MANO VÉIO

Publicado originalmente em15/04/2013 no blogdomouralima


 


Aquele menino acaba de completar 55 anos. Ainda ontem, estava ele na casa dos pais, ajudando na labuta para sustentar uma prole já grande e ainda crescente. Mal acabara de completar onze anos e o curso primário, já assumiria o posto de braço direito da família na lida com a lavoura. Todos os dias, exceto domingo, levantava-se bem cedo, lavava o rosto, tomava uma xícara de café, enchia uma moringa com água, pegava seu cacumbu (enxada velha e mal encabada) e rumava para o roçado. Eu deveria acompanhá-lo, mas, malemolente como sempre, chegava atrasado, o que me renderia fartas e sonoras repreensões. E hoje, aqueles longínquos tempos que a memória traz de volta percorrendo um atalho – esses misteriosos cosmológicos “buracos de minhoca” de nossa mente – tomam-me de assalto.


 


O menino, certo dia, foi para a ‘cidade grande’, passando-me o cajado da responsabilidade rural, que nunca consegui segurar com firmeza, para tristeza de papai e prejuízo de todos. Mas lá da “metrópole”, o seminarista traria uma brisa civilizatória para nosso rincão. E as cartas começaram a chegar. Primeiramente, falando da nova rotina, dos amigos e mestres; depois, do aperto nos estudos e, de vez em quando, um enorme boletim escolar chegava para papai assinar. A exceção do Latim, suas notas eram boas, ótimas, fruto de grande esforço. Como sempre, a alegria nunca abandona sua irmã tristeza. Em certas cartas passaram a vir cobranças do senhor reitor. Seria preciso pagar determinada anuidade, e essa importância se avolumava gradativamente sem que papai conseguisse saldá-la. Por fim, a doce expectativa de receber a cartinha do irmão distante foi se transmudando em apreensão. Mas, felizmente, tudo se resolveu.


 


Fato marcante daqueles tempos eram as férias. Em julho e em dezembro, o rapazinho era por todos alegremente aguardado. Uma jubilosa explosão ressoava pelos vales quando a irmã mais velha anunciava: “Ele está chegando!” Era só, e o suficiente. Crianças, debandávamos ao encontro do “mano véio” como que esvoaçando pelos trilhos nos pastos em doce algaravia. Enquanto isso, os miudinhos, que mal engatinhavam, permaneciam no terreiro de casa com a irmã mais velha.  Chegando, uma enorme mala, pesadíssima, era posta no chão da sala. Aberta a mala, começava o melhor da festa. Eram tantos presentinhos, umas quinquilharias, cada qual mais interessante: um jogo de damas, um jogo de memória, chaveirinhos, baralhos, livrinhos, casacos e muito mais – coisas que ele ganhava e nos repassava. Mas era dele a prerrogativa de fazer a distribuição justa e igualitária daquela fortuna. Cada um de nós lucrava ao menos um casaquinho. Muitas vezes, na ânsia em exibir o novo modelito, vestíamos grossas lãs em pleno verão. Mas a irmã... pobre irmãzinha!... Para ela, quase nada havia. Posto que o irmão vivesse num ambiente de rapazes, e naquele tempo, diferentemente de hoje, os homens tinham hábitos estritamente masculinos, nada poderia servir à doce menina que a todos servia. Ainda assim, grande era sua alegria ao ver felizes os pequenos.


 


Quarenta anos se passaram desde aquele dia em que papai conduziu seu primogênito ao seminário. O garoto, antes mirrado, de pele queimada e de poucas letras, tornou-se robusto e ladino. Sou imensamente grato a este irmão que muito me ajudou, iniciando-me numa leitura mais seletiva e engajada. Então, para este que me foi um verdadeiro mecenas, deixo expresso meu reconhecimento, minha gratidão. Obrigado, Mano Véio!


 


FILIPE

Comentários

  1. Fez-me um bem danado reler o "requentado". Para mim é sempre novo. O Zé Chieta é uma figura singular em nossa vida, em nossa família.
    Agora já está se preparando para celebrar 60 anos (02 de abril de 2018). Mas também se preparando para uma missão estrangeira: Haiti. A energia desse homem não acaba, não!
    Em outro texto foi lembrado pelo cronista desse blog como aquele que nos introduziu na cultura urbana, na consciência política, no mundo dos artistas, na torcida para time de futebol etc. Enfim, ele nos introduziu em um universo para além do "Córrego dos Lopes". Isso sem falar na consciência eclesial: uma Igreja aberta, solidária, servidora, comprometida com os mais pobres.

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