de volta. Por sorte, as vagens se aquietaram, pondo fim à minha angústia.  Finalmente, papai costurou o saco, que não mais foi incomodado, nem por mim nem por meus irmãos.


 


FILIPE

Comentários

  1. Reproduzo aqui o que comentei com você, Filipe, no e-mail:

    Como foi bom estarmos juntos nas nossas Gerais!
    Bastantes irmãos presentes! E nossos queridos pais ali, seguros pela mão bondosa de Deus!
    Clima descontraído, gostoso no sentido mais completo
    E também divino, porque obra do Deus Amor que nos criou para vivermos como família neste mundo, e assim aprender a amar outros da grande família e sermos finalmente na Jerusalém Celeste, onde todas as nossas lágrimas serão enxugadas!

    Mano, a história do amendoim, retrata a precariedade em que vivíamos, sim. Mas também aponta para algo tão paradoxal: a gente vivia tudo com mais intensidade, e alegria de um amendoim despencando do saco lá em cima, não era apenas por saciar a fome, mas uma travessura de criança, que dá o que falar e até hoje desperta gostosas risadas. Por outro lado hoje, o que as crianças estão armazenando para contar bons "causos" para seus filhos e netos?
    Coisa estranha essa tal felicidade, que gerada a duras custas torna a vida mais embalada!
    Papai fala no seu livro autobiográfico que os "peões" roceiros antigamente trabalhavam cantando "calango" o dia todo!
    Possamos recuperar a alegria simples e perene de viver!
    Freizinho

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