TROCANDO OS ÓCULOS
“Escuta aqui, a armação destes óculos é de titânio, então por que quebrou tão facilmente? Olha que tenho muito cuidado...” “Deixa eu ver...”, disse o rapaz, deixando o celular e pegando meus óculos. “Ah, mas tá meio velha, não?! Tá oxidada, desgastada..., quando é que você fez?” “Há uns cinco anos.” “Vixe! Tem que trocar mesmo. Já tá velha pra caramba!” “Imagina... Por que velha, se deveria durar muito mais?...” “É o seguinte...”, ele disse pegando meus óculos, soprando as lentes e passando um papel higiênico (argh!). “Óculos não são eternos e se não quebrassem, as óticas fechariam!” “Mas, não assim tão depressa..., com sete anos de uso!” “O quê!? Sete anos?! É pra durar só dois anos!” “Nada disso. Meus primeiros óculos duraram dezessete anos, e esta armação é de titânio, de titânio!” Agora a besta fingiu que não ouviu e ficou ciscando na vitrine, com a parte amputada de meus óculos na mão. Ele não sabe o que é uma ‘liga de titânio’. Ignora ser material top, utilizado em naves espaciais, resistente a altas temperaturas, à irradiação, a bombardeio de meteoros, a bafo de balconista. “O que faço?”, perguntei. “Faz outros óculos!” “Mas essas lentes são novas, tem só uns dois meses e foram feitas aqui...” Ah, não tem jeito não. Não tem armação para elas e o negócio é fazer tudo novo.” “Vou pensar um pouco. Até mais (ou até nunca, pensei)!” O rapaz voltou para seu celular, deslizando freneticamente os dedos na tela. Agastado, saí dali sem solução para o problema.
“Bom dia! Em que posso ajudar?”, disse a moça da outra ótica onde fui pedir socorro. “Eu trouxe meus óculos, que quebraram e eu não sei por quê. Olha, eu tenho muito cuidado com eles e ...” “Deixa eu ver”, interrompeu-me com um sorriso. “Sim, aqui estão. Esta armação é de titânio, material resistente usado em naves...” Interrompeu-me novamente, descartando essas informações inúteis: “Foi feito aqui, não?” “Sim, tenho cadastro.” “Diga seu nome completo e eu já vejo.” A moça voltou com uma ficha e alguma intimidade: ”Então Fê, você sumiu, não?! Faz tempos que não nos procura... Olha, eu vou ver o que posso fazer.” E saiu com uma lente, deixando o resto da sucata no balcão. Enquanto ela experimentava a lente numa e noutra armação, eu tentava ler o jornal cujas letras mais pareciam formiguinhas ziguezagueando. “Acho que consegui. Veja se pode ser esta.” Peguei a armação e fiquei maravilhado. “Olha, que ótima!” “Então eu posso pôr as lentes, Fê?” “Sim, pode pôr, que vou levar.” Ela trouxe os óculos, limpou as lentes num guardanapinho e me pediu para experimentar. Olhou bem e disse: “Ficaram melhores do que os outros. E esses ‘restos mortais’, vai levar?...”, perguntou, apontando para os "destroços de nave espacial" a que se tornaram a armação antiga. “Vocês põem na reciclagem?” “Sim.” “Então vou deixar com vocês. Obrigado e já vou indo.” “Obrigada, Fê. Precisando, volte!”
De Carlos Drummond de Andrade, tenho apenas a mineiridade e a miopia. Como ele, também costumo perder os óculos e a paciência. Por isso, quis pô-lo no topo desta.
FILIPE
"Fê", rsrsrs, estamos na era do descartável. A prova disso é que até o bravo titânio já não é tão resistente mais (absurdo!!!). O cara que te atendeu com certeza nunca assistiu X-Men. Se tivesse visto veria que o Wolverine tem ossos de titânio, por isso que ele é indestrutível. Falta de cultura e de infância deste cara.
ResponderExcluirAh, a comparação com o Drummond foi genial!
Bom texto, caro amigo...
O que me surpreendeu foi saber que é um texto de C.D.A; pensava até então (é a cara do Felipe)
ResponderExcluir"Tem tudo haver o pinguim com a sua geladeira".
Carlos, isso não é plágio.
ResponderExcluirAté por que, se fosse do CDA, seria uma crônica bem melhor!
Não tô com essa bola toda, quem me dera...
Abraços.
De Carlos Drummond de Andrade...Estou envergonhado da falta de atenção na leitura do texto...Fui apenas dar uma olhada na sua postagem, na intenção de fazer uma nova leitura e o comentário numa hora apropriada, porém, no início do último parágrafo quando aparece de início DE...comecei achar graça e passei os olhos no restante...pensei que você estava falando que o texto era de C.D.A, por isso escrevi de forma pura e inocente, jamais consideraria você um plagiador, achei incrível como o estilo se assemelhava ao seu...
ResponderExcluirAssim como Drummond escreveu suas crônicas durante anos no Jornal do Brasil, pensei que numa dessas o estilo saiu parecido com o seu, que aliás é de muito talento.
Não se preocupe com a 'desatenção', Carlos; você também não me acusou de plagiador; fico muito feliz por tê-lo como leitor: crítico, atencioso, perspicaz; abraços.
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