NOITES JUNINAS

Ainda pequeno, tinha eu uns sete anos, papai nos levou a uma festinha – que eu não sabia ser junina. O festeiro, seu Antônio Inácio, morava numa velha casinha de pau-a-pique, que ficava próxima ao local do ranchinho onde costumo fazer a sesta nas tardes de minhas férias.


 


Chegamos à noitinha. No terreiro, um alto mastro de madeira exibia uma estampa de Santo Antônio, o patrono do folguedo. Ao lado, toras cruzadas crepitavam ao sabor das chamas, aquecendo aquela noite de junho. Não havia lua; havendo, fora ela ofuscada pela fogueira e por nós ignorada. Havia chaleiras de café e muita batata doce, que púnhamos nas cinzas que iam se formando. Broa de fubá também havia, mas preferi as batatas, que eu mesmo cobria com cinzas e depois as tirava fumegantes. Havia também uma sanfona ‘8 baixos’, que seu Antônio tocava.


 


Lá pelas tantas, meu pai consultou seu velho relógio de bolso e disse: “Vamos embora, que já é meia-noite!”  Um deslumbramento: nunca eu ficara acordado até meia-noite! Seu Antônio perguntou: “Quem vai ‘pular’ a fogueira?” E começou a preparar a passarela, quebrando as brasas, formando uma trilha pedregosa e incandescente.


 


Alguém se animou e passou. Depois outro e mais outro. Meu irmão mais velho, passou num galope e eu o segui. Impressionou-me o fato de sentir as brasas sob os pés descalços e não me queimar – uma proteção do santo milagreiro então festejado?... Mas a minha fé não era maior do que o medo das brasas. Por isso, fiz a travessia repetidas vezes, mas em poucas e velozes passadas. Meu pai também se aventurou. Com o caçula no colo – o bebê, que anos mais tarde seria missionário sacramentino –, caminhou lentamente por sobre o brasido, para espanto e admiração de todos. Com certeza, a sua fé, muito maior do que a minha, o salvou das bolhas.


 


Anos mais tarde, na escola onde fiz o primário, outra festinha aconteceu, desta vez de São João. Era sofisticada: tinha iluminação elétrica, bandeirolas, Quadrilha e Casamento do Jeca. Só que, para entrar, teria de pagar ingresso – de valor simbólico, é claro –, mas o que é ‘valor simbólico’ para quem não tem dinheiro? Eu não podia pagar e, na companhia do irmão mais novo e de um amigo, empreendemos uma burla. Havia um roçado nos fundos da escola, que no inverno virava um matagal de espinhos e carrapichos. Chafurdamos naquele mato até darmos na cerca de bambu, que rodeava a escola. A custo, abrimos um buraco e entramos um a um. Com a roupa amarfanhada, tendo que nos livrar dos espinhos e carrapichos, chegamos a tempo de participar. O sanfoneiro, seu Gentil, que eu conhecia da padaria, animava a Quadrilha. Enfim, chegou o momento mais esperado: o Casamento do Jeca.  No ‘altar’, o Zé Amaury era o ‘seu vigário’; os ‘nubentes’: Zé Lourenço e Zita; havia também um ‘delegado’ para evitar que o noivo fugisse. Estavam adornados de roscas no pescoço e pães doces na cintura, mastigando sem parar. E o ‘padre’ deu início à cerimônia com: “Pelo sinal da santa lambança, por enquanto não entrou nada em minha pança!” – arrancando a primeira de outras tantas gargalhadas.


 


Outras festas aconteceram: modernas, teatrais. Essas duas, porém, ficaram cravadas na minha memória como as mais notáveis.


 


Hoje, já não há mais folguedos nem fogueiras. As noites juninas não são mais fagueiras e suas festas não são mais joaninas.


 


FILIPE

Comentários

  1. Felipe, converso direto com a minha esposa sobre como é espantoso hoje em dia não termos mais essas festas bonitas. Essas festas marcam, assim como marcou boa impressão em seu espírito. Estamos cada vez mais pobres culturalmente, a ausência das tradicionais festas juninas é um atestado disso.

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  2. É, Felipe, valeu! Muito bem comentada a sua bisbilhotice. KKK.
    Assim você vai ser lembrado aos longos dos anos, como escritor e anedotista. Meus parabéns.

    José Lopes de Lima, 25 de junho de de 2016.

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  3. Tentando registrar comentário pela 3ª vez. Para algumas coisas na vida é preciso persistência.
    Sua crônica ajuda nossa fraca memória. Assim a gente relembra, revisita acontecimentos, refaz imagens e conceitos, alegra a alma. A moçada de 20 pra baixo não tem noção destas festas. As noites juninas atuais, com raríssimas exceções, tem pouca originalidade, além de rolar muita coisa desconhecida de tempos de antanho. Mas... os tempos são outros.
    Você pode até rir de mim, mas conservo na lembrança a cena em que o papai atravessa a fogueira comigo nos braços. Não sei se é real e se criei isto a partir dos relatos de vocês.
    Valeu, Filipe.

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